Pesquisa brasileira mostra que células-tronco de pacientes com síndrome rara podem reproduzir a gravidade da doença de forma personalizada, sem métodos invasivos nem modelos animais
Um estudo publicado no Journal of Neurochemistry, com participação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), utilizou modelos humanos desenvolvidos em laboratório para investigar a síndrome de Dravet, uma forma rara e grave de epilepsia genética que surge na infância. A pesquisa acompanha uma tendência mundial de redução do uso de animais no desenvolvimento de medicamentos, reforçada em março deste ano pelo Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora de alimentos, medicamentos e saúde pública dos Estados Unidos.
Novas abordagens metodológicas estão transformando a pesquisa biomédica
Em março de 2026, o FDA publicou uma diretriz preliminar para incentivar o uso de métodos alternativos aos testes em animais, consolidando uma transformação que já vinha ganhando força na pesquisa biomédica. A proposta é ampliar a adoção das chamadas Novas Abordagens Metodológicas (NAMs), conjunto de tecnologias que inclui modelos baseados em células humanas, organoides tridimensionais e ferramentas computacionais capazes de prever, com mais precisão, como o organismo humano responderá a novas terapias.
A iniciativa pretende acelerar o desenvolvimento de medicamentos mais seguros e eficazes, além de enfrentar limitações históricas e éticas dos modelos animais, que nem sempre conseguem reproduzir com fidelidade as respostas humanas. Essa mudança acompanha uma tendência regulatória internacional que também avança no Brasil. Desde 2025, o uso de animais em testes de cosméticos, produtos de higiene pessoal e perfumes está proibido no país, tornando obrigatória a adoção de métodos alternativos nesses setores.
Benefícios das NAMs no estudo de doenças raras
Entre as NAMs estão os estudos in vitro, as simulações computacionais preditivas e também os modelos com organoides 3D, que utilizam células humanas para modelar doenças em laboratório. Estes últimos são particularmente estratégicos, pois utilizam a coleta não invasiva de células dos próprios pacientes, como por exemplo da urina, para produzir ambientes biológicos complexos que, além de humanos, são personalizados de acordo com o DNA de cada indivíduo. Isso é especialmente importante para entender doenças raras, como a síndrome de Dravet, que apresenta manifestações muito diferentes entre pacientes.
A Dra. Marília Zaluar, coordenadora do estudo e pesquisadora do IDOR e da UFRJ, explica que os cientistas utilizaram células dos próprios pacientes para gerar neuroesferas, modelos tridimensionais que reproduzem aspectos iniciais do cérebro humano: “Ao analisar essas estruturas, identificamos diferenças moleculares que acompanham a gravidade clínica da doença, o que ajuda a entender por que a síndrome de Dravet se manifesta de formas tão distintas e aponta caminhos para abordagens mais personalizadas”, afirma.
Entendendo a síndrome de Dravet além das crises epilépticas
A síndrome de Dravet é uma forma rara e grave de epilepsia genética, geralmente causada por mutações no gene SCN1A, essencial para a atividade elétrica normal dos neurônios. Os sintomas costumam começar no primeiro ano de vida, com crises epilépticas frequentes e severas, podendo evoluir também para déficits cognitivos, dificuldades motoras e prejuízos importantes na autonomia e na qualidade de vida.
Para investigar a grande variação de gravidade da doença, os pesquisadores brasileiros coletaram células da urina de três pacientes com diferentes graus da síndrome, criando então estruturas tridimensionais chamadas neuroesferas 3D. Essas NAMs consistem em pequenos agrupamentos de células nervosas em desenvolvimento, capazes de reproduzir, em laboratório, etapas iniciais da formação do cérebro.
As alterações nas células acompanharam a gravidade dos sintomas
Mesmo com diferenças importantes na gravidade da síndrome de Dravet entre os pacientes, as células conseguiram se desenvolver preservando as particularidades moleculares de cada participante. Os cientistas então mediram a gravidade da síndrome em cada paciente utilizando uma ferramenta chamada DANCE, que avalia aspectos como cognição, comportamento, habilidades motoras, autonomia no dia a dia e impacto na vida familiar.
As pontuações foram de 31% para o paciente com comprometimento leve, 55% para o de gravidade moderada e 82% para o paciente com comprometimento muito alto, que também apresentou quociente intelectual abaixo de 20.
Depois dessa avaliação clínica, os pesquisadores analisaram as proteínas presentes nas neuroesferas de cada paciente para entender como esses processos biológicos estavam ocorrendo. Ao todo, foram identificadas 770 proteínas com diferenças significativas entre os pacientes, sendo que o caso mais grave apresentou o maior número de alterações.
As diferenças entre as proteínas indicaram que, no paciente com sintomas mais leves, as células apresentavam maior atividade em processos de comunicação entre neurônios e na formação das conexões cerebrais. Já no paciente com quadro mais grave, as células mostraram sinais de menor capacidade de produzir energia e maior ativação de mecanismos relacionados ao estresse celular. Ou seja, quanto mais grave era o quadro clínico, mais alterado estava o funcionamento celular observado nas neuroesferas.
“Uma possível evolução desse tipo de plataforma que estamos criando será a triagem de novos medicamentos. Se conseguirmos reproduzir mais dos aspectos moleculares associados a diferentes graus de gravidade da síndrome de Dravet nos esferoides cerebrais de cada paciente, conseguiremos usar esses modelos para testar a resposta a candidatos terapêuticos, reduzindo o uso de animais e melhor fundamentando estudos clínicos”, acrescenta o Dr. Stevens Rehen, pesquisador do IDOR e da UFRJ que coordenou o desenvolvimento dos modelos celulares no Rehen Lab, laboratório localizado no IDOR.
Resultados exemplificam o potencial das NAMs na investigação de doenças humanas
Segundo os autores, o estudo mostra que neuroesferas derivadas de células dos próprios pacientes conseguem preservar características biológicas individuais da síndrome de Dravet. Essa capacidade representa uma vantagem em relação aos estudos realizados em animais e pode ser muito valiosa para aprimorar a classificação dos pacientes e testar abordagens terapêuticas mais personalizadas.
Além dos resultados sobre a síndrome de Dravet, o estudo demonstra, na prática, o potencial das Novas Abordagens Metodológicas (NAMs) para a pesquisa biomédica. No caso de doenças neurológicas complexas, modelos tridimensionais como esse permitem observar alterações celulares que dificilmente seriam reproduzidas com a mesma precisão em modelos convencionais.
Assim, o estudo não apenas amplia a compreensão sobre uma epilepsia rara, mas também exemplifica como a ciência já está avançando na direção defendida por agências reguladoras internacionais. À medida que as NAMs ganham espaço, pesquisas como esta mostram que métodos baseados em células humanas podem contribuir para uma ciência mais precisa, personalizada e ética no desenvolvimento de novas terapias.