Ecocardiograma com Análise Strain Miocárdico: Fundamentos, indicações e interpretação clínica
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O ecocardiograma com análise de strain é uma técnica avançada de imagem baseada na análise da deformação das fibras do miocárdio. Diferente do ecocardiograma convencional, que se baseia predominantemente na fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE), a complementação com análise do strain permite identificar disfunções contráteis precoces e regionais com elevada sensibilidade e reprodutibilidade. Esta nota revisa os fundamentos técnicos, parâmetros principais, indicações clínicas e evidências científicas recentes relacionadas ao uso do strain na prática cardiológica.
1. Introdução
A avaliação da função miocárdica é um componente essencial na prática cardiológica. Tradicionalmente, a fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) é o principal índice usado para estimar o desempenho sistólico global. No entanto, a FEVE apresenta limitações significativas: é dependente da geometria ventricular, da qualidade da imagem e de fatores de carga. Com o avanço do speckle tracking, a análise de deformação miocárdica (strain) emergiu como um método quantitativo capaz de detectar alterações sutis na contratilidade antes que ocorram mudanças na FEVE.
2. Fundamentos técnicos
‘Strain’ significa deformação e representa a variação percentual do comprimento das fibras musculares durante o ciclo cardíaco. A técnica rastreia ‘speckles’ (padrões naturais) no miocárdio, frame-by-frame, calculando a deformação nas direções longitudinal, circunferencial e radial. O principal parâmetro clínico é o strain longitudinal global (GLS), média ponderada da deformação longitudinal das 17–18 regiões do ventrículo esquerdo.

3. Parâmetros principais e valores de referência
Os parâmetros-chave e seus valores de referência estão apresentados na Tabela 1. Uma redução relativa >15% no GLS em relação ao valor basal é considerada clinicamente significativa e sugere disfunção ventricular subclínica, mesmo com FEVE preservada.

4. Indicações clínicas
As principais indicações incluem: (1) monitorização de cardiotoxicidade por quimioterapia (antraciclinas, trastuzumabe), com detecção precoce de disfunção subclínica; (2) doenças cardiovasculares crônicas (hipertensão, diabetes, doença coronariana, valvopatias); (3) miocardiopatias (amiloidose com padrão ‘apical sparing’, miocardiopatia hipertrófica e miocardite); (4) insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEp), na qual o GLS reduzido indica pior prognóstico.

5. Comparação com o ecocardiograma convencional
A ecocardiografia com strain complementa o ecocardiograma convencional, não o substitui. Em comparação ao método baseado apenas na FEVE, a complementação com strain oferece maior sensibilidade para disfunção precoce, menor dependência da geometria ventricular, melhor reprodutibilidade e avaliação regional quantitativa. A Tabela 1 resume essas diferenças.


6. Interpretação prática
A interpretação do strain deve considerar qualidade da imagem (idealmente 50–80 fps), padronização de software e contexto clínico. Valores mais negativos indicam melhor função sistólica. Em geral, GLS > –16% ou redução relativa >15% do basal sugerem disfunção significativa. Sempre correlacionar com dados clínicos e demais parâmetros ecocardiográficos.
7. Evidências científicas recentes (2020–2024)
Estudos recentes demonstram o valor incremental do GLS sobre a FEVE na detecção precoce de cardiotoxicidade, na estratificação prognóstica de ICFEp e na avaliação do ventrículo direito em hipertensão pulmonar. A bibliografia recomendada relaciona esses aspectos.
8. Conclusões
O ecocardiograma complementado com strain miocárdico representa um avanço substancial na avaliação funcional do coração. A quantificação objetiva da deformação miocárdica permite diagnóstico precoce, acompanhamento evolutivo e melhor estratificação prognóstica em múltiplas condições clínicas. A padronização do GLS e sua incorporação na rotina clínica são recomendadas por diretrizes internacionais.
9. Bibliografia Recomendada
- Anastasius M et al. Part 1: The Clinical Applications of Left Ventricular Myocardial Strain. Cardiol Rev. 2023. doi: 10.1097/CRD.0000000000000559.
- Anastasius M et al. Part 2: The Clinical Applications of Left Ventricular Myocardial Strain. Cardiol Rev. 2023. doi: 10.1097/CRD.0000000000000560.
- Brann A et al. Global longitudinal strain predicts clinical outcomes in patients with heart failure with preserved ejection fraction. Eur J Heart Fail. 2023; 25: 1755-65.
- Muraru D et al. Right ventricular longitudinal strain in the clinical routine: a state-of-the-art review. Eur Heart J Cardiovasc Imaging. 2022; 23: 898-912.
- Smiseth O et al. Myocardial Strain Imaging: Theory, Current Practice, and the Future. J Am Coll Cardiol Img. 2025; 18: 340–81.