Ensaio clínico não conseguiu demonstrar benefício do extrato de própolis verde na capacidade funcional de pessoas com doença coronariana crônica 

Publicado na revista científica internacional Pharmaceuticals e realizado com participação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), um estudo investigou se a suplementação com extrato de própolis verde brasileira poderia melhorar a capacidade funcional e os sintomas de pacientes com doença coronariana crônica que já recebiam tratamento médico otimizado. 

A inflamação como alvo no tratamento cardíaco 

Produzida pelas abelhas a partir de plantas do gênero Baccharis, a própolis verde brasileira é uma das grandes aliadas nacionais na prevenção e combate a viroses e doenças inflamatórias. Contudo, uma pesquisa recente mostrou que seus poderes podem não ser tão efetivos contra a doença coronariana crônica, uma das principais causa de morte em todo o mundo.  

A doença, causada principalmente pelo acúmulo de placas nas artérias devido processos inflamatórios (aterosclerose), tem sido controlada nas últimas décadas por medicamentos como a colchicina, que reduz a inflamação cardíaca e resulta em menos eventos cardiovasculares. 

Como a própolis verde brasileira é conhecida por suas propriedade anti-inflamatórias e antioxidantes (como outro estudo do IDOR já comprovou no combate à covid-19), os pesquisadores decidiram investigar se o extrato padronizado, EPP-AF, poderia ser um recurso capaz de trazer benefícios cardiovasculares. 

O ensaio clínico, batizado de PRAIA, teve como objetivo principal avaliar se seis semanas de suplementação com EPP-AF seriam capazes de melhorar a capacidade funcional de pacientes sintomáticos com doença coronariana estável, ajudando essas pessoas a tolerar melhor a angina, dor ou desconforto que os pacientes sentem no peito ao realizar esforço físico. 

Como a pesquisa foi feita 

Para o estudo, 59 adultos com diagnóstico confirmado de doença coronariana crônica foram recrutados, todos apresentavam sintomas persistentes de angina, apesar do uso de tratamento medicamentoso. 

Os participantes foram separados em grupos para receber 200 mg de EPP-AF (35 pacientes) ou placebo (24 pacientes), duas vezes ao dia. A capacidade funcional foi avaliada por teste de esforço em esteira, por questionários padronizados e pela classificação clínica da angina e da dosagem de proteína C-reativa ultrassensível, um marcador inflamatório. 

Resultados: melhora discreta, mas sem diferença real 

Após cerca de 6,5 semanas de acompanhamento, não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos quanto ao desfecho primário do estudo. O tempo de exercício em esteira aumentou cerca de 39 segundos no grupo que recebeu própolis e 30 segundos no grupo placebo, uma diferença considerada pequena e sem relevância clínica. 

O mesmo padrão foi observado nos desfechos secundários. Não houve melhora significativa na capacidade funcional, nem nos biomarcadores, nem na frequência ou estabilidade da angina. Em outras palavras, a própolis verde não se mostrou superior ao placebo nesse cenário específico. 

Os autores destacam que os participantes já estavam bem tratados do ponto de vista médico, o que reduz a margem para ganhos adicionais. Além disso, muitos não apresentavam inflamação sistêmica elevada no início do estudo, o que pode ter limitado o potencial benefício de uma intervenção anti-inflamatória. 

Investigando terapias naturais com rigor científico 

O trabalho foi o primeiro ensaio clínico randomizado a testar a própolis verde brasileira como possível terapia antianginosa. Seus autores ressaltam que a EPP-AF é muito segura para os pacientes, e suas propriedades biológicas justificam novas investigações. Estudos multicêntricos, com mais participantes, poderão esclarecer se há subgrupos de pacientes que se beneficiem dessa abordagem. 

Ainda assim, a pesquisa atual amplia o conhecimento sobre terapias naturais investigadas com rigor científico e reforça a importância de testar hipóteses promissoras antes de incorporá-las à prática clínica. 

Escrito por Maria Eduarda Ledo de Abreu. 

 

Pesquisadores e profissionais IDOR / Rede D’Or envolvidos na publicação:
Rodrigo Morel Vieira de Melo — IDOR / Hospital São Rafael (Rede D’Or), Salvador 
Tainá Teixeira Viana — IDOR / Hospital São Rafael (Rede D’Or), Salvador 
Marcelo Augusto Duarte Silveira — IDOR / Hospital São Rafael (Rede D’Or), Salvador 

17.07.2026