Da influência de uma professora na infância às descobertas sobre proteínas e câncer, a trajetória de Jerson Lima mostra como educadores podem transformar vidas e como a ciência, o ensino e o investimento em pesquisa multiplicam esse impacto 

A trajetória de Jerson Lima, atual pesquisador e diretor de Ensino do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), começou com o incentivo de uma professora em uma escola municipal do subúrbio do Rio de Janeiro. Décadas depois, ele se tornou um cientista de projeção internacional, contribuiu para descobertas sobre proteínas e câncer, ajudou a construir instituições científicas e formou novas gerações de pesquisadores. À frente de pesquisas e iniciativas de fortalecimento da ciência brasileira, Jerson representa o ciclo pelo qual o conhecimento e as oportunidades recebidos de grandes mestres se transformam em descobertas e legados para a sociedade. 

Como nasce um cientista? 

Nas feiras de profissões das escolas, é comum encontrar palestras de médicos, advogados, dentistas e publicitários. A ciência, contudo, costuma aparecer no imaginário infantil como uma disciplina escolar ou um recurso narrativo mágico utilizado nas histórias de super-heróis. 

Ainda assim, cientistas surgem todos os dias, das mais diversas origens, a partir dos estímulos mais singelos. É o que aconteceu em uma escola municipal no subúrbio do Rio de Janeiro, quando um menino do ensino fundamental recebeu o incentivo de uma professora para explorar leituras sobre ciências para além do conteúdo escolar. 

Filho de um sargento da Marinha e de uma mãe boleira, Jerson Lima cresceu com os irmãos em um apartamento de dois quartos na Vila Santa Teresa, em Coelho Neto. Foi sua professora da primeira série, Ana Maria, quem enxergou no menino uma característica dos descobridores: a curiosidade e a voracidade pela leitura. Com o incentivo da professora, as economias do jovem Jerson passaram a ser destinadas à compra de livros, coleções enciclopédicas e fascículos da célebre coleção Os Cientistas, publicação educacional com kits práticos de laboratório lançada no Brasil em 1972 pela Editora Abril. 

No ensino médio, ao ingressar na Escola Técnica Federal de Química, atual Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), Jerson encontrou seus pares pela primeira vez: outros jovens que, como ele, tinham profundo interesse pelas ciências da natureza. Além desse sentimento de pertencimento, o curso técnico em tempo integral proporcionou-lhe uma sólida formação em química e termodinâmica, permitindo que o estudante explorasse a literatura universitária antes mesmo de ingressar no ensino superior. 

Iniciando o contato com o mundo da pesquisa 

Aos 19 anos, Jerson ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Contudo, o encantamento de longa data pelas ciências exatas gerava um conflito: dividido entre a prática clínica e a física teórica, ele chegou a pensar em abandonar o curso logo no início. Foi então que outra figura decisiva interferiu em seu destino. Ao ingressar em um projeto de iniciação científica no laboratório de Sérgio Verjovski-Almeida, o estudante de medicina passou a pesquisar a bomba de cálcio das membranas celulares. Essa proteína funciona como um interruptor biológico que regula funções vitais do organismo. 

“Os colegas da faculdade brincavam perguntando se, ao me formar, eu iria clinicar ou tratar proteínas em meu consultório”, lembra Jerson. Diferentemente de muitos de seus colegas, ele já vislumbrava o papel central dessas macromoléculas na saúde. “O que aconteceu é que, nesses 40, 45 anos, a gente descobriu que, na maior parte das doenças, você tem algum problema com alguma proteína, principalmente nas doenças neurodegenerativas e no câncer.” 

O talento e o rigor do estudante foram tão marcantes que seu projeto de iniciação científica chegou a ser publicado em um dos periódicos mais importante da Bioquímica, o Journal of Biological Chemistry, da American Society of Biochemistry and Molecular Biology. Essa experiência contribuiu para sua trajetória acadêmica e para o ingresso no doutorado no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, quando ainda cursava o internato da Faculdade de Medicina. Após a graduação em medicina, pode ir para um estágio de dois anos na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, nos Estados Unidos, a convite de outro importante mentor: Gregório Weber. 

A revolução no entendimento das proteínas 

Na década de 1980, Weber desenvolvia protótipos de equipamentos avançados que permitiam observar, em tempo real, os movimentos e as mudanças das proteínas. Para trabalhar com essas tecnologias, Jerson precisou aprender programação e participar da montagem dos próprios equipamentos. 

“Na época, o dogma científico dominante ditava que as proteínas existiam apenas em dois estados rígidos: desenoveladas ou enoveladas. Weber não achava nada disso. Ele sabia que as proteínas tinham uma dinâmica muito mais complexa e que isso era importante para a função delas, ou seja, a proteína precisa respirar para ser funcional. Na época, fiz cursos de Fortran [Linguagem de programação de alto nível] para montar os equipamentos de fluorescência, que não eram comprados prontos como hoje. Alguns dos equipamentos atuais saíram de protótipos do laboratório dele”, explica Jerson. 

Ao lado de Gregório Weber, ele utilizou a espectroscopia de fluorescência e a alta pressão hidrostática para investigar a dinâmica, a estabilidade e o enovelamento das proteínas. “Nós usamos alta pressão para perturbar esses estados da proteína. Outros métodos de estudo são destrutivos: você aquece a proteína a 100 °C e isso a destrói, é irreversível. Com a pressão, você pode controlar. Tirando a pressão, você volta ao estado anterior, então é possível medir a dinâmica e a reversibilidade das moléculas”, esclarece o pesquisador. 

Os achados dessa parceria foram decisivos para a comunidade científica, alcançando publicações em periódicos como Journal of Biological Chemistry, Biochemisty e PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences) e demonstrando para o mundo que as proteínas possuem estruturas altamente dinâmicas e passam por estados intermediários flexíveis, cuja perturbação por pressão permite desmontar e estudar seu comportamento de forma reversível.  

Formando novos cientistas e fazendo ciência nacional: dos príons ao papel da proteína P53 no câncer 

Ao retornar ao Brasil, em 1987, Jerson Lima seguiu os passos de seus inspiradores e também se tornou professor. Como docente da UFRJ, ampliou o uso da alta pressão para investigar sistemas biológicos mais complexos em laboratórios brasileiros. Com esses recursos, ele e seus alunos descobriram que a pressão hidrostática era capaz de desmontar capas virais e inativar vírus, mantendo sua capacidade de induzir uma resposta imune. Esses resultados abriram perspectivas para o desenvolvimento de tecnologias aplicadas a vacinas e à biotecnologia. 

Na década de 1990, em meio ao debate internacional sobre a encefalopatia espongiforme bovina, conhecida como doença da vaca louca, seu laboratório voltou-se para os príons. Essas proteínas patológicas, quando assumem uma conformação incorreta, podem induzir outras proteínas a adotar a mesma estrutura anormal. Ao investigar a estrutura dos príons, o grupo identificou um possível papel dos ácidos nucleicos, como DNA e RNA, como cofatores importantes na conversão de proteínas saudáveis em formas patológicas. 

Uma descoberta de alcance internacional viria em seguida, envolvendo a proteína supressora de tumores P53. Conhecida como “guardiã do genoma”, ela desempenha um papel fundamental na proteção das células contra alterações que podem levar ao câncer. Mutações no gene que codifica essa proteína estão presentes em cerca de metade dos tumores malignos humanos. 

“Nós notamos que a P53, de supressão tumoral, tinha uma cara muito parecida com a proteína do príon, e acreditávamos que ela também teria uma característica amiloide, isto é, de formar acúmulos de moléculas que não são descartadas pelo corpo, prejudicando funções celulares. Essa sacada foi nossa! Ao investigarmos, vimos que ela realmente formava esses condensados tóxicos e abrimos espaço para estudar tratamentos do que antes era entendido como ‘undrugable’, ou seja, impossível de usar como alvo para medicamento”, relata Jerson. 

A descoberta do professor e de seus orientandos contribuiu para ampliar a compreensão sobre o papel da P53 no câncer. O grupo investigou como a agregação dessa proteína pode comprometer sua função supressora de tumores e favorecer seu o acúmulo tóxico no organismo.  

A partir desses achados, abriu-se um caminho de investigação para o desenvolvimento de moléculas capazes de recuperar a atividade da P53 e desfazer seus agregados, trabalho continua a mobilizar o professor e seus alunos em suas pesquisas atuais. 

Replicando a magia transformadora da ciência 

Revolucionar o entendimento do câncer já seria um desfecho notável para a história do menino de Coelho Neto que gostava de fazer experimentos a partir de revistas. Mas a trajetória de Jerson Lima está longe de se encerrar nessa descoberta. 

Além de suas pesquisas, seu nome está associado à criação e à consolidação de importantes infraestruturas e iniciativas de apoio à ciência brasileira. Em 1998, ele liderou a criação do Centro Nacional de Ressonância Magnética Nuclear Jiri Jonas (CNRMN), na UFRJ, que se tornou uma referência na América Latina e passou a atrair pesquisadores do Brasil e do exterior. Posteriormente, ajudou a fundar e consolidar o Centro Nacional de Biologia Estrutural e Bioimagem (Cenabio), também na UFRJ, e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Biologia Estrutural e Bioimagem (INBEB). 

Na gestão pública, atuou como diretor científico da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) entre 2003 e 2018 e como presidente da instituição entre 2019 e 2024. Sua atuação destacou-se pela descentralização do fomento, pelo apoio a jovens cientistas e pela defesa da vinculação constitucional de recursos para a pesquisa. Essas iniciativas refletem sua convicção de que o investimento em ciência e tecnologia é também uma ferramenta de reparação social. 

Em 2025, Jerson assumiu a direção de Ensino do IDOR, onde também desenvolve pesquisas voltadas à medicina translacional e de precisão. Seus estudos incluem o uso de modelos tridimensionais de tumores derivados de pacientes para testar fármacos contra a proliferação maligna e o desenvolvimento de métodos ultrassensíveis de biópsia líquida para identificar oligômeros amiloides no sangue por meio da tecnologia SiMoA. 

O pesquisador também encontra espaço para se dedicar a outra paixão: a literatura. Autor dos livros de poesia Quase Poesia (2016), Cinzas de Luz (2023) e Poema de Papel (2025), lançou ainda neste ano o seu primeiro romance, Vidas Emaranhadas, obra semibiográfica que contrapõe mecânica quântica e a física de proteínas à realidade dura e lírica das periferias do Rio de Janeiro. 

E para arrematar tantas conquistas e galardões, no momento desta entrevista ao IDOR, a UFRJ acabara de lhe conceder uma de suas mais altas honrarias: o título de Professor Emérito. 

O menino, o professor e a ciência 

A história de Jerson Lima começou com professores que enxergaram nele possibilidades que ainda estavam por se revelar. Décadas depois, suas contribuições à ciência, à formação de pesquisadores e à construção de instituições científicas mostram o alcance daquele gesto inicial. Suas descobertas ajudaram a abrir novas perspectivas para o estudo do câncer e de outras doenças, enquanto sua atuação acadêmica e pública contribuiu para fortalecer a pesquisa no Brasil e formar novas gerações de cientistas. 

Talvez uma das dimensões mais importantes de seu legado seja justamente essa: ter transformado em compromisso próprio aquilo que recebeu de seus mestres. Porque, na história de um cientista, o impacto de um bom professor ultrapassa a sala de aula e se prolonga nas perguntas que seus alunos aprendem a fazer, nas descobertas que realizam e nas vidas que ajudam a transformar. 

19.10.2026 Jerson Lima da Silva