Demência: saiba mais sobre a síndrome progressiva que afeta milhões de famílias no mundo

A demência é uma síndrome, e não uma doença única, caracterizada pelo declínio progressivo das funções cognitivas, como memória, raciocínio, linguagem, orientação e comportamento, em intensidade suficiente para comprometer a vida cotidiana da pessoa afetada. Com o acelerado envelhecimento populacional global e brasileiro, ela se tornou uma das maiores emergências de saúde pública do século 21, ao mesmo tempo que é uma condição cujos riscos podem ser significativamente reduzidos por meio de prevenção e diagnóstico precoce. Em junho de 2024, o Brasil aprovou a Lei de Cuidados e Proteção à Pessoa com Demência, um avanço importante no reconhecimento legal e no suporte às pessoas afetadas e suas famílias.
- A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 55 milhões de pessoas vivem com demência no mundo – 8,1% das mulheres e 5,4% dos homens acima de 65 anos. O número deve crescer para 78 milhões em 2030 e 139 milhões em 2050. O custo global da demência foi de US$1,3 trilhão em 2019 e pode chegar a US$2,8 trilhões até 2030, representando mais de 1% do PIB mundial.
- No Brasil, o Relatório Nacional sobre a Demência, do Ministério da Saúde, estima 1,8 milhão de pessoas com a doença — e projeta que esse número pode triplicar até 2050. O dado mais alarmante: 80% dos casos no Brasil ainda não foram diagnosticados, o que impede que essas pessoas recebam o tratamento e o cuidado necessários.
- As mulheres são desproporcionalmente afetadas pela demência — tanto como pacientes quanto como cuidadoras. Segundo a OMS, 70% do cuidado informal prestado a pessoas com demência é realizado por mulheres. No Brasil, dois terços dos custos da demência são relacionados ao cuidado informal, majoritariamente exercido por familiares do sexo feminino, com sobrecarga emocional, física e financeira significativa.
O que é a Demência e quais doenças a causam?
A demência é um termo que agrupa diferentes condições nas quais o declínio cognitivo progressivo compromete a autonomia e as atividades diárias da pessoa. Não se trata de uma única doença, mas de uma síndrome com múltiplas causas, todas elas envolvendo lesões ou doenças que afetam o cérebro. As funções mais frequentemente comprometidas incluem memória, atenção, linguagem, raciocínio, julgamento e orientação no tempo e espaço. Com a progressão da síndrome, as dificuldades se intensificam e a pessoa passa a depender cada vez mais de terceiros para realizar tarefas simples do cotidiano.
A doença de Alzheimer é, de longe, a causa mais comum de demência, respondendo por 60 a 70% dos casos em todo o mundo. Trata-se de uma doença neurodegenerativa progressiva na qual o acúmulo anormal de proteínas no cérebro – as placas de beta-amiloide e os emaranhados de proteína tau – leva à morte gradual de neurônios, comprometendo primeiro a memória recente e, progressivamente, todas as demais funções cognitivas.
Outras causas importantes incluem a demência vascular (resultante de AVCs ou isquemias cerebrais), a demência de Corpos de Lewy, a demência frontotemporal (que afeta mais frequentemente pessoas mais jovens, entre 45 e 65 anos) e a demência associada ao Parkinson.
Existem ainda causas reversíveis de síndrome demencial, ou seja, condições que podem mimetizar a demência, mas que, quando identificadas e tratadas, permitem recuperação parcial ou total das funções cognitivas. Entre elas estão o hipotireoidismo, a deficiência de vitamina B12, infecções do sistema nervoso central, hidrocefalia de pressão normal e o uso de certos medicamentos. Esse é um dos motivos pelos quais a investigação diagnóstica completa é tão importante, para descartar causas tratáveis é uma etapa essencial do processo.
Quais são os sintomas e quem tem maior risco de desenvolver Demência?
Os sintomas da demência variam conforme o tipo, o estágio da doença e a pessoa afetada. O sinal mais frequente e reconhecível é o esquecimento persistente, especialmente de eventos recentes, mas a demência vai muito além da perda de memória. Outros sintomas comuns incluem desorientação no tempo e no espaço; dificuldade para encontrar palavras ou acompanhar conversas; problemas para executar tarefas habituais, como cozinhar ou pagar contas; mudanças de humor e comportamento, como irritabilidade, apatia ou ansiedade e julgamento prejudicado. Nas fases mais avançadas, os sintomas são dificuldades para caminhar, engolir e controlar esfíncteres.
É importante diferenciar o esquecimento benigno do envelhecimento, que é lento, não progressivo e não compromete a funcionalidade, do esquecimento patológico da demência, que piora ao longo do tempo e interfere nas atividades do dia a dia. Um sinal de alerta relevante é quando a própria pessoa ou seus familiares percebem mudanças consistentes na cognição ou no comportamento, que não eram características da pessoa anteriormente.
Os principais fatores de risco para demência incluem: idade avançada (o risco dobra a cada cinco anos após os 65 anos); histórico familiar e predisposição genética; baixa escolaridade (a educação formal parece construir uma “reserva cognitiva” que protege o cérebro); hipertensão, diabetes e obesidade não controladas; tabagismo e consumo excessivo de álcool; sedentarismo; perda auditiva não tratada; depressão; isolamento social; traumatismo cranioencefálico; e poluição do ar. Segundo o relatório Lancet sobre prevenção da demência, até 40% dos casos de demência poderiam ser prevenidos ou adiados com a modificação desses fatores de risco ao longo da vida.
Como é feito o diagnóstico da Demência e quais exames são solicitados?
A geriatria e a neurologia são as especialidades de referência para o diagnóstico e o acompanhamento da demência. O psiquiatra geriátrico também pode ser consultado, especialmente quando há sintomas comportamentais e psicológicos predominantes. O médico de família ou clínico geral pode iniciar a investigação e realizar o rastreio cognitivo, mas o diagnóstico definitivo costuma exigir avaliação especializada. Para o manejo integral da pessoa com demência, uma equipe multidisciplinar é fundamental, e pode incluir neuropsicólogo, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo, nutricionista e assistente social.
O diagnóstico da demência é clínico, baseado na avaliação detalhada do histórico do paciente, dos relatos de familiares e cuidadores, e da aplicação de testes neuropsicológicos padronizados.
Os exames complementares têm dois objetivos principais: descartar causas reversíveis de comprometimento cognitivo e identificar o subtipo de demência. Os mais comuns incluem: hemograma completo, dosagem de vitamina B12 e folato, função tireoidiana (TSH), glicemia, função renal e hepática, todos para afastar causas metabólicas tratáveis.
Entre os exames de neuroimagem, a ressonância magnética do crânio é o padrão preferido por permitir visualizar atrofia cerebral, lesões vasculares e outras alterações estruturais. Em casos específicos, podem ser feita tomografia por emissão de pósitrons (PET-scan), exame de líquor (líquido cefalorraquidiano) para dosagem de biomarcadores de Alzheimer (como beta-amiloide e proteína tau), e testes genéticos específicos.
Como é feita a prevenção e o tratamento da Demência?
Embora a demência não tenha cura, estima-se que uma parcela significativa dos casos possa ser prevenida ou ter seu início adiado por meio de mudanças no estilo de vida.
As evidências científicas mais robustas apontam para as seguintes estratégias de prevenção: manter atividade física regular (pelo menos 150 minutos semanais de exercício aeróbico moderado); estimular o cérebro com leitura, aprendizado, jogos cognitivos e atividades sociais; controlar a pressão arterial, o diabetes e o colesterol desde a meia-idade; não fumar e evitar o consumo excessivo de álcool; tratar a depressão e a perda auditiva quando presentes; manter vínculos sociais ativos; dormir bem (o sono é essencial para a eliminação de proteínas tóxicas do cérebro).
O tratamento da demência é multidisciplinar e visa retardar a progressão dos sintomas, manter a autonomia pelo maior tempo possível e melhorar a qualidade de vida do paciente e de seus cuidadores.
No campo farmacológico, os inibidores da colinesterase são os medicamentos mais utilizados para demência de Alzheimer. Eles não revertem a doença, mas podem estabilizar temporariamente os sintomas cognitivos. Para controle de sintomas comportamentais, como agitação, agressividade, insônia e depressão, podem ser utilizados antidepressivos, antipsicóticos e estabilizadores de humor, sempre com indicação médica.
As intervenções não farmacológicas são igualmente essenciais e muitas vezes mais eficazes para a qualidade de vida. A reabilitação cognitiva, a musicoterapia, a arteterapia, a fisioterapia e a terapia ocupacional ajudam a manter habilidades funcionais e reduzir sintomas comportamentais. O suporte ao cuidador, seja por meio de grupos de apoio, orientação psicológica ou programas de respiro familiar, é parte indissociável do cuidado à pessoa com demência, dado o impacto físico e emocional que o cuidado contínuo representa.
Demência e Alzheimer são a mesma coisa?
Não, Alzheimer e Demência não são sinônimos, embora os termos sejam frequentemente confundidos. A demência é o termo amplo que descreve a síndrome de declínio cognitivo progressivo, independentemente da causa. O Alzheimer é uma doença específica, e a causa mais comum de demência, responsável por 60 a 70% dos casos. Mas existem dezenas de outras doenças que também causam demência, como a demência vascular, a de Corpos de Lewy e a frontotemporal. Dizer que alguém tem demência é como dizer que alguém tem febre: descreve o sintoma, mas não a causa. Identificar qual doença está por trás da demência é fundamental para orientar o tratamento e o prognóstico.
Outra diferença importante diz respeito ao perfil da pessoa afetada. A demência frontotemporal, por exemplo, pode acometer pessoas a partir dos 45 anos, enquanto o Alzheimer típico manifesta-se predominantemente após os 65. A demência de Corpos de Lewy costuma se apresentar com alucinações visuais precoces e flutuações do estado de alerta. Já a demência vascular pode surgir de forma mais abrupta, frequentemente após um AVC. Cada tipo de demência tem suas características clínicas, sua trajetória evolutiva e suas particularidades de manejo — o que torna o diagnóstico preciso ainda mais relevante.
Atualmente, a demência não tem cura. As doenças neurodegenerativas que estão em sua base, como o Alzheimer, causam danos cerebrais irreversíveis que os tratamentos disponíveis não conseguem reparar ou reverter. No entanto, o diagnóstico precoce faz toda a diferença: quanto antes a doença é identificada, maiores as possibilidades de intervenção para retardar sua progressão, planejar os cuidados futuros, preservar a autonomia por mais tempo e garantir melhor qualidade de vida ao paciente e à família.