Estudo destaca o papel de moléculas liberadas durante o exercício e mostra que diferenças biológicas entre homens e mulheres podem influenciar a proteção do cérebro contra a demência
Uma revisão científica publicada na revista Frontiers in Neuroendocrinology, com participação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), investigou como a atividade física pode ajudar a prevenir a doença de Alzheimer e por que seus efeitos podem variar entre homens e mulheres. O estudo destaca o papel de moléculas produzidas durante o exercício, como BDNF e irisina, e sugere que intervenções físicas personalizadas, levando em conta diferenças biológicas entre os sexos, podem ser fundamentais para reduzir o risco de declínio cognitivo ao longo da vida.
Alzheimer e fatores de risco modificáveis
A doença de Alzheimer é a principal causa de demência no mundo, sendo responsável por até 80% dos casos. Atualmente, mais de 55 milhões de pessoas vivem com algum tipo de demência, e a previsão é que esse número alcance 139 milhões até 2050.
Embora novos medicamentos tenham sido desenvolvidos, esses tratamentos não se mostraram capazes de reverter ou impedir a progressão da doença, fora o fato de que costumam ter alto custo e podem determinar efeitos adversos importantes.
Diante da incidência crescente e da pouca eficácia dos tratamento até o momento disponíveis, o desenvolvimento de estratégias para prevenção baseadas em mudanças no estilo de vida tem recebido a atenção da comunidade médica em geral, buscando a redução de chances da doença.
Na verdade, as estimativas levantadas pelo estudo indicam que até 40% dos casos de demência podem estar ligados a fatores de risco modificáveis, como sedentarismo, obesidade ou doenças cardiovasculares. Nesse contexto, a atividade física tem se destacado como uma das intervenções mais promissoras para proteger o cérebro ao longo do envelhecimento.
Mulheres têm maior risco, mas também maior benefício cognitivo
As mulheres são desproporcionalmente afetadas pela doença de Alzheimer. Nos Estados Unidos, por exemplo, elas representam cerca de dois terços dos pacientes diagnosticados.
Contudo, apesar desse risco maior, estudos sugerem que elas podem obter benefícios cognitivos mais significativos com a prática de exercícios. Um ensaio clínico mostrou que seis meses de treinamento aeróbico melhoraram o desempenho cognitivo em mulheres, mas não em homens, mesmo quando ambos apresentaram ganhos semelhantes na aptidão física.
Curiosamente, o nível de atividade física costuma ser menor entre mulheres adultas em comparação aos homens, e o declínio da prática de exercícios ao longo da vida também tende a ser mais acentuado nelas. Isso torna o incentivo à atividade física ainda mais relevante para essa população.
As moléculas do exercício que protegem o cérebro
Parte dos benefícios do exercício para o cérebro está relacionada à liberação de moléculas conhecidas como exercocinas, produzidas pelos músculos durante a atividade física.
Entre as mais estudadas está o BDNF, uma proteína essencial para a plasticidade do cérebro, ou seja, a capacidade de formar novas conexões entre neurônios. O BDNF também está envolvido na neurogênese, processo de formação de novos neurônios, e níveis mais altos dessa molécula estão associados a um declínio cognitivo mais lento. É como se ela fosse uma grande “protetora” natural da saúde neurológica.
Outro componente importante é a irisina, uma substância liberada pelos músculos durante o exercício a partir da proteína FNDC5. A irisina estimula a produção de BDNF no cérebro e também parece ativar enzimas que ajudam a eliminar a proteína beta-amiloide, conhecida por se acumular no cérebro de pacientes com Alzheimer.
Experimentos com camundongos mostraram ainda que o tratamento com irisina reduziu a patologia da proteína tau no hipocampo de fêmeas, mas não em machos, sugerindo que seus efeitos podem depender do sexo biológico.
Menopausa e mudanças hormonais no cérebro
Mudanças hormonais também podem influenciar a vulnerabilidade ao Alzheimer. O estrogênio, hormônio que diminui após a menopausa, regula a produção de BDNF. Com a queda hormonal, os níveis dessa molécula neuroprotetora também tendem a diminuir.
Isso pode contribuir para o aumento do risco de declínio cognitivo em mulheres mais velhas. Nesse cenário, a atividade física pode atuar como uma estratégia capaz de estimular novamente essas vias moleculares de proteção do cérebro, e essa relação reforça a importância de promover exercícios físicos especialmente entre mulheres na pós-menopausa.
Uma lacuna na pesquisa sobre Alzheimer
Apesar das evidências crescentes, ainda existe uma grande lacuna na literatura científica sobre as diferenças entre homens e mulheres na doença de Alzheimer. Os pesquisadores do estudo defendem que compreender essas diferenças é essencial para o desenvolvimento de estratégias de prevenção mais eficazes.
A publicação aponta para a necessidade de criar protocolos de exercícios personalizados e sensíveis ao sexo, capazes de aproveitar melhor os mecanismos biológicos que ligam atividade física e proteção cerebral. Esse tipo de abordagem pode se tornar uma ferramenta importante da medicina de precisão no combate ao declínio cognitivo, principalmente para o sexo mais vulnerável ao desenvolvimento da doença de Alzheimer.