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Linfócitos alterados no hemograma: o que pode indicar?

Linfócitos altos, baixos ou atípicos no hemograma podem ter várias causas. Entenda o que cada alteração indica e quando é preciso investigar.

Os linfócitos são um tipo de glóbulo branco que participa da defesa do organismo. No hemograma, eles fazem parte da chamada série branca, e sua quantidade pode aumentar ou diminuir em diferentes situações.

Ver a palavra “alterado” ao lado dos linfócitos no resultado do exame costuma gerar preocupação, mas muitas dessas variações têm causas simples e passageiras, como uma infecção recente.

Este texto explica o que significam linfócitos altos, baixos e atípicos, quais são as causas mais comuns de cada situação e em quais casos o médico pode solicitar uma investigação mais detalhada.

O que são linfócitos e para que servem?

Os linfócitos são produzidos a partir de células precursoras da medula óssea, o tecido encontrado no interior dos ossos onde são produzidas as células do sangue. Depois de se desenvolverem, eles circulam pelo sangue e também estão presentes em órgãos e tecidos do sistema imunológico, como os linfonodos (ínguas) e o baço.

Eles participam do reconhecimento e da eliminação de agentes infecciosos e de células anormais. Existem três principais grupos de linfócitos:

  • Linfócitos B: produzem anticorpos, proteínas que reconhecem substâncias específicas presentes em microrganismos e outras estruturas e ajudam a organizar sua eliminação pelo organismo.
  • Linfócitos T: participam da coordenação da resposta imunológica e podem reconhecer e destruir células infectadas ou alteradas.
  • Células NK (natural killer): reconhecem e eliminam determinadas células infectadas ou anormais, especialmente células infectadas por vírus e algumas células tumorais.

Por causa desse papel, a quantidade de linfócitos no sangue pode variar em resposta a infecções, inflamações, medicamentos e outras situações. Por isso, uma alteração isolada no hemograma não significa necessariamente que exista uma doença.

Qual é o valor normal de linfócitos?

O hemograma costuma informar os linfócitos de duas maneiras: em percentual, que representa a proporção dessas células entre os glóbulos brancos, e em número absoluto, que corresponde à quantidade de linfócitos presente em determinado volume de sangue.

Os valores de referência variam conforme a idade, o laboratório e o método utilizado. Em adultos, de forma geral, a contagem absoluta de linfócitos fica aproximadamente na faixa de 1.000 a 4.000 células por microlitro (µL) de sangue, mas esses limites não são universais.

Por isso, o resultado deve ser interpretado de acordo com a faixa de referência apresentada no próprio laudo. Em crianças, os valores considerados normais são diferentes dos observados em adultos e também mudam conforme a idade.

Além disso, o médico considera não apenas o número de linfócitos, mas também o restante do hemograma, os sintomas, os medicamentos em uso e a evolução dos resultados ao longo do tempo.

O que significa linfócitos altos no hemograma?

Quando a quantidade de linfócitos está acima da faixa de referência, a alteração é chamada de linfocitose.

Na maioria das vezes, a linfocitose é reativa, ou seja, representa uma resposta do sistema imunológico a algum estímulo. As infecções, especialmente as virais, estão entre as causas mais frequentes.

Nessas situações, os linfócitos podem aumentar durante a infecção e permanecer elevados por algum tempo mesmo depois que os sintomas desaparecem.

Mais raramente, a linfocitose está relacionada a doenças que provocam a proliferação anormal dos próprios linfócitos, como algumas leucemias e doenças linfoproliferativas.

Para diferenciar essas possibilidades, o médico não avalia apenas a contagem de linfócitos. São considerados também os sintomas, o exame físico, as outras células do sangue e a persistência ou evolução da alteração nos exames.

Meu exame mostra um percentual de linfócitos alto, mas o número absoluto está normal. É a mesma coisa?

Não. Essa é uma das confusões mais comuns na interpretação do hemograma.

Quando a proporção de linfócitos está aumentada, mas a quantidade absoluta permanece dentro da faixa esperada, fala-se em linfocitose relativa.

Isso pode acontecer, por exemplo, quando os neutrófilos diminuem. Como os linfócitos passam a representar uma parcela maior do total de glóbulos brancos, seu percentual aumenta, mesmo sem que exista um aumento real na quantidade de linfócitos.

Já na linfocitose absoluta, a quantidade real de linfócitos no sangue está aumentada. A contagem absoluta pode ser calculada multiplicando-se o número total de leucócitos pelo percentual de linfócitos. Muitos laboratórios já apresentam esse valor diretamente no laudo.

Essa diferença é importante porque um percentual elevado, isoladamente, não significa necessariamente que exista um aumento verdadeiro dos linfócitos. Por isso, o ideal é avaliar a contagem absoluta e o restante do hemograma antes de tirar conclusões.

Quais são as causas mais comuns de linfócitos altos?

As situações associadas à linfocitose podem ser agrupadas em algumas categorias:

  1. Infecções virais: são uma das causas mais frequentes. Podem ocorrer em infecções comuns e em doenças como mononucleose infecciosa, citomegalovirose, hepatites virais e outras viroses.
  2. Outras infecções: algumas infecções bacterianas, parasitárias e outras doenças infecciosas também podem aumentar os linfócitos. A coqueluche é um exemplo de infecção bacteriana que pode causar linfocitose.
  3. Recuperação de uma infecção: os linfócitos podem permanecer aumentados durante algum tempo depois que a infecção já melhorou.
  4. Estresse físico: situações como trauma, cirurgia e estresse fisiológico intenso podem provocar alterações temporárias na contagem de leucócitos e, em algumas circunstâncias, dos linfócitos.
  5. Medicamentos e outras condições inflamatórias: algumas reações a medicamentos e doenças inflamatórias podem estar associadas a alterações na contagem de linfócitos.
  6. Doenças linfoproliferativas: são doenças nas quais determinados linfócitos passam a se multiplicar de maneira anormal. Entre elas estão algumas leucemias e linfomas. Essas doenças são causas menos frequentes de linfocitose, mas devem ser consideradas principalmente quando a alteração é persistente, progressiva ou acompanhada de outros sinais.

Pessoas que passaram por retirada do baço (esplenectomia) também podem apresentar alterações persistentes na contagem de algumas células do sangue. Por isso, o resultado precisa sempre ser interpretado de acordo com o histórico clínico.

Virose deixa os linfócitos altos? Por quanto tempo?

Sim. As infecções virais estão entre as causas mais comuns de linfocitose. O aumento faz parte da resposta do sistema imunológico ao agente infeccioso.

O tempo necessário para que a contagem volte ao normal varia conforme a infecção e a resposta de cada pessoa. Em algumas viroses, os linfócitos se normalizam rapidamente. Em outras, podem permanecer elevados por várias semanas ou até mais tempo depois da resolução dos sintomas.

Na mononucleose infecciosa, por exemplo, alterações no hemograma podem persistir depois que a pessoa já apresenta melhora clínica.

Por isso, diante de uma linfocitose leve em uma pessoa que teve uma infecção recente, o médico pode optar por repetir o hemograma depois de algum tempo. Se a alteração persistir, aumentar progressivamente ou não tiver uma explicação evidente, pode ser necessário investigar outras causas.

Não existe, porém, um período único de persistência que, sozinho, determine a necessidade de investigação. A decisão depende do valor da contagem, da tendência dos exames, da idade, dos sintomas e de outras alterações encontradas.

O que são linfócitos atípicos no hemograma?

Os linfócitos atípicos são células que apresentam características morfológicas diferentes das observadas nos linfócitos habituais quando o sangue é examinado ao microscópio.

Eles podem ser maiores, apresentar alterações no formato da célula ou do núcleo e outras características que refletem um estado de ativação.

O termo “atípico” pode assustar, mas não significa, por si só, câncer. Em muitas situações, esses linfócitos são células de defesa ativadas em resposta a uma infecção. Eles são particularmente comuns em algumas infecções virais, como a mononucleose infecciosa.

Por outro lado, alterações na aparência dos linfócitos também podem ser observadas em doenças hematológicas. A morfologia, isoladamente, nem sempre permite determinar se uma célula é simplesmente reativa ou se faz parte de uma população anormal.

Quando existe dúvida, o médico pode solicitar exames complementares. Um deles é a citometria de fluxo, que analisa proteínas presentes na superfície ou no interior das células e ajuda a identificar populações de linfócitos com características anormais ou clonais.

Portanto, a presença de linfócitos atípicos deve ser interpretada junto com o restante do hemograma, os sintomas e o contexto clínico.

Linfócitos altos podem indicar câncer?

Podem, mas essa é uma causa menos comum de linfocitose. Na maioria das pessoas, especialmente quando o aumento é discreto e ocorre durante ou depois de uma infecção, a causa é reativa.

Quando existe suspeita de uma doença hematológica, alguns achados podem chamar a atenção, como:

  • aumento persistente ou progressivo da contagem de linfócitos;
  • alterações importantes ou progressivas no hemograma;
  • redução dos glóbulos vermelhos ou das plaquetas sem explicação;
  • aumento persistente dos linfonodos;
  • aumento do baço;
  • febre sem causa aparente;
  • suores noturnos intensos;
  • perda de peso não intencional;
  • infecções recorrentes ou outros sintomas relacionados à alteração das células do sangue.

Nenhum desses achados, isoladamente, confirma câncer. Eles apenas podem indicar a necessidade de uma avaliação mais detalhada.

Existe também uma condição chamada linfocitose monoclonal de células B (MBL). Nela, a citometria de fluxo identifica uma pequena população de linfócitos B clonais, ou seja, células que apresentam características muito semelhantes entre si. A quantidade dessas células é inferior ao limite utilizado para definir leucemia linfocítica crônica (LLC), e a pessoa não apresenta outras características que indiquem doença manifesta.

A MBL é relativamente comum em pessoas mais velhas e muitas vezes é descoberta por acaso durante a investigação de uma alteração no hemograma.

A evolução depende do tipo de MBL. Na chamada MBL de baixa contagem, o risco de progressão para LLC é muito baixo. Na MBL de alta contagem, o risco de evolução para LLC que necessite de tratamento é estimado em aproximadamente 1% a 2% ao ano.

Por isso, a MBL não é sinônimo de leucemia. Na maioria dos casos, a conduta é apenas o acompanhamento clínico e laboratorial periódico.

Ter linfócitos altos em crianças é normal?

Com frequência, sim. Crianças, especialmente nos primeiros anos de vida, apresentam naturalmente uma proporção maior de linfócitos no sangue do que os adultos.

Essa característica faz parte do desenvolvimento normal do sistema imunológico. Além disso, infecções virais são muito frequentes na infância e podem aumentar temporariamente a quantidade de linfócitos.

Por esse motivo, um resultado que seria considerado elevado para um adulto pode estar dentro da normalidade para uma criança pequena.

Os valores de referência devem sempre ser interpretados de acordo com a idade da criança e a faixa de referência do laboratório.

Quando a criança está bem, apresenta crescimento e desenvolvimento adequados e não existem outras alterações importantes no hemograma, uma linfocitose isolada frequentemente está relacionada à idade ou a uma infecção recente. Ainda assim, o pediatra deve avaliar o resultado no contexto clínico, especialmente quando a alteração é importante ou persistente.

Linfócitos e monócitos altos juntos, o que pode ser?

Os monócitos são outro tipo de glóbulo branco. Eles participam da resposta imunológica, incluindo a remoção de células danificadas, restos celulares e alguns agentes infecciosos.

Linfócitos e monócitos podem aumentar simultaneamente, principalmente durante determinadas infecções e no período de recuperação de uma infecção.

Infecções virais estão entre as causas mais comuns, mas outras infecções e condições inflamatórias também podem produzir esse padrão.

A interpretação depende da intensidade e da duração das alterações e dos demais resultados do hemograma. Quando os valores estão apenas discretamente elevados, especialmente após uma infecção recente, o médico pode recomendar apenas o acompanhamento e a repetição do exame.

Se as alterações forem persistentes, progressivas ou acompanhadas de outras alterações no hemograma ou de sintomas, pode ser necessária uma investigação mais detalhada.

O que significa linfócitos baixos?

A contagem de linfócitos abaixo da faixa de referência é chamada de linfopenia ou linfocitopenia.

Assim como acontece com a linfocitose, a linfopenia tem diversas causas e pode ser temporária.

Entre as situações associadas a linfócitos baixos estão:

  • Infecções: algumas infecções, especialmente durante a fase aguda, podem reduzir temporariamente a quantidade de linfócitos no sangue;
  • Uso de medicamentos: os corticoides são uma causa frequente de redução transitória dos linfócitos. Outros medicamentos também podem interferir na contagem;
  • Tratamentos oncológicos: quimioterapia, alguns tratamentos imunológicos e radioterapia podem reduzir a quantidade de linfócitos, dependendo da terapia utilizada e da região irradiada;
  • Situações de estresse físico intenso: cirurgias de grande porte, queimaduras extensas, traumas e doenças graves podem provocar uma redução temporária dos linfócitos;
  • Desnutrição: deficiências nutricionais importantes podem comprometer a produção e o funcionamento das células do sistema imunológico;
  • Doenças que afetam o sistema imunológico: algumas doenças autoimunes, imunodeficiências e outras condições podem estar associadas à linfopenia.

Uma redução discreta e isolada pode ser transitória e não necessariamente indica uma doença. A necessidade de investigação depende principalmente da intensidade da redução, de sua persistência, dos sintomas e da presença de outras alterações.

Quando a linfopenia é importante, persistente ou acompanhada de infecções recorrentes, o médico pode solicitar exames adicionais para identificar a causa.

Tratamentos oncológicos podem baixar os linfócitos?

Sim. Alguns tratamentos contra o câncer podem reduzir temporariamente a quantidade de linfócitos no sangue.

A quimioterapia pode afetar células da medula óssea e diminuir a produção de diferentes células sanguíneas, incluindo os linfócitos. A radioterapia também pode provocar linfopenia, principalmente quando grandes volumes de tecido hematopoiético ou de sangue circulante são expostos à radiação.

Os corticoides, que também podem fazer parte do tratamento de pacientes com câncer, reduzem a quantidade de linfócitos circulantes por mecanismos diferentes dos da quimioterapia.

A intensidade e a duração dessa redução dependem do tratamento utilizado, da dose, da combinação de medicamentos, da região irradiada e das características individuais do paciente.

Em muitos casos, a contagem se recupera depois do término do tratamento, embora algumas terapias possam causar alterações mais prolongadas.

Por isso, o hemograma é acompanhado regularmente durante muitos tratamentos oncológicos. O resultado ajuda a equipe médica a avaliar a tolerância ao tratamento e a identificar situações que possam exigir acompanhamento ou medidas específicas.

O que fazer quando o resultado dos linfócitos vem alterado?

O primeiro passo é não interpretar a contagem de linfócitos de forma isolada. Um resultado fora da faixa de referência não significa, por si só, que exista uma doença.

Alguns pontos ajudam a interpretar melhor o exame:

  • Compare com a referência do próprio laudo. As faixas de normalidade variam entre laboratórios e conforme a idade;
  • Observe a contagem absoluta e o percentual. Um percentual elevado não significa necessariamente que exista aumento real da quantidade de linfócitos;
  • Analise o conjunto do hemograma. As outras células do sangue, como neutrófilos, hemácias e plaquetas, também são importantes para a interpretação;
  • Considere infecções recentes. Uma virose nas últimas semanas pode explicar uma alteração temporária;
  • Informe os medicamentos em uso. Corticoides e outros medicamentos podem modificar a contagem de linfócitos;
  • Observe a evolução ao longo do tempo. Comparar exames anteriores pode ajudar a identificar se a alteração é nova, transitória, persistente ou progressiva;
  • Converse com o médico que solicitou o exame. O clínico geral, pediatra ou outro médico responsável pelo acompanhamento pode avaliar inicialmente o resultado e determinar se são necessários exames adicionais;
  • Considere repetir o hemograma quando indicado. Em alterações leves e provavelmente transitórias, o médico pode recomendar um novo exame depois de algum tempo para verificar se os valores voltaram ao normal.

Quando a alteração persiste, é muito intensa, apresenta evolução progressiva ou vem acompanhada de outros achados, podem ser necessários exames complementares e, em algumas situações, avaliação por um hematologista.

Na maioria das vezes, porém, uma alteração isolada dos linfócitos não significa câncer. A interpretação correta depende da quantidade de células, do tipo de alteração, da duração, dos demais resultados do hemograma e, principalmente, do contexto clínico de cada pessoa.

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Revisão médica:

Dra. Fernanda Frozoni Antonacio

Oncologista Clínica

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