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Diretriz SBD 2025 no manejo do DM2: papel central da Hemoglobina glicada na decisão terapêutica

Como a HbA1c orienta o tratamento do diabetes segundo a SBD? Entenda a estratificação terapêutica e a prática clínica.
Por: Rede D'Or
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A abordagem terapêutica do diabetes mellitus tipo 2 (DM2) passou por uma ampliação conceitual relevante nos últimos anos. A atualização mais recente da diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) [1] reflete essa evolução ao integrar o controle glicêmico a desfechos cardiovasculares, renais e ao manejo do peso corporal. Nesse contexto, a hemoglobina glicada (HbA1c) permanece como um dos principais parâmetros para orientar decisões terapêuticas, funcionando como marcador de risco e como gatilho para intensificação do tratamento.

Papel da hemoglobina glicada no manejo do diabetes

A HbA1c representa a média da glicemia nos últimos dois a três meses e está diretamente associada ao risco de complicações crônicas do diabetes. Ensaios clínicos demonstraram que a redução sustentada da HbA1c para valores abaixo de 7% está relacionada à diminuição de desfechos microvasculares, incluindo retinopatia, nefropatia e neuropatia [2,3].

O controle glicêmico precoce também influencia a ocorrência de eventos macrovasculares ao longo do tempo. Cada redução de 1% na HbA1c associa-se a diminuição aproximada de 14% no risco de infarto agudo do miocárdio e de 12% em acidentes vasculares cerebrais [1].

A diretriz da SBD reforça que a HbA1c fora do alvo se associa a maior risco de infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral, mesmo quando comparada a outros fatores de risco tradicionais. Esse achado sustenta o uso da HbA1c como marcador central para monitoramento e para decisões de intensificação terapêutica, especialmente nos primeiros anos após o diagnóstico do diabetes, período em que a probabilidade de remissão ou de melhor resposta ao tratamento é maior.

Metas de HbA1c e individualização

Embora a meta geral de HbA1c <7% seja amplamente adotada, a diretriz reconhece que esse alvo deve ser individualizado. Em indivíduos mais jovens, recém-diagnosticados e sem comorbidades relevantes, metas mais estritas, como HbA1c <6,5%, podem ser consideradas, especialmente quando há potencial para remissão. Por outro lado, metas menos rigorosas (HbA1c entre 7% e 8%, ou até superiores em situações de fragilidade extrema) podem ser apropriadas em idosos, pacientes com múltiplas comorbidades ou risco elevado de hipoglicemia.

Tabela 1: Metas de HbA1c conforme idade, comorbidades e risco de hipoglicemia (SBD 2025).

Fatores para escolha terapêutica inicial e intensificação

A proposta da SBD organiza o tratamento do diabetes a partir de três eixos principais e integrados:

  • nível de HbA1c,
  • risco cardiovascular (CV)
  • presença de sobrepeso ou obesidade.

Integração da HbA1c ao risco cardiovascular

Um dos pontos centrais da atualização da diretriz, além da utilização da HbA1c como ponto de corte para decisões terapêuticas, é a incorporação sistemática da avaliação do risco cardiovascular como determinante primário da estratégia terapêutica, não secundário à HbA1c.

Tabela 2: Estratificação do risco cardiovascular na diabetes tipo 2

Essa mudança alinha o tratamento do diabetes à redução de mortalidade e eventos vasculares, não apenas ao controle glicêmico isolado.

  • Em baixo/intermediário risco CV: a HbA1c lidera a decisão de monoterapia vs. dupla.
  • Em alto/muito alto risco CV: a classe terapêutica com benefício cardiorrenal é indicada independentemente, e a HbA1c orienta o grau de intensificação (quando usar terapia dupla vs. tripla, etc.).

Recomendação de terapia farmacológica inicial

A seleção do tratamento deve ser feita de maneira individualizada, levando em conta a estratificação do risco cardiovascular, o índice de massa corporal (IMC), os níveis de HbA1c e a taxa de filtração glomerular. Também devem ser avaliados fatores como potência glicêmica, risco de hipoglicemia, perfil de tolerabilidade, custo, possíveis eventos adversos e as preferências do paciente.

A Figura 1 apresenta o algoritmo terapêutico proposto pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) para 2025.

Figura 1: Manejo da terapia antidiabética em pessoas com DM2 (adaptado de Manejo da Terapia Antidiabética no DM2. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2025).)

Cenários de HbA1c muito elevada ou sintomas de insulinopenia

Em pacientes com HbA1c ≥9–10%, com sintomas sugestivos de descompensação aguda (polidipsia, poliúria, perda de peso rápida, possível cetoacidose) a terapia inicial baseada em insulina deve ser priorizada, com possibilidade de posterior transição a outros agentes conforme melhora do controle.

Impacto da presença de sobrepeso/obesidade na indicação terapêutica inicial guiada pelo nível de HbA1c, em pacientes com risco CV baixo/intermediário.

Notas: AD- antidiabéticos redutores de glicose com segurança cardiovascular comprovada; AD1 – antidiabéticos com benefício cardiovascular comprovado (AR GLP-1 e iSGLT2); AR GLP-1- agonista do receptor de GLP-1; iSGLT2 – inibidor do SGLT2

Monitoramento da HbA1c

A diretriz enfatiza a importância do monitoramento regular da HbA1c, idealmente a cada 3 meses, como ferramenta para avaliar resposta ao tratamento e necessidade de ajustes.

Princípio de prontidão terapêutica: a permanência da HbA1c acima da meta, mesmo por períodos relativamente curtos, associa-se a aumento do risco de complicações microvasculares (~20% maior no primeiro ano com HbA1c >6,5%) e macrovasculares. Isso reforça a necessidade de ajustes oportunos.

O acompanhamento seriado permite identificar precocemente falhas de tratamento e reduzir a inércia clínica – atrasos na intensificação que, segundo estudos observacionais citados pela SBD, se associam a piores desfechos mesmo quando outros fatores de risco estão controlados.

Considerações laboratoriais na dosagem da HbA1c

Para que a HbA1c funcione efetivamente como gatilho de decisão terapêutica, é fundamental que o resultado seja confiável e comparável ao longo do tempo.

A Diretriz da SBD reconhece a importância de métodos padronizados e alinhados aos programas de certificação internacionais. A cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC) é considerada o padrão-ouro, oferecendo alta precisão, e está indicada principalmente para situações clínicas específicas. A Turbidimetria é uma alternativa válida, confiável e de maior viabilidade de uso em larga escala.

Melhores resultados na prática clínica

A incorporação sistemática da HbA1c na estratificação terapêutica favorece:

  • Intervenções mais precoces: identificando rapidamente a necessidade de mudança de tratamento.
  • Condutas personalizadas: alinhadas ao perfil de risco CV e às características individuais (IMC, função renal, idade).
  • Maior consistência nas prescrições: redutor de variabilidade entre profissionais e cenários clínicos.
  • Acompanhamento longitudinal eficiente: com marcos claros a cada 3 meses para reavaliação.

Considerações finais:

O Richet realiza rotineiramente a dosagem de HbA1c por imunoturbidimetria, método validado pela NGCS, e, também por cromatografia líquida de alta performance (HPLC), mediante solicitação expressa do método no pedido médico.

QRcode para o texto da Dra Paula de Hb glicada por HPLC

Leia aqui sobre as indicações clínicas para a dosagem de glicada por HPLC.