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O que fazer quando um paciente se queixa de desmaios?

15/03/2019

Os desmaios – ou síncopes, no jargão médico – são queixas comuns em atendimentos de emergência e podem ter diferentes causas, desde questões simples como uma baixa de pressão até problemas de saúde mais delicados, como as arritmias cardíacas. Por isso, ao atender um caso de síncope, a equipe médica precisa estar preparada para identificar os pacientes sob risco de complicações mais graves para tomar as providências adequadas. Pensando nisso, a equipe do serviço de arritmia cardíaca da Rede D’Or São Luiz (RDSL) desenvolveu e implementou um protocolo inédito para ser utilizado nos serviços de emergência.

Liderado pela cardiologista Olga Ferreira de Souza, coordenadora do curso de pós-graduação em arritmias cardíacas do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), o projeto começou com uma revisão das diferentes diretrizes de sociedades médicas internacionais para o atendimento da síncope. Em 2016, a primeira versão do protocolo foi implementada em hospitais da RDSL no Rio de Janeiro. Hoje, já está em uso em todas as unidades do Rio e de São Paulo, além de hospitais em Brasília, Recife, Salvador e São Luís. “O objetivo é padronizar o atendimento do paciente na emergência em todas as unidades da Rede”, conta a enfermeira Angelina Camiletti, membro da equipe de Souza, que acompanha a implementação do protocolo nos hospitais.

Com perguntas diretas e uma lista dos exames necessários, a ferramenta guia o atendimento dos pacientes e favorece o diagnóstico da síncope, que frequentemente é confundida com outras condições. “Por exemplo, cerca de 30% das quedas em idosos são ocasionadas por síncope, mas não são relatadas como tal, porque o idoso tem uma fragilidade própria da idade, cai com frequência e nem sempre sabe explicar o que aconteceu. Por isso, muitas vezes, a síncope é relatada como uma simples queda”, alerta Camiletti.

Dados da literatura médica estimam que cerca de metade dos pacientes saem da emergência sem a identificação da causa da síncope. Desde a implementação dos protocolos na Rede D’Or, Camiletti afirma que a taxa de pacientes que permanecem sem diagnóstico é de apenas 17%. “De fato, alguns pacientes apresentam síncope cuja origem não é possível identificar no atendimento de emergência. Nesses casos, é necessário acompanhá-los ambulatorialmente para uma investigação mais detalhada”, explica a enfermeira.

Para implementar o protocolo nos diferentes hospitais, a equipe de Olga de Souza ofereceu um treinamento às suas equipes de médicos plantonistas e enfermeiros. “Além disso, capacitamos cardiologistas dentro de cada unidade para que atuem como multiplicadores desse conhecimento”, completa Camiletti. Ela conta, ainda, que colegas de outros hospitais também têm solicitado a ferramenta para utilização em suas instituições.

Pesquisa a serviço da assistência médica

Para avaliar a eficiência do protocolo, a equipe realizou um levantamento de 1.500 atendimentos de emergência feitos com a ferramenta em hospitais do Rio de Janeiro entre 2016 e 2017. O estudo apontou que o uso do protocolo de síncope favoreceu a correta estratificação de risco dos pacientes, evitando internações desnecessárias.

Segundo Camiletti, a síncope pode ser causada por condições sem gravidade, como uma queda brusca da pressão arterial quando a pessoa fica muito tempo em pé ou em um local muito quente. Nesses casos, não se recomenda a internação. Por outro lado, há causas mais graves para a síncope, incluindo as cardiológicas ou, mais raramente, as neurológicas. “O protocolo visa identificar o paciente de alto risco, para que ele seja internado para uma investigação da causa da síncope e receba o tratamento adequado”, ressalta a especialista. “Por exemplo, uma síncope sem nenhum sinal prévio (como uma tonteira) é uma síncope que deve ser investigada, pois pode ter origem cardiológica”.

O resultado da pesquisa realizada pela equipe da RDSL identificou alguns fatores associados à síncope que levaram os pacientes a internações. O mais importante deles foi a idade acima de 60 anos. Outros fatores que sugeriram alto risco incluem uso de marca-passo, alteração no eletrocardiograma (indicando arritmia ou bloqueio cardíaco), histórico de doença cardíaca prévia, síncope recorrente e histórico de morte súbita na família.

A expectativa é que levantamentos como esse ajudem a aprimorar continuamente o protocolo de atendimento da síncope, que já está em sua terceira versão. Os resultados serão compartilhados com a comunidade médica no congresso anual da Sociedade Europeia de Arritmia, que acontece em Lisboa em março. O trabalho foi selecionado para o prêmio de melhor pôster brasileiro a ser apresentado no evento e o estudo contou com parceria da Universidade Federal do Rio de Janeiro e apoio da Fundação Capes.

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