Estudo revela que metade das crianças expostas ao vírus Zika no útero apresentou alterações neurológicas, sensoriais ou no desenvolvimento cognitivo ou motor 

 

Publicado na revista Viruses, estudo com extensa participação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) mostrou que a ausência de microcefalia ao nascer não exclui o risco de outros problemas no desenvolvimento neurológico em crianças expostas ao vírus Zika durante a gestação. 

Muito além da microcefalia 

Durante o surto de 2015 e 2016 no Brasil, o IDOR participou ativamente do esforço internacional que relacionou a Síndrome Congênita do Zika (SCZ) ao desenvolvimento da microcefalia, condição em que o bebê nasce com o cérebro menor do que o esperado. No entanto, pesquisas ainda recentes vêm ampliando a compreensão sobre os efeitos deletérios dessa infecção. 

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Este novo estudo partiu justamente dessa lacuna, propondo investigar o que acontece com crianças expostas ao vírus Zika ainda no útero, mas que nascem com perímetro cefálico considerado normal. 

A pesquisa acompanhou gestantes atendidas no Rio de Janeiro, no recorte de março de 2015 a janeiro de 2017. Ao todo, 2882 mulheres foram avaliadas, das quais 116 apresentaram suspeita de infecção por Zika e 33 tiveram diagnóstico confirmado por exames laboratoriais, como RT-PCR e sorologia. 

Dentre os filhos dessas mulheres, 31 crianças também foram acompanhadas no estudo, desde o nascimento até os 30 meses de idade, cerca de dois anos e meio. Nesse período, foram realizados exames de imagem do cérebro, triagens auditivas e oculares, além de consultas periódicas com especialistas para avaliar o desenvolvimento neuropsicomotor 

Alterações mesmo sem sinais evidentes ao nascer 

Apenas 1 das 31 crianças avaliadas, o equivalente a 3,2% da amostra, apresentou microcefalia congênita grave. Contudo, outros dados revelaram que esse não é o único problema resultante da doença, que apresentou outros efeitos deletérios na saúde neural dos bebês. 

Entre as crianças acompanhadas, 36,4% apresentaram atraso no neurodesenvolvimento, incluindo dificuldades cognitivas e motoras; Fora isso, 29,1% tiveram alterações em exames de imagem cerebral, como calcificações e redução do volume do cérebro. 

Quando avaliadas entre 18 e 27 meses, 22 crianças passaram por exame neurológico detalhado. Dessas, 45,4% apresentaram alguma alteração, sendo o atraso na linguagem o mais frequente, identificado em 31,8% dos casos. 

Exames de ressonância magnética ou tomografia também foram realizados em 25 das crianças, detectando alterações em 7 delas. Enquanto na totalidade de bebês analisados, 10% mostraram alterações oftalmológicas e 8,3% tiveram alterações auditivas. 

Problemas de linguagem como sequela mais comum 

Um dos achados mais consistentes foi o impacto na linguagem. Aproximadamente um terço das crianças avaliadas apresentou atraso nessa área, tornando esse o principal sinal de comprometimento do desenvolvimento. 

Esse resultado está em linha com outros estudos internacionais, que também identificaram taxas entre 26% e 31% de atraso de linguagem em crianças expostas ao vírus Zika durante a gestação. 

Zika segue um alerta mesmo após o nascimento 

Os resultados reforçam que a ausência de microcefalia ao nascimento não descarta a possibilidade de sequelas. De fato, cerca de 50% das crianças acompanhadas apresentaram algum tipo de alteração ao longo dos primeiros anos de vida, mesmo sendo, em sua maioria, normocefálicas, termo usado para designar pessoas com cabeças de tamanho considerado normal. 

O estudo amplia a compreensão sobre os efeitos do vírus Zika na gestação ao mostrar que os impactos podem ser silenciosos no nascimento, mas se manifestar ao longo do desenvolvimento. Isso indica a necessidade de acompanhamento prolongado dessas crianças, com atenção especial ao desenvolvimento da linguagem, da cognição e das funções sensoriais. 

Ao evidenciar que crianças sem microcefalia também podem apresentar déficits neurológicos, auditivos e visuais, a pesquisa reforça a importância do monitoramento contínuo e de políticas de saúde voltadas ao acompanhamento dessas populações. 

Escrito por Maria Eduarda Ledo de Abreu. 

21.09.2026 Arnaldo Prata-Barbosa Fernanda Freire Tovar-Moll Maria Clara de Magalhães-Barbosa