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Síndrome de Lynch: conhecer a genética da família pode salvar vidas

Entenda o que é a Síndrome de Lynch, sua relação com o câncer colorretal e de endométrio, e como o aconselhamento genético ajuda a preveni-los.

A Síndrome de Lynch é uma condição genética hereditária que aumenta a probabilidade de desenvolver alguns tipos de câncer ao longo da vida, principalmente o câncer colorretal e o câncer de endométrio. Ela não é, em si, uma doença ou um câncer: trata-se de uma predisposição herdada dos pais, causada por alterações em genes responsáveis por corrigir erros que acontecem naturalmente no DNA das células.

Identificar essa alteração genética permite antecipar os cuidados, com acompanhamento médico especializado e exames de rastreamento realizados em intervalos adequados. Dessa forma, é possível reduzir o risco de desenvolvimento de alguns cânceres ou aumentar significativamente a chance de diagnóstico em fases iniciais, quando o tratamento costuma ter melhores resultados.

O que é a Síndrome de Lynch?

Todas as nossas células possuem mecanismos naturais para revisar e corrigir pequenos erros que acontecem durante a duplicação do DNA. Esse sistema é chamado de reparo de erros de pareamento do DNA, ou sistema de reparo MMR (do inglês mismatch repair).

A Síndrome de Lynch ocorre quando uma pessoa nasce com uma alteração em um dos genes envolvidos nesse sistema de reparo, principalmente MLH1, MSH2, MSH6 e PMS2, ou em regiões reguladoras como EPCAM. Com essa falha, erros no DNA podem se acumular com maior facilidade ao longo da vida, aumentando a chance de algumas células se transformarem em células cancerígenas.

A condição também já foi chamada de HNPCC (câncer colorretal hereditário não poliposo). Esse nome surgiu para diferenciá-la da polipose adenomatosa familiar, outra síndrome hereditária na qual centenas ou milhares de pólipos podem se formar no intestino. Na Síndrome de Lynch, geralmente não ocorre grande quantidade de pólipos, mas aqueles que surgem apresentam maior tendência de evoluir para câncer e podem aparecer em idade mais jovem do que na população geral.

A herança é autossômica dominante, ou seja, uma pessoa que possui uma mutação em um desses genes tem 50% de chance de transmitir essa alteração para cada filho, independentemente do sexo. Por isso, quando a síndrome é identificada em uma pessoa, recomenda-se que familiares de primeiro grau, como pais, irmãos e filhos, sejam avaliados.

Quais cânceres estão associados à Síndrome de Lynch?

A Síndrome de Lynch está principalmente associada ao câncer colorretal e ao câncer de endométrio, mas o risco aumentado não se limita a esses órgãos.

Os principais cânceres relacionados incluem:

  • Câncer colorretal.
  • Câncer de endométrio (revestimento interno do útero), um dos tumores mais frequentes associados à síndrome.
  • Câncer de ovário.
  • Câncer de estômago.
  • Câncer das vias urinárias, especialmente ureter e pelve renal.
  • Câncer de intestino delgado.
  • Alguns tumores de pele, especialmente tumores sebáceos em determinadas famílias.

Ter uma mutação associada à Síndrome de Lynch não significa que a pessoa desenvolverá obrigatoriamente câncer. Isso significa que seu risco ao longo da vida é maior do que o da população geral, tornando o acompanhamento médico regular fundamental.

Quais são os sintomas da Síndrome de Lynch?

A Síndrome de Lynch em si não causa sintomas: ela é uma predisposição genética presente desde o nascimento e geralmente permanece silenciosa. Muitas pessoas descobrem que possuem a alteração apenas após um diagnóstico de câncer na família ou durante uma investigação genética preventiva.

Os sintomas que levam à investigação geralmente são aqueles relacionados aos cânceres que podem surgir, como:

  • Sangue nas fezes.
  • Mudança persistente do hábito intestinal.
  • Sangramento vaginal fora do período menstrual ou após a menopausa.
  • Perda de peso sem causa aparente.
  • Anemia sem explicação.

Esses sinais não confirmam a presença da síndrome, mas devem motivar avaliação médica, especialmente quando aparecem em pessoas jovens ou com histórico familiar sugestivo.

Quando desconfiar de Síndrome de Lynch na família?

Alguns sinais aumentam a suspeita e indicam a possibilidade de investigação genética:

  • Mais de um familiar próximo (pais, irmãos, filhos, tios ou avós) com câncer colorretal, endométrio ou outros tumores associados.
  • Diagnóstico de câncer colorretal ou endométrio em idade jovem, especialmente antes dos 50 anos.
  • Casos de câncer relacionados à síndrome em diferentes gerações da mesma família.
  • Tumor previamente analisado com alteração nas proteínas do sistema de reparo do DNA ou presença de instabilidade de microssatélites (MSI).

Esses critérios ajudam os médicos a identificar quais pessoas têm maior benefício com a investigação genética.

Como é feito o teste genético para detectar a Síndrome de Lynch?

A investigação pode começar de duas formas principais.

Quando uma pessoa já possui um câncer colorretal ou de endométrio diagnosticado, o próprio tecido do tumor pode ser analisado por exames como a imunohistoquímica das proteínas de reparo do DNA ou pesquisa de instabilidade de microssatélites (MSI). Alterações nesses testes podem indicar a necessidade de realizar um teste genético confirmatório em sangue ou saliva, que avalia diretamente os genes relacionados à síndrome.

Em pessoas sem câncer, mas com histórico familiar sugestivo, o teste genético pode ser realizado diretamente em sangue ou saliva, geralmente por meio de painéis que avaliam diversos genes associados a câncer hereditário.

O resultado permite definir estratégias de acompanhamento personalizadas para o paciente e seus familiares.

O que é o aconselhamento genético e por que ele é importante?

O aconselhamento genético é uma consulta realizada antes e depois do teste genético, geralmente com profissionais especializados em oncogenética.

Antes do exame, o especialista explica o que está sendo investigado, quais são as possíveis consequências dos resultados e como essa informação pode impactar outros familiares.

Após o resultado, ajuda a interpretar o significado da alteração encontrada, define estratégias de rastreamento e orienta sobre a avaliação dos demais membros da família.

Como a Síndrome de Lynch é herdada de forma autossômica dominante, cada filho de uma pessoa com a mutação possui 50% de chance de também apresentar a alteração.

Como funciona o rastreamento e a prevenção do câncer na Síndrome de Lynch?

A grande importância de identificar a Síndrome de Lynch é permitir um acompanhamento preventivo. O rastreamento costuma incluir:

  • Colonoscopia periódica, geralmente iniciada entre 20 e 25 anos nos genes de maior risco, com repetição a cada 1 a 2 anos, conforme o gene alterado e orientação médica.
  • Acompanhamento ginecológico individualizado para mulheres, com atenção aos sintomas de câncer de endométrio e avaliação das estratégias preventivas.
  • Avaliação de risco para outros tumores associados, conforme histórico familiar e gene envolvido.

Para mulheres com Síndrome de Lynch que já concluíram o planejamento familiar, a cirurgia preventiva com retirada do útero e dos ovários pode ser considerada em situações específicas para reduzir o risco de câncer de endométrio e ovário. A decisão deve ser individualizada, considerando idade, gene alterado e preferências da paciente.

O uso de aspirina em baixa dose também foi estudado como estratégia de redução do risco de câncer colorretal em pessoas com Síndrome de Lynch. Entretanto, a indicação deve ser discutida com o médico, considerando riscos, benefícios, dose e duração do tratamento.

A Síndrome de Lynch tem cura?

A alteração genética responsável pela Síndrome de Lynch faz parte do DNA da pessoa e, portanto, não pode ser eliminada. Entretanto, conhecer essa informação permite uma mudança importante: transformar uma predisposição genética em uma oportunidade de prevenção e diagnóstico precoce.

Com acompanhamento adequado, muitos cânceres associados à síndrome podem ser prevenidos ou identificados em fases iniciais.

Quando um câncer se desenvolve, o tratamento segue os princípios utilizados para outros pacientes oncológicos, com uma característica importante: muitos tumores associados à Síndrome de Lynch apresentam deficiência no sistema de reparo do DNA e instabilidade de microssatélites (MSI-H/dMMR).

Esse perfil molecular está associado a maior sensibilidade à imunoterapia, que atualmente representa uma das principais estratégias de tratamento para pacientes com câncer colorretal metastático com essa característica, além de ter papel importante em outros tumores associados à síndrome.

A principal mensagem sobre a Síndrome de Lynch é que a informação genética permite antecipar cuidados: identificar a alteração abre um caminho para prevenir cânceres, realizar diagnósticos precoces e oferecer tratamentos cada vez mais personalizados quando necessário.

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Revisão médica:

Dra. Fernanda Frozoni Antonacio

Oncologista Clínica

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