Setembro Amarelo: conversar sobre saúde mental pode acolher dores e salvar vidas

Falar sobre saúde mental ainda é, para muita gente, um exercício de coragem. O medo do julgamento, a ideia preconceituosa de que sofrimento psíquico é sinal de fraqueza, e o desconhecimento sobre o que realmente são condições como depressão e ansiedade fazem com que muitas pessoas sofram em silêncio, adiando ou evitando completamente a busca por ajuda. O Setembro Amarelo existe justamente para romper esse silêncio.
Criada em 2015 e hoje reconhecida como política pública nacional, a campanha reúne entidades como o Centro de Valorização da Vida (CVV), a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) em torno de um objetivo comum: conscientizar sobre a prevenção ao suicídio e mostrar que as doenças mentais têm tratamento. Entender os sinais, informar-se sobre onde buscar ajuda e, principalmente, sentir-se à vontade para conversar sobre o assunto são passos que fazem uma diferença real na vida de quem sofre e de quem está ao redor.
O foco é reforçar que o diálogo é uma ferramenta poderosa para acolher quem sofre em silêncio e, por isso, o objetivo é promover a conversa sobre a prevenção do suicídio.
- Segundo o Ministério da Saúde, o suicídio é a quarta causa de morte entre jovens brasileiros de 15 a 29 anos, atrás de acidentes de trânsito, tuberculose e violência interpessoal. No Brasil, os registros se aproximam de 14 mil casos por ano, uma média de 38 óbitos por dia.
- De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo, e o suicídio é a terceira principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos globalmente. Cerca de 73% dos casos ocorrem em países de baixa e média renda.
- Segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, o número de suicídios no Brasil aumentou 66,47% em uma década (2013 a 2023), somando mais de 16,8 mil casos notificados só em 2023, uma média de 46 pessoas por dia.
- Através da Lei 15.199/2025, o governo brasileiro oficializou o Setembro Amarelo como campanha nacional permanente, para falar sobre riscos, oferecer orientação sobre recursos disponíveis de apoio e tratamento, e fortalecer o acolhimento às pessoas que enfrentam desafios relacionados à automutilação e a pensamentos ou à intenção de tirar a própria vida, chamada tecnicamente de “ideação suicida”.
Além da depressão e suicídio, quais são os temas sobre doenças mentais mais comuns atualmente?
Entre as condições de saúde mental mais frequentes na vida moderna está a depressão, caracterizada por tristeza persistente, perda de interesse em atividades antes prazerosas e alterações no sono, apetite e energia que se estendem por semanas. A ansiedade também é extremamente comum, indo muito além da preocupação pontual: quando se torna intensa, frequente e desproporcional, passa a ser um transtorno que compromete significativamente a rotina.
A síndrome de burnout, associada ao esgotamento extremo relacionado ao trabalho, também ganhou destaque nos últimos anos, especialmente após o reconhecimento pela OMS como uma síndrome ocupacional. Embora seja diferente da depressão, o burnout não tratado pode evoluir para quadros depressivos mais graves, incluindo pensamentos sobre a própria morte.
Outras condições, como o transtorno bipolar, também estão entre as mais associadas ao risco de suicídio quando não diagnosticadas e tratadas adequadamente. É importante reforçar que nenhuma dessas condições é sinal de fraqueza pessoal ou falta de força de vontade: são quadros clínicos reais, com causas biológicas, psicológicas e sociais, e que respondem bem ao tratamento adequado.
Como reconhecer os sinais silenciosos de depressão em amigos ou familiares?
Muitas vezes, a depressão não se manifesta de forma óbvia. A pessoa pode continuar trabalhando, sorrindo em fotos e mantendo a aparência de normalidade, enquanto vive um sofrimento silencioso por trás dessa fachada. Por isso, prestar atenção a mudanças sutis de comportamento é tão importante quanto reconhecer os sintomas mais evidentes.
Alguns sinais que merecem atenção incluem isolamento progressivo, mesmo em pessoas antes sociáveis; desinteresse por atividades e relacionamentos que antes eram importantes; mudanças perceptíveis no padrão de sono ou apetite; cansaço constante sem explicação aparente; irritabilidade fora do padrão habitual da pessoa; e comentários recorrentes sobre se sentir um peso para os outros, sobre desesperança em relação ao futuro, ou frases que soam como despedida.
Diante desses sinais, a atitude mais importante é acolher sem julgamento. Evitar frases como “isso é frescura” ou “outras pessoas passam por coisas piores” é fundamental, já que esses comentários reforçam a vergonha e afastam quem precisa de ajuda.
Perguntar diretamente como a pessoa está se sentindo, ouvir sem tentar resolver o problema imediatamente, e incentivar a busca por acompanhamento com psicólogo ou psiquiatra costumam ser passos mais eficazes do que tentar minimizar o sofrimento com conselhos rápidos.
Por que o preconceito e o estigma prejudicam o tratamento da depressão e a prevenção ao suicídio?
O estigma em torno das doenças mentais continua sendo uma das maiores barreiras para o diagnóstico e o tratamento adequado. A ideia de que buscar ajuda psicológica ou psiquiátrica é sinal de fraqueza, ou de que problemas emocionais devem ser resolvidos sozinhos, faz com que muitas pessoas adiem a procura por cuidado especializado até que o sofrimento se torne insuportável.
Esse preconceito também se manifesta em mitos amplamente difundidos. Um dos mais prejudiciais é a crença de que falar sobre suicídio pode incentivar a ideia na pessoa em sofrimento. Na realidade, o oposto costuma ser verdadeiro: abordar o assunto com cuidado e abertura ajuda a aliviar a angústia e permite que a pessoa se sinta segura para pedir ajuda. Outro mito comum é achar que quem fala sobre suicídio não teria a intenção real de agir; qualquer expressão de ideias ou intenções suicidas deve sempre ser levada a sério.
Romper com esse estigma passa por tratar a saúde mental com a mesma seriedade dedicada à saúde física, incentivar conversas abertas sobre o tema em casa, no trabalho e nas escolas, e reconhecer que buscar um psiquiatra ou psicólogo é um ato de cuidado, não de fraqueza.
Como é feito o tratamento da depressão e a prevenção ao suicídio?
O tratamento das condições de saúde mental costuma ser conduzido de forma conjunta entre psicólogos e psiquiatras, com abordagens que se complementam. A psicoterapia trabalha os aspectos emocionais, comportamentais e as estratégias de enfrentamento, enquanto o acompanhamento psiquiátrico avalia a necessidade de tratamento medicamentoso, quando indicado, considerando as características específicas de cada caso.
Em muitas situações, o cuidado não se limita a essas duas especialidades. O tratamento pode envolver uma equipe multidisciplinar, incluindo terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e enfermeiros especializados em saúde mental. A adesão ao tratamento é o fator mais importante para a recuperação. E interromper o acompanhamento por conta própria, mesmo diante de melhora dos sintomas, pode levar a recaídas.
Por isso, manter o vínculo com os profissionais responsáveis e seguir as orientações estabelecidas ao longo de todo o processo é essencial para uma recuperação sólida e duradoura.
Em caso de emergência, como buscar ajuda diante de uma crise de depressão e ideação suicida?
Se você ou alguém que você conhece está passando por um momento de crise depressiva, com pensamentos sobre morte ou sobre tirar a própria vida, saiba que existe ajuda disponível, acessível e sigilosa, a qualquer hora do dia.
De imediato, é possível ligar para o Centro de Valorização da Vida (CVV) no número 188, 24 horas por dia, todos os dias da semana. O atendimento também está disponível por chat e e-mail em cvv.org.br, com total sigilo e sem custo.
Outra ação imediata é ir direto ao pronto-socorro de hospital, onde a equipe de emergência encaminhará a profissionais de saúde mental.
Mas ninguém precisa esperar uma crise se agravar para buscar ajuda. Marcar uma consulta com psicólogo ou psiquiatra diante dos primeiros sinais de sofrimento é um cuidado tão válido quanto procurar ajuda em um momento de emergência.
Falar é o primeiro passo, e conversar pode, literalmente, mudar e salvar vidas.
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por profissional de saúde qualificado. Se você está em sofrimento, procure ajuda.