No Dia Mundial do Cérebro, uma hipótese formulada por pesquisadores do IDOR ajuda a explicar por que algumas mentes resistem melhor ao tempo — e por que decifrar o cérebro segue sendo uma avenida central da ciência brasileira.

 

Há um paradoxo no coração da neurociência: o instrumento que usamos para entender o mundo é, ele próprio, o objeto mais difícil de compreender. O cérebro humano, cerca de 1,4 kg de tecido com bilhões de neurônios, continua sendo um dos maiores enigmas científicos da nossa era.

Neste Dia Mundial do Cérebro, 22 de julho, vale encarar esse enigma não como um obstáculo, mas como um convite. Um convite a investigar, a questionar e a colaborar.

Uma avenida que o IDOR percorre desde o começo

Quando o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino foi fundado, em 2010, a neurociência estava entre suas primeiras áreas de investigação. Não por acaso: entender o sistema nervoso é entender as bases de boa parte das doenças que mais afetam a qualidade de vida das pessoas, dos transtornos do neurodesenvolvimento às doenças neurodegenerativas do envelhecimento.

Hoje, mais de uma década depois, a neurociência segue como um dos pilares-chave do Instituto, que reúne mais de 100 pesquisadores e já ultrapassou 2.000 publicações em periódicos científicos internacionais.

A poupança do cérebro

Todos conhecemos os dois extremos. De um lado, a pessoa que atravessa os 90 anos com a memória intacta e a conversa afiada. De outro, aquela cujo declínio cognitivo se instala cedo e avança rápido. Muitas vezes, exames de imagem revelam algo desconcertante: cérebros com danos estruturais parecidos, desfechos completamente diferentes.

O que explica essa diferença?

Uma resposta possível acaba de ser formulada por pesquisadores brasileiros. Em artigo publicado na revista Brain, os cientistas Roberto Lent e Fernanda Tovar-Moll, do IDOR, em parceria com Diego Szczupak, da Universidade de Pittsburgh, propõem o conceito de Reserva Conectômica.

A ideia é a seguinte: ao longo da vida, o cérebro constrói e mantém um repertório de conexões que funciona como uma espécie de reserva estratégica. Quando uma lesão compromete determinada via, esse substrato neural pode ser mobilizado para compensar a perda e preservar as funções cognitivas.

É um conceito que reorganiza a forma de pensar a neuroplasticidade — não como um evento pontual, disparado apenas diante do trauma, mas como um processo contínuo de acumulação e reorganização que acompanha o cérebro do nascimento ao envelhecimento.

O conceito foi apresentado em primeira mão pelo Dr. Roberto Lent durante o Brain Congress 2026, e dialoga diretamente com mais de uma década de investigação do Instituto sobre como o cérebro se reinventa diante da adversidade.

O cérebro que se transforma

Boa parte da pesquisa em neurociência do IDOR gira em torno de um conceito fascinante: a plasticidade cerebral, a capacidade que o cérebro tem de se reorganizar e criar rotas alternativas diante de adversidades.

Usando técnicas avançadas de neuroimagem, como a ressonância magnética funcional, os pesquisadores do Instituto mapeiam as conexões entre as diferentes regiões do cérebro, tanto no órgão saudável quanto em situações patológicas. Entre as condições estudadas estão o acidente vascular cerebral (AVC), a síndrome do membro fantasma após amputações e malformações congênitas como a disgenesia do corpo caloso, a estrutura responsável por conectar os dois hemisférios cerebrais.

O IDOR pesquisa essa condição desde sua fundação. Já em 2014, um trabalho liderado pela Dra. Fernanda Tovar-Moll identificou, por ressonância magnética, vias alternativas que o cérebro desses pacientes constrói para manter os hemisférios em comunicação.

Em 2021, o esforço rendeu um avanço importante. Publicado no periódico Brain Communications em parceria com a Universidade de Pittsburgh, a Fiocruz e a UFRJ, o estudo analisou 11 pacientes e revelou que cada tipo de disgenesia tem uma assinatura própria de reorganização cerebral. Pacientes com agenesia completa, apesar de terem menos conexões, reproduziam padrões funcionais próximos aos de pessoas saudáveis. Já os com hipoplasia mostraram uma reorganização mais extensa, porém desordenada, o que ajudaria a explicar por que apresentam sintomas mais graves.

“O corpo caloso hipoplásico costuma conectar regiões do cérebro que não deveria conectar. Em vez de uma plasticidade benéfica, essa característica pode ser um causador de sintomas.” Dr. Diego Szczupak, primeiro autor do estudo

Treinar o cérebro para se transformar

Se o cérebro se reorganiza sozinho diante da adversidade, seria possível induzir essa transformação de forma controlada?

 

Usando neurofeedback, técnica que mostra ao indivíduo sua própria atividade cerebral em tempo real, por ressonância magnética funcional, para que ele aprenda a controlá-la, pesquisadores do IDOR e da UFRJ chegaram a um resultado surpreendente: menos de uma hora de treinamento já produziu um fortalecimento estrutural do corpo caloso e um aumento na comunicação funcional entre as áreas sensitivas e motoras do cérebro.

A pesquisa, publicada na revista NeuroImage, coordenada por Dra. Fernanda Tovar-Moll e Dr. Jorge Moll, presidente do conselho do IDOR, com apoio da FAPERJ. O próximo passo, segundo Tovar-Moll, é investigar se pacientes com desordens neurológicas podem se beneficiar da técnica

“Sabemos que o cérebro tem uma capacidade fantástica de modificação, mas não tínhamos certeza de que era possível observá-la tão rapidamente.” Dra. Fernanda-Tovar Moll, médica, neurocientista PHD, presidente do IDOR e membro da Academia Nacional de Medicina.

O cérebro depois da pandemia

A neurociência do IDOR também se voltou para uma questão urgente: o que a covid-19 deixa no cérebro. Um estudo do Instituto publicado na Brain, Behavior and Immunity, com participação da UFRJ e de outras instituições nacionais e internacionais, reuniu evidências de que dificuldades de memória, sintomas depressivos e alterações estruturais no cérebro podem ser consequência de uma atividade inflamatória persistente no sistema nervoso após a infecção.

Em outra frente, uma parceria entre IDOR, Unicamp e USP publicada na PNAS — coordenada, entre outros, pelo Dr. Daniel Martins-de-Souza, pesquisador do IDOR e professor da Unicamp — mostrou que o SARS-CoV-2 pode causar danos físicos em estruturas cerebrais ligadas à memória e ao aprendizado, mesmo em pacientes com quadros leves.

Da genética ao diagnóstico precoce

Se a neuroimagem permite ao IDOR observar o cérebro de fora, uma outra frente de pesquisa do Instituto trabalha na escala oposta: a do próprio código genético.

O pesquisador Dr. Thyago Leal-Calvo, PhD em biologia molecular e genômica, dedica-se à aplicação da edição genética por CRISPR ao tratamento de doenças neurodegenerativas — com atenção especial à doença de Alzheimer. A técnica, que permite editar trechos específicos do DNA com precisão inédita, é hoje uma das apostas mais promissoras da medicina para condições até então consideradas intratáveis.

Vinculado à iniciativa Ciência Pioneira, Leal-Calvo conduziu um treinamento avançado no Innovative Genomics Institute (IGI), em Berkeley, sob supervisão da equipe da Dra. Jennifer Doudna, ganhadora do Prêmio Nobel de Química pelo desenvolvimento do CRISPR. A colaboração entre o IDOR e o IGI busca desenvolver tratamentos não apenas inovadores, mas acessíveis, uma preocupação central quando se trata de terapias gênicas cujos custos, hoje, são proibitivos para a maior parte da população.

A pesquisa do IDOR também tem contribuído para tornar o diagnóstico das doenças neurodegenerativas mais preciso e acessível. Em estudo publicado na Nature Communications, pesquisadores do Instituto, em parceria com a UFRJ, a Neurolife e a Queen’s University (Canadá), validaram biomarcadores sanguíneos capazes de identificar alterações associadas à doença de Alzheimer em pacientes brasileiros. Entre eles, o pTau217 plasmático apresentou acurácia de 94% para detectar alterações cerebrais relacionadas à doença, enquanto o pTau181 demonstrou potencial para diferenciá-la de outros tipos de demência. A expectativa é que, com a incorporação desses biomarcadores à prática clínica, seja possível ampliar o diagnóstico precoce e facilitar o acesso de pacientes às terapias emergentes.

É uma frente que dialoga diretamente com a pergunta que abre este texto. Se a reserva conectômica descreve como o cérebro resiste ao tempo, a edição genética investiga se é possível intervir nos mecanismos moleculares que determinam essa resistência.

Quando a pesquisa chega ao paciente

A produção científica do IDOR também se reflete na prática clínica por meio do Centro de Neuropsicologia Aplicada (CNA) e o Memory Clinic. O serviço integra pesquisa e assistência especializada para crianças, adolescentes, adultos e idosos com suspeita de transtornos de aprendizagem e atenção, alterações comportamentais, dificuldades de memória e outras condições neurológicas. Além do atendimento multidisciplinar, pesquisadores conduzem estudos sobre transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e doença de Alzheimer, contribuindo para o desenvolvimento de novos métodos diagnósticos e abordagens terapêuticas.

Ciência que não se faz sozinha

Nada disso acontece isoladamente. À frente do Instituto está a Dra. Fernanda Tovar-Moll, médica, PHD, neurocientista, referência internacional em conectividade cerebral e neuroplasticidade. Cofundadora do IDOR e membro da Academia Nacional de Medicina, é também cofundadora e integrante do conselho de governança do IRC — consórcio internacional dedicado a investigar as causas, consequências e possíveis intervenções para a disgenesia do corpo caloso e as desordens de conectividade cerebral associadas.

Ao seu lado, uma equipe que inclui o Dr. Jorge Moll, presidente do conselho do IDOR; o Dr. Roberto Lent, que lidera a Rede Nacional Ciência para Educação; e pesquisadores como Dr. Luiz Eugênio Mello, Dr. Ronald Fischer, Dr. Leonardo Fontenelle, Dra. Fernanda De Felice, Dr. Sergio Ferreira, Dr. Stevens Rehen, Dr. Paulo Mattos, Dra. Erika Rodrigues, Dr. Felipe, Daniel Martins-de-Souza e todos em seus grupos de pesquisa.

Essa lógica colaborativa é a marca do Instituto: o IDOR mantém parcerias com universidades e centros de pesquisa em mais de 80 países, incluindo instituições como Oxford, Harvard, King’s College London e a Universidade Monash. É assim que a ciência brasileira dialoga com as melhores do mundo e contribui para respostas que atravessam fronteiras.

Um convite

Pesquisar o cérebro é pesquisar o que há de mais humano em nós: a memória, a linguagem, a emoção, a capacidade de aprender e de se reinventar. É um desafio imenso. E é exatamente por isso que vale a pena.

Se o cérebro guarda uma reserva, a pergunta seguinte é inevitável: como fazer para aumentá-la? É aí que a pesquisa continua.

Neste Dia Mundial do Cérebro, o IDOR renova seu compromisso com essa fronteira. Porque cada pergunta sobre o cérebro é, no fundo, uma pergunta sobre nós mesmos.

22.07.2026