Estudo brasileiro analisou o uso de etomidato ou cetamina em mais de 1.800 pacientes críticos submetidos à intubação. Etomidato foi associado a maior mortalidade
Um estudo multicêntrico brasileiro, publicado na JAMA Network e realizado com participação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), avaliou o impacto da escolha entre dois sedativos amplamente usados na intubação de sequência rápida em pacientes críticos e encontrou diferenças relevantes na mortalidade hospitalar.
Uma decisão em segundos, efeitos por semanas
Na emergência, a intubação de sequência rápida é um procedimento vital para pacientes gravemente enfermos. A escolha do medicamento usado para induzir a sedação costuma priorizar a estabilidade imediata do paciente. O etomidato ganhou espaço justamente por causar menor queda de pressão arterial. Já a cetamina, embora também muito utilizada, sempre levantou dúvidas por seus efeitos cardiovasculares em cenários específicos.
Os pesquisadores analisaram dados de 1.810 adultos atendidos em 18 prontos-socorros brasileiros entre 2022 e 2024. Para aumentar a robustez dos resultados, o trabalho utilizou uma metodologia avançada que emula ensaios clínicos randomizados a partir de dados observacionais. O principal desfecho avaliado foi a mortalidade hospitalar em até 28 dias após a intubação.
Resultados que acendem um alerta
Os dados mostraram que pacientes que receberam etomidato tiveram maior risco de morte hospitalar em comparação aos que receberam cetamina, tanto aos 7 primeiros dias quanto aos 28 dias. Curiosamente, o etomidato esteve associado a menor instabilidade hemodinâmica nos primeiros 30 minutos após a intubação, contrapondo um possível prejuízo tardio a um benefício imediato.
A principal hipótese levantada pelos autores é que o etomidato reduz temporariamente a produção de hormônios das glândulas adrenais, responsáveis por ajudar o organismo a lidar com situações extremas de estresse. Em pacientes com sepse ou choque, que dependem intensamente dessa resposta hormonal para manter funções vitais ao longo dos dias seguintes, essa supressão pode enfraquecer a capacidade de recuperação. Assim, o medicamento ajuda no momento imediato da intubação, mas pode deixar o paciente biologicamente menos preparado para enfrentar a fase prolongada da doença, o que ajuda a explicar a maior mortalidade observada no médio prazo.
Embora as diretrizes atuais ainda permitam o uso de ambos os fármacos, os resultados reforçam a necessidade de reavaliar recomendações e estimulam a realização de ensaios clínicos definitivos. Em medicina de emergência, este estudo sugere que a escolha do sedativo não é apenas técnica, mas potencialmente decisiva para a sobrevivência do paciente.
Escrito por Maria Eduarda Ledo de Abreu.
Pesquisadores e profissionais IDOR / Rede D’Or envolvidos na publicação:
- Bruno Besen — IDOR
- Ludhmila A. Hajjar — Coordenadora da Cardiologia da Hospital Vila Nova Star e Coordenadora das UTIs Cardiológica e Cirúrgica do Hospital DF Star.