A terapia-alvo é uma classe de medicamentos que age diretamente sobre alterações genéticas ou proteínas específicas presentes nas células doentes, poupando ao máximo as células saudáveis do organismo. Nos cânceres do sangue, como as leucemias, os linfomas e o mieloma múltiplo, essa abordagem transformou o tratamento nas últimas décadas. Doenças que antes dependiam principalmente da quimioterapia tradicional hoje contam com comprimidos orais e medicamentos administrados por infusão capazes de reconhecer características próprias de cada tumor, permitindo um tratamento mais direcionado às células do câncer.
Como funciona a terapia-alvo na leucemia e nos linfomas?
As células das leucemias e dos linfomas costumam apresentar alterações que as diferenciam das células saudáveis, como mutações genéticas específicas ou proteínas presentes em sua superfície. A terapia-alvo é desenvolvida para reconhecer exatamente essas características e agir sobre elas, bloqueando os sinais que fazem a célula doente se multiplicar sem controle ou marcando essas células para serem destruídas pelo próprio sistema imunológico.
Para saber qual terapia-alvo é indicada, o diagnóstico precisa ir além do exame de sangue comum. Exames moleculares, como o PCR (reação em cadeia da polimerase), a citometria de fluxo, o mielograma (aspiração da medula óssea) e, em muitos casos, a biópsia da medula óssea ajudam a identificar as alterações envolvidas na doença. É esse conjunto de informações que orienta o hematologista na escolha do tratamento mais adequado.
Qual a diferença entre quimioterapia tradicional e terapia-alvo?
A quimioterapia tradicional age sobre qualquer célula que esteja se dividindo rapidamente, seja ela doente ou saudável. É por isso que costuma causar efeitos colaterais mais amplos, como queda de cabelo, inflamação das mucosas e redução temporária das células de defesa do organismo.
A terapia-alvo, por sua vez, é desenvolvida para reconhecer características presentes principalmente nas células do câncer. Por isso, seu perfil de efeitos colaterais costuma ser diferente. A queda de cabelo, por exemplo, não é um efeito comum da maioria das terapias-alvo, embora cada medicamento tenha seu próprio conjunto de possíveis reações adversas, que são acompanhadas pelo hematologista durante todo o tratamento.
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O que são os inibidores de tirosina-quinase e o cromossomo Filadélfia?
O exemplo mais conhecido de terapia-alvo na hematologia é o tratamento da leucemia mieloide crônica (LMC). Nessa doença, ocorre uma troca de material genético entre dois cromossomos, formando uma alteração conhecida como cromossomo Filadélfia. Essa alteração origina um novo gene, chamado BCR::ABL1, que produz uma proteína (uma tirosina-quinase) responsável por estimular a multiplicação contínua das células da leucemia.
Os inibidores de tirosina-quinase, como o imatinibe, são medicamentos orais capazes de bloquear essa proteína alterada. Com isso, a multiplicação das células doentes é interrompida e a doença passa a ser controlada em grande parte dos pacientes. Esse tratamento transformou a LMC, antes considerada uma doença de evolução rapidamente fatal, em uma condição frequentemente controlável por muitos anos.
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É possível interromper o tratamento da leucemia mieloide crônica depois de uma boa resposta?
Para a maioria dos pacientes, o tratamento com inibidores de tirosina-quinase deve ser mantido por tempo indeterminado. Entretanto, em alguns casos, pode ser possível reduzir a dose ou até interromper o medicamento sob acompanhamento médico rigoroso.
Essa decisão é individualizada e depende de critérios bem estabelecidos, como ausência de resistência ao tratamento, resposta molecular profunda e sustentada por longo período, tempo adequado de uso da medicação e possibilidade de realizar monitorização molecular frequente após a suspensão.
Como funcionam os anticorpos monoclonais no tratamento dos linfomas e da leucemia linfoide crônica?
Além das alterações genéticas internas da célula, muitos linfomas e a leucemia linfoide crônica (LLC) apresentam proteínas frequentemente presentes na superfície das células doentes, como o CD20. Os anticorpos monoclonais, como o rituximabe, são desenvolvidos para reconhecer e se ligar a essa proteína, marcando a célula tumoral para que seja identificada e destruída pelo sistema imunológico.
Esse mecanismo é utilizado no tratamento de diversos tipos de linfoma não Hodgkin, incluindo o linfoma folicular, e também da LLC, geralmente em combinação com outros medicamentos, conforme a indicação do hematologista.
Existe tratamento-alvo por tempo determinado para a leucemia linfoide crônica?
Uma estratégia mais recente para o tratamento da LLC é o uso de esquemas com duração fixa baseados no inibidor de BCL-2 venetoclax, geralmente em combinação com anticorpos monoclonais, como o obinutuzumabe ou o rituximabe, dependendo da situação clínica do paciente. Em alguns casos, combinações com inibidores de BTK também podem ser utilizadas.
Diferentemente das terapias administradas de forma contínua, esses esquemas têm duração previamente definida. Estudos mostram que muitos pacientes conseguem manter respostas profundas por vários anos após o término do tratamento.
Ainda assim, a indicação deve ser individualizada, pois nem todos os pacientes são candidatos a esse tipo de estratégia.
Quais são as terapias-alvo mais avançadas para o mieloma múltiplo?
O mieloma múltiplo é um câncer dos plasmócitos, células produzidas na medula óssea responsáveis pela fabricação de anticorpos. Entre as terapias-alvo modernas para a doença estão os anticorpos monoclonais dirigidos contra proteínas presentes na superfície das células do mieloma, como CD38 e BCMA.
Também fazem parte desse arsenal os anticorpos biespecíficos, uma classe mais recente de medicamentos que se liga simultaneamente a uma célula do mieloma e a uma célula de defesa do próprio paciente, aproximando-as e favorecendo a destruição da célula tumoral.
Outra estratégia são os anticorpos conjugados a medicamentos (ADCs), que funcionam como um sistema de entrega direcionada: o anticorpo reconhece a célula do mieloma e libera o medicamento diretamente dentro da célula tumoral, reduzindo a exposição dos tecidos saudáveis.
Com os avanços dessas opções terapêuticas, o mieloma múltiplo, embora ainda não tenha cura na maioria dos casos, tornou-se uma doença cada vez mais controlável por longos períodos.
O que é a terapia com células CAR-T e quando ela é indicada?
A terapia com células CAR-T é uma forma de imunoterapia celular. Nela, células de defesa do próprio paciente (linfócitos T) são coletadas do sangue e modificadas em laboratório para reconhecer especificamente as células do câncer.
Depois de modificadas e multiplicadas, essas células são reinfundidas no paciente e passam a atacar diretamente o tumor. Essa terapia já é utilizada em alguns casos de linfoma, leucemia e mieloma múltiplo, principalmente quando outros tratamentos não apresentaram o resultado esperado ou quando a doença retorna após uma resposta inicial.
Por ser um procedimento complexo, a terapia com células CAR-T é realizada em centros especializados e requer acompanhamento hospitalar próximo durante e após a infusão.
Quais são os efeitos colaterais mais comuns da terapia-alvo?
Cada medicamento possui seu próprio perfil de efeitos colaterais, mas algumas reações podem ocorrer com maior frequência entre as diferentes classes de terapia-alvo, como:
- Cansaço;
- Náuseas;
- Alterações da pressão arterial;
- Retenção de líquidos (inchaço);
- Erupções cutâneas;
- Alterações da coagulação, com aumento do risco de sangramentos ou tromboses, dependendo do medicamento;
- Inchaço no rosto, pés, pernas ou mãos;
- Alterações em exames de sangue relacionadas ao funcionamento do fígado ou às células do sistema imunológico.
Os medicamentos administrados por infusão também podem provocar reações relacionadas à aplicação.
Consultas regulares com o hematologista e exames de sangue periódicos permitem identificar precocemente possíveis efeitos do tratamento. Dessa forma, quando necessário, a equipe médica pode ajustar a conduta, favorecendo a segurança do tratamento e a manutenção da qualidade de vida do paciente.
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