É comum uma criança acordar à noite reclamando de dor nas pernas, e é natural que os pais fiquem preocupados quando essa queixa se repete. Na maioria das vezes, quando a dor apresenta um padrão característico, ela corresponde ao que tradicionalmente se chama de dor do crescimento, uma condição benigna e relativamente frequente na infância.
Apesar disso, nem toda dor nas pernas é dor do crescimento. Existem algumas características que ajudam a reconhecer o padrão típico e sinais que indicam a necessidade de uma avaliação médica.
Este texto explica o que é a chamada dor do crescimento, por que ela costuma aparecer à noite e quando é importante procurar o pediatra.
A dor do crescimento existe mesmo?
Sim. A chamada dor do crescimento é uma queixa comum na infância. Apesar do nome, porém, não há evidências de que ela seja causada diretamente pelo crescimento dos ossos ou pelos períodos de estirão.
A causa exata ainda não é completamente conhecida. Algumas hipóteses relacionam os episódios ao esforço físico realizado ao longo do dia, enquanto outras consideram fatores relacionados à sensibilidade à dor e ao funcionamento dos músculos e das articulações.
O mais importante para as famílias é que, quando a criança apresenta o padrão típico e não existem outros sinais associados, trata-se geralmente de uma condição benigna.
O diagnóstico é feito principalmente pela história e pelo exame físico. Não existe um exame específico que confirme a chamada dor do crescimento.
Em que idade a dor do crescimento é mais comum?
A dor do crescimento costuma aparecer durante a infância, principalmente na idade pré-escolar e escolar. É mais frequentemente descrita entre os 3 e os 12 anos, embora possa ocorrer fora dessa faixa.
Os episódios podem aparecer durante meses ou anos, alternando períodos com dor e períodos completamente sem sintomas.
A idade, isoladamente, não permite fazer o diagnóstico. O pediatra também considera o padrão da dor, o exame físico e a presença ou ausência de outros sintomas.
Por que a dor nas pernas piora à noite?
Ainda não se sabe exatamente por que esses episódios são mais comuns no fim do dia e durante a noite.
Uma das hipóteses é que o esforço físico acumulado durante o dia contribua para o aparecimento do desconforto. Crianças que passaram o dia correndo, pulando ou praticando esportes podem apresentar mais episódios à noite.
O horário é uma característica bastante típica: a dor costuma aparecer no fim do dia, na hora de dormir ou durante a madrugada e, em geral, desaparece até a manhã seguinte.
Ao acordar, a criança normalmente está bem, consegue caminhar, brincar e realizar suas atividades habituais sem dor ou mancar.
Por isso, uma dor que persiste pela manhã, interfere nas atividades durante o dia ou vem acompanhada de inchaço, vermelhidão ou outros sintomas merece avaliação médica.
Como costuma ser a dor do crescimento?
O padrão mais característico apresenta algumas das seguintes características:
- Afeta geralmente as duas pernas, embora possa ocorrer de forma assimétrica;
- Costuma ser sentida nos músculos, muitas vezes nas panturrilhas, na parte da frente das coxas ou atrás dos joelhos;
- Não costuma estar concentrada em uma única articulação;
- Aparece principalmente no fim do dia ou à noite;
- Pode despertar a criança durante o sono;
- Melhora espontaneamente e, geralmente, desaparece até a manhã seguinte;
- Acontece em episódios, com períodos em que a criança fica completamente sem dor;
- Não costuma causar mancar ou limitar as atividades durante o dia;
- Não vem acompanhada de inchaço, vermelhidão, febre ou alterações aparentes nas articulações.
Nenhuma dessas características, isoladamente, confirma o diagnóstico. O pediatra avalia o conjunto da história e do exame físico para verificar se o quadro realmente apresenta o padrão esperado.
O que os pais podem fazer para aliviar a dor?
Durante um episódio, algumas medidas simples podem ajudar a criança. Massagem suave nas pernas e aplicação de uma compressa morna costumam proporcionar alívio.
O acolhimento também é importante. Como os episódios podem acontecer durante a noite, tranquilizar a criança e ajudá-la a relaxar pode diminuir o desconforto.
Em algumas situações, o pediatra pode orientar o uso de um analgésico. A dose deve sempre ser adequada à idade e ao peso da criança e, principalmente em episódios recorrentes, o uso de medicamentos deve ser discutido com o pediatra.
Também é importante observar o comportamento da dor: episódios que desaparecem e deixam a criança completamente bem durante o dia são mais compatíveis com o padrão benigno.
A dor do crescimento pode atrapalhar o crescimento do meu filho?
Não. A chamada dor do crescimento não causa atraso no crescimento nem interfere na altura final da criança.
Apesar do nome, ela não significa que os ossos estejam crescendo de maneira anormal. Quando o quadro apresenta o padrão típico, a criança continua crescendo e se desenvolvendo normalmente
Quais sinais na dor da criança merecem avaliação médica?
A maioria dos casos com o padrão típico é benigna. Entretanto, alguns sinais fogem desse padrão e justificam uma avaliação pediátrica.
Procure o médico quando a dor:
- Acontece sempre no mesmo ponto ou fica concentrada em apenas uma perna;
- É persistente ou está ficando progressivamente mais intensa;
- Continua durante a manhã ou ao longo do dia;
- Faz a criança mancar, evitar caminhar ou deixar de brincar;
- Está associada a inchaço, vermelhidão ou calor em uma articulação;
- Vem acompanhada de febre;
- É acompanhada de fraqueza ou dificuldade para movimentar a perna;
- Surge junto com manchas roxas ou sangramentos sem explicação;
- Vem acompanhada de cansaço fora do habitual, perda de apetite ou perda de peso;
- Está associada a qualquer outra alteração que preocupe a família.
Esses sinais não significam necessariamente que exista uma doença grave. Eles apenas indicam que o quadro não apresenta o padrão clássico da dor do crescimento e, por isso, merece ser investigado.
Quando febre e dor nas pernas da criança deve ser motivo de preocupação?
A dor do crescimento não causa febre. Por isso, quando uma criança apresenta dor nas pernas associada a febre, é importante procurar o pediatra.
A febre pode ocorrer por inúmeras causas comuns, inclusive infecções, e a associação com dor nas pernas não significa automaticamente uma doença grave. O importante é que o pediatra avalie a criança, principalmente quando a febre é persistente ou vem acompanhada de outros sintomas.
Leia também: Mancha roxa na perna: quando pode ser sinal de leucemia
A dor que acorda a criança durante o sono é diferente?
Não necessariamente. A dor do crescimento pode ocorrer à noite e, em algumas crianças, pode ser suficientemente intensa para acordá-las durante o sono.
O fato de acordar a criança, isoladamente, não significa que exista uma doença mais séria. O que importa é observar o conjunto do quadro.
Uma dor que acontece à noite, melhora até a manhã seguinte e não provoca sintomas durante o dia pode ser compatível com dor do crescimento.
Já uma dor que acorda a criança repetidamente, está ficando progressivamente mais intensa, persiste durante o dia ou vem acompanhada de outros sinais deve ser avaliada pelo pediatra.
Quando levar a criança ao pediatra por dor nas pernas?
Não é necessário esperar que vários sinais apareçam para procurar ajuda. A consulta é indicada sempre que a dor for persistente, recorrente ou estiver preocupando a família.
Em especial, vale procurar o pediatra quando houver:
- Dor sempre no mesmo local ou em apenas uma perna;
- Dor que persiste ou piora durante o dia;
- Mancar ou dificuldade para caminhar;
- Inchaço, vermelhidão ou calor em uma articulação;
- Febre;
- Manchas roxas ou sangramentos sem explicação;
- Fraqueza ou dificuldade para movimentar a perna;
- Cansaço incomum;
- Perda de peso ou de apetite sem explicação;
- Qualquer mudança no padrão habitual da dor.
Na maioria das vezes, a consulta serve para confirmar que o quadro é benigno e tranquilizar a família.
O que o pediatra pode avaliar?
Na consulta, o pediatra pergunta quando a dor aparece, onde ela é sentida, quanto tempo dura, se existe relação com atividade física e se há outros sintomas associados.
Também realiza o exame físico, avaliando as pernas, os músculos, as articulações, a marcha e os movimentos da criança.
Quando a história e o exame físico são típicos de dor do crescimento, geralmente não é necessário realizar exames complementares.
Quando existem características que fogem do padrão esperado, o médico pode solicitar exames de sangue, radiografias ou outros exames de imagem para investigar outras possíveis causas.
A decisão sobre quais exames são necessários depende da avaliação individual da criança e não deve ser feita pela família por conta própria.
Se seu filho apresenta dor nas pernas que está causando preocupação, procure o pediatra. Na maioria das vezes, a causa é benigna, mas uma avaliação adequada é a melhor maneira de confirmar isso e identificar precocemente qualquer situação que precise de tratamento.
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