Esporotricose entra na lista das doenças de notificação compulsória
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Devido ao aumento no número de casos no Brasil, o Ministério da Saúde anunciou atualização em nota técnica (https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/notas-tecnicas/2025/nota-tecnica-no-20-2025-cgtm-dathi-svsa-ms.pdf/@@download/file) incluindo a esporotricose humana na Lista Nacional de Notificação Compulsória, tornando obrigatória a notificação semanal de casos confirmados em todo o Brasil, tanto na rede pública quanto na privada, por meio do e-SUS Sinan. Nos últimos anos, o Brasil tem registrado um aumento expressivo nos casos de esporotricose por transmissão zoonótica. Essa atualização visa fortalecer o monitoramento da doença e garantir cuidado oportuno no SUS, construindo um panorama epidemiológico mais consistente para subsidiar decisões de gestão em saúde.
A notificação deve ser feita pela unidade de saúde que identifica o caso, com registro de dados clínicos e epidemiológicos em ficha específica do Sistema.
O que é a esporotricose?
A esporotricose é uma infecção fúngica subaguda ou crônica causada por espécies do gênero Sporothrix, principalmente Sporothrix schenckii, S. brasiliensis, S. globosa e S. mexicana. O fungo é dimórfico e está presente no solo, plantas e matéria orgânica, e em animais, especialmente gatos, que têm papel relevante na transmissão zoonótica. Desde o fim dos anos 1990, porém, observa-se aumento expressivo de casos humanos e felinos em diversos estados, impulsionados pela transmissão zoonótica, principalmente pela espécie emergente Sporothrix brasiliensis.
A transmissão ocorre de duas formas principais:
- Inoculação traumática: Ocorre quando fragmentos de plantas, espinhos, solo ou matéria orgânica contaminada com Sporothrix penetram a pele, geralmente durante atividades como jardinagem, agricultura ou manipulação de madeira;
- Transmissão zoonótica: Por contato direto com animais infectados, principalmente gatos, podendo ocorrer através de arranhões, mordidas ou contato com secreções de lesões de gatos doentes.
Implicações clínicas da esporotricose
A infecção por esporotricose apresenta implicações clínicas predominantemente cutâneas, mas pode evoluir para formas sistêmicas em situações específicas. Os sintomas mais comuns são lesões nodulares, ulceradas ou supurativas na pele e tecido subcutâneo, geralmente localizadas nas extremidades. A forma linfocutânea caracteriza-se por lesões que se disseminam ao longo dos vasos linfáticos adjacentes, formando cordões e múltiplos nódulos.
Em indivíduos imunocomprometidos, a infecção pode progredir para formas extra cutâneas, incluindo envolvimento pulmonar, osteoarticular, ocular, mucoso e do sistema nervoso central. Essas manifestações são raras, mas associadas a maior morbidade e risco de mortalidade, especialmente na meningite fúngica.
Sintomas sistêmicos incluem:
- febre;
- mal-estar;
- artralgia, mialgia;
- em casos graves, insuficiência orgânica relacionada ao órgão acometido.
A esporotricose pode também desencadear reações imunológicas, como eritema nodoso e outras manifestações inflamatórias, principalmente em surtos zoonóticos. O curso clínico é geralmente subagudo ou crônico, com lesões persistentes por meses se não tratadas. A infecção pode causar cicatrizes, deformidades locais e, em casos disseminados, comprometimento funcional de órgãos.
Diagnóstico da esporotricose
O diagnóstico de suspeição de esporotricose é fundamentado nas manifestações clínicas cutâneas e sistêmicas, e na presença de exposição ambiental ou zoonótica.
O diagnóstico laboratorial da esporotricose apoia-se em 4 métodos:
- Cultura fungica de amostras clínicas
- Análise molecular das amostras (PCR)
- Histopatologia de lesões
- Sorologia para Sporotrix spp
Cultura para fungos:
Método considerado padrão-ouro em especificidade, porém demanda incubação longa, podendo retardar o diagnóstico. Realizada em amostras clínicas (aspirado, fragmento de lesão, escarro, líquidos corporais) em ágar Sabouraud, incubadas à temperatura ambiente por 1–4 semanas. A cultura é considerada o padrão-ouro, permitindo a identificação morfológica do Sporothrix spp. e, em alguns casos, diferenciação entre espécies. A sensibilidade da cultura é alta, mas pode ser limitada em casos de baixa carga fúngica ou uso prévio de antifúngicos.
PCR para Esporotricose
Os métodos moleculares são cada vez mais utilizados para diagnóstico rápido e identificação de espécies. Técnicas de PCR com primers específicos para S. brasiliensis, S. schenckii e S. globosa apresentam alta sensibilidade (89–100%) e especificidade (100%), podendo ser aplicadas diretamente em tecidos ou amostras clínicas, inclusive por RT-qPCR e multiplex real-time PCR.[5-10] O alvo mais utilizado é o gene calmodulina (CAL) e regiões ITS, permitindo discriminação entre espécies clinicamente relevantes. O PCR pode ser útil em casos de cultura negativa ou para diagnóstico precoce, além de facilitar a vigilância epidemiológica.
A acurácia diagnóstica comparativa entre PCR e cultura fúngica para esporotricose: PCR apresenta sensibilidade de 91–100% e especificidade de 98,7–100%, enquanto a cultura fúngica, considerada padrão-ouro, tem especificidade próxima de 100%, mas sensibilidade inferior, variando entre 87,9% e 90% em estudos clínicos.
O valor preditivo positivo do PCR é elevado em áreas endêmicas devido à alta especificidade, e o valor preditivo negativo é superior ao da cultura, especialmente em casos de baixa carga fúngica ou uso prévio de antifúngicos. O PCR permite detecção rápida e identificação de espécies, com limites de detecção de 10–244 fg ou 10–100 cópias por reação.
Em resumo, PCR supera a cultura em sensibilidade, mantém especificidade equivalente ou superior, e oferece maior rapidez e precisão para o diagnóstico de esporotricose.
Histopatologia e sorologia
A histopatologia pode revelar células leveduriformes em forma de charuto, mas a sensibilidade é baixa, especialmente em formas cutâneas, devido à escassez de organismos. O uso de colorações especiais (PAS, GMS) pode auxiliar, mas o diagnóstico histológico isolado raramente é definitivo.
A sorologia tem utilidade restrita, sendo empregada principalmente em casos meníngeos, mas não é recomendada para formas cutâneas.
Definição de caso para notificação:

O Richet oferece as ferramentas para o diagnóstico da esporotricose, desde a cultura fúngica ao diagnóstico molecular.
O teste PAINEL METAGENÔMICO PARA BACTÉRIAS E FUNGOS, realizado por sequenciamento de DNA de alto desempenho de amplicons do gene ITS1 para fungos (código IDFUNBAC), é capaz de identificar o Sporotrix spp. e pode ser realizado em fluidos e secreções corporais, biópsias (previamente maceradas), swab e raspado de pele, e em microrganismos isolados de amostras clínicas.