Pesquisa do IDOR investiga fatores associados à preservação da cognição e da independência física em pessoas com mais de 80 anos e aponta para novos caminhos no estudo do envelhecimento 

Viver mais não significa necessariamente viver melhor. Em um cenário de aumento da longevidade, o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) participa de uma pesquisa que busca entender por que algumas pessoas chegam aos 80 anos ou mais mantendo a autonomia física e a capacidade cognitiva, mesmo sem apresentar os fatores socioeconômicos tradicionalmente associados a um envelhecimento mais saudável. 

Uma nova perspectiva sobre a longevidade 

Viver mais nunca esteve tão em evidência. Em 2026, o Brasil entrou para o Guinness World Records com as três irmãs mais longevas do mundo: Levita, de 109 anos, Zoraide, de 104, e Zulina, de 103. Juntas, elas somavam mais de 316 anos quando o recorde foi reconhecido. 

Durante décadas, o estudo da longevidade esteve concentrado principalmente na prevenção e no tratamento de doenças. Com o aumento da expectativa de vida da população, para além da ausência de enfermidades, outros conceitos passaram a ganhar espaço na medicina, como a preservação da capacidade física e cognitiva. 

O que as Zonas Azuis podem ensinar 

Um conceito popularizado nesse assunto é o das chamadas zonas azuis, expressão popularizada pelo jornalista Dan Buettner para descrever regiões identificadas por uma concentração elevada de pessoas muito longevas. 

Nessas populações, foram observados alguns elementos em comum, como alimentação baseada em plantas, atividade física incorporada à rotina, vínculos comunitários e senso de propósito. 

Embora exista um debate científico para validar os registros que determinam a idade exata de idosos dessas regiões, a pergunta central é ratificada: como algumas pessoas conseguem envelhecer preservando sua autonomia e qualidade de vida? 

Longevidade estudada no IDOR e em Santa Catarina 

É justamente essa pergunta que orienta uma linha de pesquisa em neurociências do IDOR. Coordenado pelas pesquisadoras Fernanda De Felice, do IDOR e Ciência Pioneira, UFRJ e da Queen’s University, no Canadá, e Josiane Budni, da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC), o estudo acompanha uma coorte de idosos longevos de Santa Catarina. Fernanda De Felice explica que o objetivo do projeto consiste em investigar biomarcadores plasmático de neurodegeneração e neuroinflamação nesses idosos através da plataforma SIMOA, tecnologia de última geração presente no laboratório do IDOR, que é capaz de converter reações químicas em um sistema matemático de alta precisão. 

“O estudo coleta dados desde 2015 apara avaliar qualidade de vida desses idosos, todos com mais de 80 anos, cognição preservada e cadastro no SUS. O foco atual é investigar se no plasma sanguíneo dos participantes há fatores que podem estar relacionados com essa qualidade de vida na população”, explica a primeira autora do estudo, Eduarda Behenck Medeiros, pós-doutoranda do IDOR, da UNESC e da UFRJ, além de Bolsista Nota 10 da FAPERJ. 

A pesquisa investiga as cidades de Treviso e Siderópolis, ambas com uma população menor que 15 mil habitantes, mas com uma considerável parcela de cidadãos com mais de 80 anos, que mantêm independência física e não apresentam comprometimento cognitivo significativo.  

Reserva cognitiva e carga alostática 

Para além das doenças e de sua ausência a pesquisa da pós-doutoranda Eduarda Behenck Medeiros estuda os mecanismos como a reserva cognitiva, um conceito que descreve a capacidade de manter o desempenho mental mesmo diante de alterações associadas ao envelhecimento ou a doenças cerebrais.  

“A escolaridade é um dos fatores relacionados à formação dessa reserva. Mas, curiosamente, nas cidades longevas que estamos analisando, a população possui baixa escolaridade e baixo poder aquisitivo, que é outro fator dissonante do senso comum, já que pessoas com menos recursos têm menos acesso a bens de saúde e por isso poderiam viver menos.”, comenta a Dra. Eduarda. 

Um parâmetro que pode estar associado é a carga alostática, que representa o desgaste acumulado do organismo decorrente da necessidade de se adaptar repetidamente a situações de estresse. Mas a pesquisadora também aponta que fatores sociais podem estar diretamente relacionados à longevidade nessas cidades. 

“A primeira coisa que notamos de diferente nessas populações é o quão ativas elas são na vida social, além de respeitadas pela comunidade em geral. Muitas vezes o que falta para a saúde do idoso é se sentir parte da sociedade, porque existe uma tendência no mundo moderno a escantear essas pessoas”, acrescenta. 

Novos parâmetros para estudar o envelhecimento 

O estudo ainda está em andamento e pretende trazer informações sobre como a combinação de fatores biológicos, de estilo de vida e sociais contibuem para a preservação da saúde do cérebro na velhice. A proposta é ampliar a compreensão sobre o que diferencia o envelhecimento acompanhado de perda funcional daquele em que a pessoa mantém autonomia e capacidade cognitiva por décadas. “Com esse estudo, conseguiremos entender melhor os processos que podem trazer resiliência e prevenir a demência no envelhecimento”, explica Fernanda De Felice. 

À medida que se vive mais, prevenir doenças continua sendo fundamental, mas deixa de ser o único direcionamento. Entender como preservar cognição e independência é igualmente importante. Afinal, se a medicina já aprendeu a prolongar a vida, o próximo desafio é ajudar as pessoas a aproveitarem seus anos extras com real qualidade de vida.

04.11.2026 Fernanda G. De Felice