Também conhecido como câncer de intestino ou de cólon e reto, o câncer colorretal tem aumentado entre adultos jovens em várias partes do mundo. Um estudo publicado em 2025 na revista científica The Lancet Oncology analisou dados de 50 países e identificou esse avanço em 27 deles. Em 20 países, os casos cresceram proporcionalmente mais entre os jovens do que entre os adultos mais velhos. Além disso, em alguns lugares, o aumento foi observado apenas nessa faixa etária.
Por muito tempo, pessoas com menos de 50 anos foram consideradas de menor risco para o câncer colorretal. Contudo, hoje, o aumento de casos nesse grupo tem chamado a atenção de especialistas. Ainda não existe uma única explicação definitiva, mas pesquisadores investigam uma combinação de fatores, como:
Alimentação rica em ultraprocessados; Obesidade e sedentarismo; Alterações da microbiota intestinal; Inflamação intestinal crônica; Uso precoce de antibióticos; Exposição a toxinas bacterianas.
Uma das hipóteses investigadas pelos cientistas envolve a colibactina, toxina produzida por alguns tipos da bactéria E. coli, capaz de causar mutações no DNA das células do intestino ainda na infância. Esses danos podem deixar “marcas” genéticas que, anos depois, aparecem em tumores de adultos jovens.
A bactéria E. coli causa câncer de intestino?
Não é correto afirmar que a Escherichia coli (E. coli), sozinha, causa câncer colorretal. A maioria das cepas dessa bactéria vive naturalmente no intestino humano e não provoca problemas. O que tem chamado a atenção dos cientistas é que alguns tipos dessa bactéria, assim como outras bactérias, podem produzir uma toxina chamada colibactina, capaz de causar mutações no DNA das células intestinais.
Esse dano ao DNA é relevante porque o câncer surge, em muitos casos, a partir do acúmulo de alterações genéticas nas células. Em um estudo publicado na revista Nature, pesquisadores analisaram amostras de sangue e tecido tumoral de quase mil pacientes com câncer colorretal em 11 países. O objetivo era identificar “assinaturas mutacionais”, ou seja, padrões de mutações que ajudam a entender quais fatores podem ter contribuído para o surgimento do tumor.
Os cientistas observaram que pacientes diagnosticados com câncer colorretal antes dos 50 anos tinham mais mutações associadas à colibactina. Essa relação foi ainda mais evidente entre pessoas diagnosticadas antes dos 40 anos, que apresentaram cerca de três vezes mais chance de ter essas marcas genéticas do que pacientes diagnosticados após os 70 anos.
A hipótese é que a exposição à colibactina possa acontecer ainda na infância, possivelmente antes dos 10 anos de idade. Esses danos iniciais poderiam deixar um “registro” no DNA das células intestinais e antecipar o surgimento do câncer em algumas pessoas.
Ainda assim, os pesquisadores ressaltam que existe uma forte associação estatística, mas não uma prova definitiva de causa e efeito. Em outras palavras: a colibactina pode estar envolvida no processo, mas ainda não se pode afirmar que ela, isoladamente, causa câncer colorretal. Além disso, nem todas as pessoas que têm bactérias produtoras de colibactina desenvolvem a doença.
Alimentação moderna e ultraprocessados
Em todo o mundo, a alimentação mudou profundamente nas últimas décadas. Uma série de artigos publicada em 2025 na revista The Lancet mostrou que o consumo de alimentos ultraprocessados aumentou ao longo dos anos em 93 países.
Apenas no Brasil, a participação dos ultraprocessados na dieta da população mais que dobrou desde 1980, passando de 10% para 23%. O alerta vem de mais de 40 cientistas, liderados por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP).
Os ultraprocessados são produtos formulados pela indústria a partir de muitos ingredientes, geralmente com adição de açúcar, gordura, sal, corantes, aromatizantes, emulsificantes e conservantes. Entram nesse grupo itens como:
Refrigerantes; Salgadinhos de pacote; Biscoitos recheados; Cereais açucarados; Chocolates; Sorvetes; Embutidos; Margarina; Macarrão instantâneo; Refeições prontas congeladas.
Estudos têm observado uma associação entre dietas ricas nesses produtos e maior risco de disbiose intestinal, inflamação crônica, obesidade e alterações da microbiota, fatores que podem contribuir para o desenvolvimento da doença.
Outro ponto importante é o consumo frequente de carnes vermelhas e processadas, como salsicha, presunto, bacon, linguiça e salame. Existem evidências consolidadas de associação desses alimentos com uma maior chance de desenvolver câncer colorretal. O World Cancer Research Fund recomenda limitar esse consumo e destaca que a alimentação, o peso corporal e a atividade física têm papel relevante na prevenção da doença.
Relação entre microbiota intestinal e câncer
A microbiota intestinal é o conjunto de microrganismos, como bactérias e fungos, que vivem no intestino. A maior parte deles participa de funções essenciais para o organismo, como a digestão de alimentos, a produção de substâncias benéficas, a regulação da imunidade e a manutenção da barreira intestinal.
Quando há um desequilíbrio na microbiota, chamado de disbiose, algumas bactérias podem se tornar mais presentes, enquanto microrganismos protetores diminuem, o que contribui para processos inflamatórios e alterações intestinais.
No caso do câncer colorretal, pesquisadores investigam como mudanças na microbiota podem favorecer um ambiente mais propício ao surgimento e à progressão de tumores. Algumas bactérias podem produzir substâncias capazes de causar inflamação, enfraquecer a barreira de proteção do intestino ou provocar dano direto ao DNA das células intestinais. Outras podem interferir na resposta do sistema imunológico, dificultando o reconhecimento e a eliminação de células alteradas.
O câncer colorretal é uma doença multifatorial, resultado da combinação de fatores genéticos, ambientais e comportamentais. No entanto, a microbiota pode ser uma peça relevante desse processo, principalmente porque ela é influenciada por aspectos da vida cotidiana, como alimentação, uso de antibióticos, sedentarismo, obesidade, sono, estresse e doenças inflamatórias intestinais.
Uma alimentação rica em fibras, frutas, verduras, legumes, grãos e cereais integrais colabora para uma microbiota mais diversa e a produção de compostos benéficos, como os ácidos graxos de cadeia curta, que ajudam a proteger as células do intestino. Já o consumo frequente de ultraprocessados e carnes processadas pode levar a inflamação e ao desequilíbrio da microbiota.
Leia também: Modulação da microbiota intestinal no tratamento do câncer
A influência da obesidade e do sedentarismo
O número de adultos com obesidade no Brasil cresceu 118% entre 2006 e 2024, segundo dados da pesquisa Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico). O excesso de gordura corporal, principalmente na região abdominal, não é apenas uma questão estética: é um relevante fator de risco para diferentes doenças, incluindo o câncer colorretal.
O tecido adiposo, que armazena gordura no corpo, também funciona como um órgão endócrino ativo. Ele produz substâncias que participam da regulação do metabolismo, dos hormônios e da resposta inflamatória.
Quando há excesso de gordura corporal, esse tecido pode passar a liberar mais substâncias inflamatórias. Essa inflamação persistente pode favorecer alterações celulares que, ao longo dos anos, tendem a contribuir para a formação de tumores.
O sedentarismo é outro problema que já atinge 1,8 bilhão de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A inatividade física promove alterações metabólicas e hormonais crônicas, criando um ambiente inflamatório que favorece o surgimento de pólipos e tumores intestinais.
Para mudar esse cenário, não é preciso começar com grandes mudanças. Reduzir o tempo sentado, fazer pequenos deslocamentos a pé, usar escadas quando possível e encontrar uma atividade física prazerosa já são passos importantes. É preciso transformar o movimento em parte da rotina, de forma segura e sustentável.
Confira: Obesidade na adolescência eleva risco de câncer precoce de intestino
Sintomas do câncer colorretal em jovens
Os sintomas do câncer de intestino em jovens são semelhantes aos observados em pessoas mais velhas. A diferença é que, nessa faixa etária, eles podem ser mais facilmente confundidos com problemas comuns, como hemorroidas, prisão de ventre, diarreia, intolerâncias alimentares ou síndrome do intestino irritável. Isso pode fazer com que a investigação demore mais tempo para acontecer.
Entre os principais sinais de alerta estão:
Sangue nas fezes ou sangramento pelo ânus; Mudanças persistentes no funcionamento do intestino; Sensação de evacuação incompleta; Fezes mais finas ou com formato diferente do habitual; Dor, cólica ou desconforto abdominal frequente; Excesso de gases; Distensão abdominal persistente; Perda de peso sem causa aparente; Cansaço constante; Anemia sem uma causa clara.
Principalmente quando os sintomas persistem por semanas ou aparecem repetidamente, é fundamental procurar avaliação médica.
Jovem precisa fazer colonoscopia?
Nem todo jovem precisa fazer colonoscopia de rotina. Para pessoas sem sintomas, sem histórico familiar e sem outros fatores de risco, o rastreamento do câncer colorretal geralmente é indicado a partir dos 45 anos de idade.
No entanto, a colonoscopia pode ser necessária antes dessa idade quando há sinais de alerta, como sangue nas fezes, anemia e alterações persistentes no hábito intestinal. Nessas situações, o exame é indicado não como rastreamento, mas como parte da investigação diagnóstica.
Além disso, pessoas com histórico familiar de câncer colorretal, pólipos intestinais avançados, doenças inflamatórias intestinais ou síndromes hereditárias podem precisar iniciar o rastreamento mais cedo e realizar exames com maior frequência.
Converse com seu médico para avaliar a necessidade e a frequência ideal dos exames preventivos de acordo com seu histórico clínico.
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