Elastografia hepática por ultrassom: fundamentos, indicações e interpretação clínica
Publicado em:
A elastografia hepática por ultrassom (US-elasto) é um conjunto de técnicas pata quantificar a rigidez hepática (liver stiffness measurement, LSM), um substituto não invasivo para avaliação do grau de fibrose/cirrose. O deslocamento de cisalhamento gerado no parênquima é rastreado por ultrassom e convertido em velocidade de onda de cisalhamento (m/s) e/ou rigidez (kPa) por meio da relação de módulo de cisalhamento do tecido. Em geral, maior rigidez → maior probabilidade de fibrose avançada/cirrose e, em cenários específicos, maior risco de hipertensão portal clinicamente significativa (CSPH).
2. Conceitos-chave
- A LSM não mede colágeno diretamente; reflete propriedades mecânicas influenciadas por fibrose, inflamação, congestão, colestase e pressão portal.
- É método não invasivo, repetível e à beira-leito, útil para estadiar, monitorar e estratificar risco.
3. Há três modalidades de elastografia por ultrassom:
- Elastografia Transiente (TE / VCTE) — equipamento dedicado disponível comercialmente como FibroScan® Utiliza vibração mecânica e mede LSM em kPa. ROI fixa, em volume de parênquima relativamente grande.
- Point Shear Wave Elastography (pSWE / ARFI-quantificação) — integrada a equipamentos de US convencionais; mede m/s (alguns fabricantes convertem para kPa). ROI pontual, posicionada no parênquima.
- Two-Dimensional Shear Wave Elastography (2D-SWE) — mapeia uma região bidimensional com mapa de cores e fornece mediana/variabilidade em kPa ou m/s. Permite direcionar o ROI evitando vasos e artefatos.

4. Principais diferenças entre US-elastografia e FibroScan® (VCTE)
- Plataforma: VCTE é equipamento dedicado; pSWE/2D-SWE são módulos em aparelhos de US (podem ser feitos na mesma sessão do US abdominal).
- Aquisição: VCTE realiza 10 medições com ROI fixa; pSWE/2D-SWE permitem posicionar ROI e avaliar mapaspara evitar estruturas indesejadas.
- Profundidade/Janela: VCTE pode falhar em obesidade/superfície difícil; há sondas XL. 2D-SWE tende a ter maior sucesso quando é possível posicionar o ROI em janela acústica adequada.
- Métrica: VCTE usa kPa; pSWE relata comumente m/s (com ou sem conversão). Comparações exigem atenção a valores de corte específicos por técnica.
- Padronização e evidência: VCTE tem a base de evidências mais ampla; pSWE e 2D-SWE avançaram muito e constam em diretrizes atuais como alternativas válidas quando seguem critérios de qualidade.
5. Indicações clínicas principais
Estadiamento não invasivo de fibrose em doenças crônicas do fígado:
- MASLD/NAFLD (doença hepática gordurosa associada a disfunção metabólica)
- Hepatites virais B e C
- Doenças hepáticas alcoólica autoimune, colestáticas (CBP/CEP), hemocromatose, doença de Wilson (como parte do painel não invasivo)
Estratificação de risco de hipertensão portal e triagem de varizes (em conjunto com plaquetas, p. ex., critérios de Baveno)
Monitoramento da história natural e resposta ao tratamento (antivirais em HBV/HCV; medidas metabólicas/farmacológicas em MASLD/ALD)
Pré-operatório (p. ex., cirurgias oncológicas, bariátrica) e avaliação de doadores em contextos selecionados
Avaliação evolutiva de pacientes com ou sem tratamento antiviral. Na hepatite C curada (SVR) ou HBV suprimida, quedas sustentadas na LSM sugerem redução de necroinflamação e/ou pressão portal e, com o tempo, possível regressão de fibrose. Em MASLD/ALD, reduções da LSM após perda ponderal, controle metabólico ou abstinência alcoólica também são descritas.
Quando NÃO substituir biópsia: discrepância clínica importante, suspeita de doenças infiltrativas, colestase obstrutiva, congestão ou quando uma etiologia alternativa precisa de confirmação histológica.
6. Elastografia: Ultrassom versus Ressonância Magnética
É de conhecimento geral a multiplicidade de possiblidades diagnósticas obtidas através da Ressonância Magnética em diversas patologias clínicas. Este cenário se repete na abordagem de pacientes com hepatopatias diversas, por isso, é importante comparar US-elastografia com elastografia por ressonância magnética (MRE)
US-elastografia (pSWE/2D-SWE/VCTE)
- Amplamente disponível, custo menor, portátil, realizada à beira do leito, sem claustrofobia/implantes
- Permite avaliação concomitante do US abdominal (esteatose, nódulos, vias biliares)
- Maior variabilidade inter-plataforma/operador; janela acústica pode ser um fator limitante (obesidade, gases)
Elastografia por ressonância magnética
- Acurácia e reprodutibilidade muito altas; avalia todo o fígado; menos dependente do operador; melhor desempenho em obesidade e ascite
- Custo e disponibilidade menores; contraindicações/limitações da RM; não é realizada à beira-leito
8. A MRE é “melhor” que a US-elastografia?
Depende da pergunta clínica. Em termos de acurácia e reprodutibilidade, a MRE tende a superar o US-elasto para estadiamento de fibrose em diversos cenários e sofre menos com limitações técnicas. Porém, custo, disponibilidade e logística fazem do US a primeira linha para triagem e seguimento.
Em muitos fluxos, a MRE é reservada para casos discordantes, obesidade importante ou quando decisões de alto impacto exigem maior precisão.
Na prática clínica, quando disponível, a MRE é excelente para casos inconclusivos pela US-elasto, para pesquisa e planejamento.
O US é primeira linha pela logística frente a seu custo e possibilidade de integração ao US convencional.
Tabela comparativa — US-elastografia × FibroScan® (VCTE) × MRE

8. Principais doenças hepáticas a serem avaliadas por US-elastografia
- Os MASLD/NAFLD com fatores de risco cardiometabólicos
- Hepatite B (especialmente >35 anos, ALT alterada, carga viral, história familiar)
- Hepatite C (estadiamento pré-tratamento e seguimento pós-cura)
- Doença alcoólica (estratificação e acompanhamento de abstinência)
- Autoimunes/colestáticas (HAI, CBP, CEP)
- cACLD/cirrose de qualquer etiologia (estratificação de CSPH e risco de descompensação)
9. Integração clínica (US-Elasto e biópsia hepatica)
- US-elasto como 1ª linha para estratificação e seguimento; biópsia quando houver discrepância, suspeita de doença alternativa/infiltrativa, colestase obstrutiva, congestão ou quando a decisão terapêutica exige confirmação histológica.
- Em cACLD, a LSM também auxilia na CSPH (p.ex., VCTE ≥25 kPa “rule-in”; ≤15 kPa + plaquetas ≥150 mil “rule-out” com zonas cinzentas), o que não é mensurado na biópsia.


10. Mensagens-chave
- US-elastografia é método de 1ª linha para estadiamento e seguimento de fibroses hepáticas.
- Use critérios de qualidade e cut-offs específicos da etiologia e técnica.
- Para CSPH, considere critérios compostos (ex.: LSM por VCTE e plaquetas segundo Baveno).
- Mudanças longitudinais são clinicamente úteis, mas sempre interprete com o contexto clínico e laboratorial.
- MRE oferece maior precisão, porém com maior custo/menor disponibilidade; reserve-a para casos selecionados.
Bibliografia Recomendada
- WFUMB 2024 — Liver Multiparametric Ultrasound, Part 1: Update to 2018 Guidelines on Liver Ultrasound Elastography. Ultrasound Med Biol. 2024.
- EASL 2021 — Clinical Practice Guidelines on non-invasive tests for evaluation of liver disease severity and prognosis. J Hepatol. 2021 (complementadas por atualizações MASLD 2024 EASL-EASD-EASO).
- AASLD/AACE 2024–2025 — Documentos de prática/guia NAFLD/MASLD e avaliações não invasivas.
- Baveno VII (2021–2022) — Consenso em hipertensão portal (critérios de CSPH por LSM e plaquetas; “regra dos 5” para risco).