Covid-19: Combinar vacinas é a melhor estratégia?

As vacinas se valem da capacidade que nosso organismo possui de reconhecer agentes invasores, reagir a eles e lembrar disso em um futuro encontro. Assim, pela ativação do sistema imunológico, também chamada de imunização ativa, é possível proteger crianças e adultos contra diferentes doenças.

De fato, o uso disseminado da vacinação beneficia populações no mundo todo, reduzindo a mortalidade infantil de forma expressiva e trazendo redução dos gastos com saúde pública para países de diferentes graus de desenvolvimento.

Tradicionalmente desenvolvidas de forma empírica, as vacinas entraram em uma nova era, com um entendimento cada vez mais profundo de como se dá a resposta aos agentes imunizantes.

Atividade das Vacinas

Diante de uma infecção, nosso organismo lança mão de dois mecanismos de defesa: a) resposta mediada pelos linfócitos B, com a produção de anticorpos contra partes do microorganismo invasor; b) resposta mediada por linfócitos T, também chamada de imunidade celular, que atuam diretamente contra os microorganismos e preservam a memória desta infecção.

As vacinas devem ativar estas duas vias para gerar uma proteção duradoura.

A eficácia de uma vacina pode ser avaliada por estudos clínicos (em seres humanos), que estimam sua capacidade de evitar a doença, ou impedir o desenvolvimento de formas graves da doença, evitando a necessidade de hospitalização e até mesmo a morte pela infecção.

Paralelamente a isso, análises laboratoriais buscam quantificar a resposta do organismo ao imunizante. A produção de anticorpos contra partes do agente invasor é avaliada pela análise do sangue dos indivíduos, com a dosagem da concentração de anticorpos. De especial importância é a dosagem dos anticorpos neutralizantes, capazes de bloquear a entrada do vírus nas células.

Repetir a administração de um imunizante é uma estratégia comum para promover a proteção contra doenças. O calendário de vacinação, com doses de reforço programadas ao longo da vida para a maioria das vacinas em uso, deixa claro esta necessidade.

Vacinas contra Covid-19

Diferentes tipos de vacina já demonstraram sua eficiência contra a Covid-19 e quatro delas foram aprovadas para uso no Brasil.

Duas delas, a da Janssen e a da AstraZeneca/Oxford/Fiocruz, partem de um vírus modificado que não causa doença em seres humanos, e que recebe o nome de vetor viral. Este vírus (adenovírus) é transformado para produzir um proteína do SARS-CoV-2, que será reconhecida para gerar uma resposta contra a doença.

A Coronavac/Butantan é produzida a partir do próprio SARS-CoV-2 inativado. Isto é, o imunizante é formado por material morto.

Já a da Pfizer/ BioNTech é formada por uma sequência de RNA, que ativará a produção da proteína do vírus pelo nosso organismo para desencadear a resposta imunológica.

Destas quatro vacinas, apenas a da Janssen é administrada em dose única. As demais exigiram a aplicação de duas doses para alcançar o nível de proteção desejado.

Apesar de todas elas se mostrarem capazes de evitar a doença e, especialmente, reduzir sua letalidade, a resposta do organismo a cada uma delas se mostrou bastante diferente. Foi também possível observar que o intervalo entre as doses para cada vacina determinou diferença na quantidade de anticorpos na circulação.

Associação de Vacinas

No momento em que metade da população do Brasil já recebeu pelo menos uma dose da vacina e aproximadamente ¼ dos brasileiros já completou sua imunização, o País deve começar a avaliar as possíveis estratégias para aumentar o grau de imunidade da população, a exemplo do que já fazem há algum tempo as nações mais avançadas no processo de imunização, como os Estados Unidos e alguns países da Europa.

Como podemos ir além da proteção que as doses já previstas destas vacinas proporcionam?

É claro que a aplicação de doses de reforço do mesmo imunizante deve ser considerada, desde que o indivíduo não tenha experimentado reações adversas significativas. De fato, esta estratégia já vem sendo testada há bastante tempo. Na maioria dos estudos realizados até o momento, o reforço com uma terceira dose do mesmo imunizante se mostrou capaz de promover um expressivo aumento na quantidade de anticorpos neutralizantes contra o SARS-CoV-2, demonstrando que o organismo preservou a memória contra o vírus, que foi reativada com a nova dose do imunizante.

Um outro caminho que vem sendo intensamente estudado é o da combinação de diferentes imunizantes. Nesta situação, a aposta é que a associação possa, não apenas estender a duração da imunidade, mas também ampliar o espectro de cobertura, tornando a imunização mais efetiva contra diferentes cepas do vírus.

Quando repetimos a mesma vacina, dizemos tratar-se de um reforço homólogo. A combinação de diferentes vacinas recebe o nome de regime heterólogo.

Estudos com imunização heteróloga estão sendo publicados, indicando alguma vantagem para este regime, em comparação ao reforço homólogo. Estes resultados dão força para as estratégias de saúde que vêm sendo adotadas em vários países da Europa.

A aplicação da vacina da Pfizer/BioNTech após dose inicial da vacina Oxford/AstraZeneca é a combinação mais frequentemente testada, com resultados animadores, especialmente quando se olha para a formação de anticorpos neutralizantes.

Perspectivas para o Brasil

Segundo o Dr. José Cerbino, infectologista e pesquisador do IDOR e Fiocruz, o Brasil tem avançado na imunização contra Covid-19 e em breve toda a população adulta terá recebido ao menos uma dose de vacina. “O primeiro e mais importante objetivo é concluir o esquema primário, que para a maioria das vacinas é composto por duas doses nesse momento. Já há uma vacina aprovada para uso em adolescentes maiores de 12 anos, e vacinar essa população será o objetivo a seguir. Uma vez tendo toda a população elegível o país terá novos desafios para o controle da pandemia”, comenta.

O infectologista informa ainda que os esquemas vacinais homólogos e heterólogos já estão em discussão. “Idealmente devemos gerar evidências na nossa população, com o mix de vacinas adotado no país e com as características epidemiológicas locais, que permitam definir quantas doses, de quais vacinas, e com que intervalos devem ser aplicadas para atingirmos a maior proteção possível”, explica.

Ele complementa que um segundo desafio será garantir a disponibilidade de vacinas, lembrando que novos reforços e novas composições específicas para variantes emergentes poderão ser necessárias. Desenvolver e estimular a produção nacional de vacinas é fundamental para assegurar a sustentabilidade e a independência da estratégia nacional de vacinação contra Covid-19, e aspectos regulatórios também devem ser considerados, permitindo a pesquisa e o registro de novos imunizantes que venham a ser desenvolvidos.

“Por fim, uma outra questão que vem sendo um desafio para a saúde no Brasil é a vigilância clínica e genômica da Covid-19. Para subsidiar a tomada de decisão sobre a melhor forma de utilização das vacinas disponíveis é fundamental termos informações completas, confiáveis e oportunas sobre a circulação de diferentes variantes e seus impactos sobre a saúde da população. Só assim poderemos garantir que as vacinas, nosso principal instrumento para proteção da população a COVID-19, estarão sendo utilizadas da forma mais eficiente possível”, conclui o Dr. Cerbino.

Escrito por Claudio Ferrari.

No dia 14 de agosto, o IDOR realiza um novo encontro sobre vacinas, onde serão apresentados os dados mais atuais sobre a eficácia dos imunizantes em uso no Brasil, discutidos o melhor manejo de seus eventos adversos e apresentado propostas de próximos passos para a imunização dos brasileiros.

Clique aqui para ver a programação.

 

Para saber mais:

A guide to vaccinology: from basic principles to new developments.
Andrew J. Pollard and Else M. Bijker

Nature Reviews / Immunology – Vol 21, February 2021. https://www.nature.com/articles/s41577-020-00479-7

 

Real-world data shows increased reactogenicity in adults after heterologous compared to homologous prime-boost COVID-19 vaccination, March−June 2021, England

Annabel A Powell, et al.

England. Euro Surveill. 2021;26(28):pii=2100634. https://doi.org/10.2807/1560-7917.ES.2021.26.28.2100634

 

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