Estudo com participação do IDOR revela forte concentração das evidências científicas em países de alta renda 

Um estudo publicado na revista científica Respiratory Research & Clinical Practice, com participação de pesquisadores do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), identificou uma importante lacuna de representatividade nas pesquisas que sustentam as diretrizes internacionais para o tratamento da pneumonia adquirida na comunidade em sua forma grave. A análise mostra que pacientes e pesquisadores de países de baixa e média renda têm participação muito pequena na produção das evidências utilizadas para orientar decisões médicas em todo o mundo. 

Os pesquisadores revisaram 115 referências utilizadas nas diretrizes internacionais de 2023, elaboradas conjuntamente pela European Respiratory Society (ERS), European Society of Intensive Care Medicine (ESICM), European Society of Clinical Microbiology and Infectious Diseases (ESCMID) e Asociación Latinoamericana de Tórax (ALAT). O levantamento revelou que apenas seis referências, ou 5,2% do total, incluíram estudos realizados, ao menos parcialmente, em países de baixa ou média renda. Nenhum estudo de um país de baixa renda foi identificado. 

A desigualdade se torna ainda mais evidente quando observada a origem dos pacientes. 99,9% dos participantes das pesquisas eram provenientes de países de alta renda. Em contrapartida, apenas 654 pacientes estavam relacionados a estudos realizados em países de baixa e média renda, incluindo Índia, Paquistão, Egito e Nigéria.   

Os Estados Unidos concentraram 43% dos estudos analisados, seguidos por França, com 15%, e Itália, com 14%. Ao todo, 80,5% dos locais onde as pesquisas foram realizadas estavam em países de alta renda. 

Para Guilherme Zonis, primeiro autor do estudo e residente de medicina interna no Hospital Copa D’Or, os resultados levantam uma questão importante sobre a aplicação global das recomendações. “Uma diretriz internacional precisa ser aplicável a pacientes de diferentes partes do mundo. Quando a evidência está concentrada em poucos países e populações, precisamos discutir até que ponto essas recomendações podem ser generalizadas para contextos diferentes”. 

A análise também encontrou baixa representatividade feminina entre os pacientes estudados. A participação de mulheres variou de 4,7% a 70,5%, com uma proporção média de apenas 36%. 

Para os pesquisadores, o resultado reforça um problema já observado em diferentes áreas da pesquisa clínica: determinados grupos da população podem estar sub-representados nas evidências que posteriormente orientam condutas médicas. 

A diversidade étnica foi ainda menos documentada. Somente 12 das 77 referências analisadas (15,6%) apresentaram informações sobre raça ou etnia dos pacientes. 

Nos estudos que apresentaram esses dados, os pacientes identificados como brancos representaram entre 72,2% e 91,2% das amostras, dependendo da recomendação analisada.   

Para os autores, a baixa diversidade das populações estudadas pode limitar a capacidade de aplicar os resultados a pacientes com características epidemiológicas, sociais e clínicas diferentes das populações originalmente pesquisadas. 

Quem produz a evidência também está concentrado nos países ricos 

A desigualdade identificada entre os pacientes também aparece na autoria dos estudos que sustentam as recomendações internacionais. 

Dos 148 primeiros e últimos autores analisados, 75,6% dos primeiros autores eram homens. Entre os últimos autores, posição frequentemente ocupada pelo pesquisador mais sênior ou responsável pela supervisão do trabalho, a proporção masculina chegou a 96,1%. 

A concentração geográfica foi igualmente expressiva: 96,1% dos primeiros e dos últimos autores estavam vinculados a instituições de países de alta renda. 

Apenas dois autores de países de baixa ou média renda foram identificados entre os primeiros e últimos autores dos estudos analisados, ambos do Egito. “Diversidade na ciência não significa apenas aumentar números. Pesquisadores de diferentes regiões e experiências podem trazer novas perguntas, perspectivas e necessidades. Isso é importante para produzir evidências mais relevantes e aplicáveis a diferentes realidades”, destaca Jorge Salluh, pesquisador do IDOR e coordenador do estudo. 

Outro achado do estudo foi à existência de restrição de idioma na seleção das pesquisas em três das oito questões clínicas que fundamentaram as recomendações. Nesses casos, foram considerados estudos publicados em inglês e espanhol. 

Segundo os pesquisadores, a restrição linguística pode dificultar a inclusão de pesquisas produzidas em países que não utilizam esses idiomas como principais línguas de publicação científica. 

O problema pode ser ainda mais relevante em países de baixa e média renda, que já enfrentam barreiras relacionadas a financiamento, infraestrutura para pesquisa e acesso aos circuitos internacionais de publicação científica. 

Por que isso importa para quem está na UTI? 

A pneumonia adquirida na comunidade grave é uma importante causa de internação em unidades de terapia intensiva em todo o mundo. Entretanto, os pacientes podem apresentar diferenças importantes de acordo com o país e a região, incluindo características epidemiológicas, doenças associadas, agentes causadores das infecções, condições socioeconômicas e acesso a recursos de diagnóstico e tratamento. 

Nesse contexto, uma das questões levantadas pelo estudo é até que ponto uma recomendação construída majoritariamente a partir de pesquisas realizadas em países ricos pode ser aplicada da mesma maneira em populações de diferentes realidades. “Não se trata de desconsiderar as evidências existentes, mas de reconhecer uma lacuna. Precisamos ampliar a participação de diferentes populações e regiões na pesquisa clínica para que o conhecimento produzido seja capaz de responder às diferentes realidades da saúde global”, afirma Salluh.  

Para os pesquisadores, ampliar a diversidade dos participantes dos estudos e dos próprios grupos responsáveis pela produção científica pode contribuir para aumentar a representatividade e a aplicabilidade das evidências utilizadas na elaboração de diretrizes internacionais. 

O estudo conclui que as recomendações atuais para o tratamento da pneumonia adquirida na comunidade grave não apresentam representatividade suficiente da população mundial nem diversidade adequada entre os autores das pesquisas que as sustentam. Os resultados reforçam a necessidade de ampliar a participação de diferentes países, populações e pesquisadores na produção das evidências que orientam a prática médica.

Escrito por Manuelly Gomes
Revisado por Claudio Ferrari

Pesquisadores e profissionais IDOR / Rede D’Or envolvidos na publicação: 

  • Guilheme H. C. Zonis: Hospital Copa D’Or
  • Gloria A. R. Martins: Hospital Barra D’Or
  • Melissa Tassano Pitrowsky: IDOR
  • Mariana Balbi: IDOR
  • Bruno Adler Maccagnan Pinheiro Besen: IDOR
  • Antonio Paulo Nassar Jr: IDOR 
  • Giulliana Moralez: IDOR
  • Jorge I F Salluh: IDOR
01.10.2026 Jorge Salluh Bruno Adler Maccagnan Pinheiro Besen Antonio Paulo Nassar Junior