Análise de dados de mais de 63 mil mulheres em São Paulo mostra como o estágio ao diagnóstico, a escolaridade e o acesso oportuno ao tratamento se relacionam com as chances de sobrevivência no câncer de mama.
As condições sociais e o acesso aos serviços de saúde podem influenciar as chances de sobrevivência de mulheres com câncer de mama. É o que indica um estudo publicado no periódico científico JCO Global Oncology, com participação do Dr. José Bines, oncologista e pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). A pesquisa analisou dados de 63.663 pacientes em São Paulo e identificou diferenças na sobrevida entre mulheres atendidas nas redes pública e privada, mesmo após considerar fatores como escolaridade, idade, estágio do tumor e tratamento recebido. Os resultados ajudam a compreender como desigualdades sociais e barreiras no percurso de atendimento podem afetar o prognóstico da doença.
Diagnóstico precoce amplia as chances de sobrevivência
O estudo reuniu dados de mundo real de mulheres diagnosticadas com câncer de mama invasivo entre 2012 e 2019, registradas na base do Registro Hospitalar de Câncer da Fundação Oncocentro de São Paulo. Do total de participantes, 52.814 (83%) receberam atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), enquanto 10.849 (17%) foram tratadas na rede privada.
Uma das diferenças mais expressivas apareceu no estágio da doença no momento do diagnóstico. Na rede privada, 43,6% das pacientes foram diagnosticadas no estágio I, quando o tumor ainda está em fase inicial. Entre as mulheres atendidas pelo SUS, apenas 21,9% delas apresentavam a doença neste estágio.
Já os estágios III e IV, que correspondem a quadros mais avançados, representaram 40,9% dos diagnósticos na rede pública, ante 21% na rede privada.
Esses números comprovam uma realidade dramática com consequência muitas vezes irreversíveis. É possível imaginar que as dificuldades de acesso a exames, o maior tempo para reconhecimento dos sintomas e a demora para investigar alterações suspeitas no sistema público sejam responsáveis por atrasar o diagnóstico, comprometendo, muitas vezes, o prognóstico do câncer.
Escolaridade e condições sociais fazem parte do cenário
O perfil educacional das participantes também revelou diferenças importantes. Entre as pacientes atendidas pelo SUS, 51,6% tinham até oito anos de escolaridade. Na rede privada, 52,7% haviam estudado por nove anos ou mais.
A pesquisa identificou associação entre menor escolaridade e risco de morte 21% maior. Uma possível dimensão desse resultado é o letramento em saúde, ou seja, a capacidade de encontrar, compreender e utilizar informações relacionadas à saúde para tomar decisões e buscar atendimento.
A escolaridade, porém, não atua isoladamente. Renda, disponibilidade de serviços, condições de deslocamento e tempo para conseguir consultas e exames também podem influenciar a trajetória de cuidado. Assim, as diferenças observadas devem ser compreendidas em um contexto mais amplo de desigualdades sociais, e não como consequência de escolhas individuais das pacientes.
Sobrevida varia conforme o estágio e o atendimento
Considerando todas as mulheres analisadas, a sobrevida global em cinco anos foi de 68,1%. O índice chegou a 79,7% na rede privada e a 66,2% entre as pacientes atendidas pelo SUS.
As diferenças permaneceram mesmo quando foram comparadas mulheres no mesmo estágio clínico. No estágio I, a sobrevida em cinco anos foi de 89,5% na rede privada e 85,8% no SUS. No estágio II, os índices foram de 82,4% e 77,6%, respectivamente.
Nos quadros mais avançados, a distância foi maior. No estágio III, a sobrevida foi de 65,3% na rede privada e 56,6% no SUS. No estágio IV, quando o câncer já se disseminou para outros órgãos, os índices foram de 32,9% e 18,3%, respectivamente.
Os resultados mostram que o estágio do tumor é um fator importante, mas não explica sozinho as diferenças de sobrevida. Outros aspectos da assistência também podem influenciar os resultados ao longo do tratamento.
[Veja também: Outubro Rosa: Conheça as linhas de pesquisa do IDOR no combate ao câncer de mama]
Continuidade do tratamento é essencial
A pesquisa também avaliou o recebimento do tratamento padrão mínimo indicado para cada caso, que pode envolver cirurgia, quimioterapia ou radioterapia. Na rede privada, 80,9% das pacientes receberam esse tratamento, em comparação com 74,6% no SUS.
Entre as mulheres que não receberam o esquema terapêutico mínimo, o risco de morte foi 77% maior. O dado reforça a importância de garantir não apenas o diagnóstico, mas também o acesso às intervenções necessárias de acordo com as características de cada tumor.
Entre os desafios apontados pelos pesquisadores estão os atrasos na realização de exames e no início do tratamento, além de limitações na oferta de radioterapia e no acesso a terapias biológicas modernas. Embora o SUS tenha papel fundamental na garantia do atendimento oncológico para milhões de brasileiras, os dados mostram que ainda há diferenças em relação à rede privada na rapidez e na disponibilidade de determinados recursos assistenciais.
Reduzir desigualdades para melhorar os resultados
Mesmo após ajustes estatísticos para idade, escolaridade, estágio da doença e tratamento recebido, as pacientes atendidas pelo SUS apresentaram risco de morte 53% maior em comparação com as tratadas na rede privada.
O resultado não significa que todas as pacientes da rede pública tenham um prognóstico pior, nem permite atribuir a diferença a uma única causa. Por ser observacional, o estudo identifica associações, mas não comprova isoladamente o efeito de cada fator.
Em conjunto, os achados ressaltam que as chances de sobrevivência ao câncer de mama dependem de uma combinação de fatores clínicos e sociais. Ampliar o diagnóstico precoce, reduzir atrasos, assegurar a continuidade do tratamento e melhorar o acesso a recursos terapêuticos são medidas importantes para diminuir as diferenças entre grupos sociais e oferecer oportunidades mais equitativas de cuidado às mulheres brasileiras.
Pesquisadores e profissionais IDOR / Rede D’Or envolvidos na publicação:
- José Bines — Oncologia D’Or, Clínica São Vicente e Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), Rio de Janeiro.