Endometriose: uma doença que afeta uma vida toda, mas demora anos para ser diagnosticada

Cólicas que incapacitam, dores que podem ser diárias, sintomas que médicos durante anos atribuíram a uma ‘dor normal de menstruação’, ao estresse ou ao exagero. Esse é o percurso que muitas pessoas com endometriose percorrem antes de finalmente receber um diagnóstico.
A endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio cresce fora do útero, podendo se instalar em vários lugares do corpo, desde bexiga, intestino até mesmo pulmão e cérebro. Uma das doenças mais subdiagnosticadas do mundo, e o atraso médio entre os primeiros sintomas e a confirmação diagnóstica pode chegar a sete anos ou mais.
Esse cenário tem consequências reais: quanto mais tempo a endometriose permanece sem tratamento, maiores os riscos de progressão da doença, formação de aderências, comprometimento de órgãos vizinhos e impacto sobre a fertilidade, sem falar da dor constante e incapacitante. Por isso, reconhecer os sinais cedo e buscar avaliação com um ginecologista especializado pode fazer toda a diferença.
- A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a endometriose afeta aproximadamente 190 milhões de pessoas com útero em idade reprodutiva em todo o mundo, o que representa cerca de 10% desse grupo em todo planeta.
- No Brasil, o Ministério da Saúde estima que uma a cada 10 mulheres sofre com os sintomas da endometriose. Isso afeta entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva, com média de sete anos entre o início dos sintomas e a confirmação do diagnóstico — um atraso que impacta diretamente a progressão da doença e a qualidade de vida das pessoas afetadas.
- Além disso, a OMS também aponta que a endometriose é uma das principais causas de infertilidade, com impacto significativo sobre a capacidade reprodutiva das pessoas afetadas — o que reforça a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento especializado antes mesmo de se planejar uma gestação.
O que é a endometriose e por que ela é tão difícil de diagnosticar?
A endometriose é uma doença inflamatória crônica que ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio, que é o revestimento interno do útero, passa a crescer fora da cavidade uterina. Esses focos podem se instalar nos ovários, nas tubas uterinas, no peritônio, no intestino, na bexiga e, em casos mais raros, em outros órgãos do corpo.
Independentemente de onde estejam, esses tecidos respondem às variações hormonais do ciclo menstrual, inflamando e sangrando ciclicamente, o que gera dor e pode causar aderências entre os órgãos.
Um aspecto que complica especialmente o diagnóstico é que os sintomas da endometriose são muito variáveis. Algumas pessoas têm dores intensas e incapacitantes; outras têm sintomas leves ou quase inexistentes, mesmo com extensas lesões. Além disso, a cólica menstrual ainda é amplamente subestimada e normalizada na sociedade, o que faz com que muitas pessoas demorem anos para perceber que o que sentem está fora do padrão esperado. Outro fator é que o diagnóstico definitivo costuma exigir procedimento cirúrgico, o que adiciona mais uma barreira ao processo.
A doença pode se apresentar em diferentes formas. A endometriose intestinal ocorre quando os focos atingem a parede do intestino, causando sintomas como dor ao evacuar, sangramento nas fezes e alterações do hábito intestinal durante o ciclo menstrual. Já a endometriose ovariana pode levar à formação de cistos nos ovários preenchidos de sangue antigo, conhecidos como endometriomas.
Quais são os sintomas da endometriose e quando buscar ajuda?
O sintoma mais característico da endometriose é a dor pélvica, que começa a se tornar constante ao longo do mês e costuma se intensificar durante o período menstrual. Mas é importante entender que a dor da endometriose vai além da cólica comum: ela é persistente, muitas vezes resistente a analgésicos comuns e pode interferir significativamente nas atividades do dia a dia, no trabalho e nas relações sociais.
Além da dor menstrual intensa, outros sintomas frequentes incluem dor pélvica crônica que persiste fora do período menstrual, dor durante as relações sexuais, dor ao evacuar ou urinar especialmente durante a menstruação, sangramento intenso ou irregular, e fadiga persistente. Quando a endometriose intestinal está presente, podem aparecer também náuseas, diarreia, constipação e sangramento nas fezes no período menstrual.
Um sinal que merece atenção especial é a dificuldade para engravidar. A endometriose é uma das principais causas de infertilidade, estimada em até 50% das pessoas inférteis investigadas. Os focos da doença nos ovários podem comprometer a qualidade dos óvulos ou impedir sua liberação, e as aderências podem obstruir as tubas uterinas. Por isso, a investigação de infertilidade deve incluir rastreamento para endometriose. A recomendação é não esperar: ao notar qualquer um desses sintomas de forma recorrente, a busca por avaliação ginecológica deve ser imediata.
Quais são os fatores de risco para a endometriose?
A causa exata da endometriose ainda não é completamente conhecida pela ciência. Entre as hipóteses mais aceitas está a menstruação retrógrada, fenômeno em que parte do sangue menstrual flui de volta pelas tubas uterinas para a pelve, carregando células endometriais que se implantam em outros locais. Fatores imunológicos e genéticos também parecem ter papel importante, já que a doença tende a ser mais comum em pessoas com histórico familiar.
Entre os fatores associados a maior risco estão: ter menarca precoce (primeira menstruação antes dos 11 anos), ciclos menstruais curtos (menos de 27 dias), fluxo menstrual intenso, nunca ter gestado e histórico familiar de endometriose em parentes de primeiro grau. Anomalias anatômicas que dificultem o fluxo menstrual também podem aumentar a predisposição.
Vale ressaltar que a endometriose pode afetar qualquer pessoa que menstrua, independentemente de idade, origem étnica ou histórico reprodutivo. A doença pode se manifestar logo após a primeira menstruação e persistir até a menopausa, fase em que os sintomas costumam melhorar pela redução natural do estrogênio. Pessoas trans e não-binárias que menstruam também podem ser afetadas.
Como é feito o diagnóstico da endometriose?
O diagnóstico da endometriose começa com uma consulta detalhada com ginecologista, que avalia os sintomas relatados, o histórico menstrual e reprodutivo e realiza o exame físico. A combinação de sintomas típicos com achados ao exame já pode gerar uma suspeita clínica forte.
Para casos mais complexos, especialmente quando se suspeita de endometriose intestinal ou envolvimento de órgãos profundos, o acompanhamento no Núcleo de Endometriose da Rede D’Or oferece equipe especializada e estrutura diagnóstica adequada.
Entre os principais exames utilizados estão a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal, que permite identificar lesões nos ovários e investigar a extensão da doença no intestino, e a ressonância magnética da pelve para endometriose, que oferece imagens mais detalhadas das estruturas pélvicas e é especialmente útil no planejamento cirúrgico. A ultrassonografia pélvica também pode ser solicitada como parte da avaliação inicial. Exames laboratoriais como o CA-125 podem complementar a investigação, mas não são marcadores específicos da doença.
O padrão-ouro para o diagnóstico definitivo da endometriose é a videolaparoscopia diagnóstica, procedimento minimamente invasivo que permite visualizar diretamente os focos da doença e, quando necessário, já iniciar o tratamento cirúrgico na mesma intervenção. A decisão sobre realizar ou não a laparoscopia diagnóstica é individualizada e depende do quadro clínico e dos achados dos exames de imagem.
Como é o tratamento da endometriose?
O tratamento da endometriose é individualizado e depende da gravidade da doença, dos sintomas predominantes, da presença de desejo de engravidar e das características de cada pessoa. Não existe cura para a endometriose, mas o tratamento adequado pode controlar os sintomas, limitar a progressão da doença e preservar a qualidade de vida.
Entre as abordagens que podem ser indicadas, de acordo com avaliação médica, estão o uso de medicamentos hormonais para suprimir a atividade do tecido endometrial e reduzir a dor, e o uso de analgésicos e anti-inflamatórios para o manejo da dor aguda.
Nos casos em que o tratamento clínico não é suficiente ou quando há lesões de grande extensão, pode ser indicada a cirurgia ginecológica para remoção dos focos de endometriose. Em situações de maior complexidade, especialmente nas formas profundas que envolvem intestino e bexiga, a cirurgia robótica ginecológica pode oferecer maior precisão e menor morbidade.
Para pessoas com endometriose e desejo de engravidar, o tratamento pode envolver abordagens específicas voltadas à preservação da fertilidade, com acompanhamento conjunto entre o ginecologista e especialistas em reprodução humana. O acompanhamento regular é fundamental em todos os casos, já que a doença pode recidivar e exigir ajustes terapêuticos ao longo do tempo.
O que fazer diante da suspeita de endometriose?
O primeiro e mais importante passo diante de sintomas sugestivos de endometriose é não normalizar a dor. Cólicas que impedem atividades cotidianas, dor pélvica persistente, dor durante as relações sexuais ou ao evacuar são sinais que merecem avaliação médica. Quanto mais cedo a investigação começa, maiores as chances de diagnóstico precoce e de controle da doença antes que ela avance.
A consulta com ginecologista é o ponto de partida. Em casos de suspeita de formas mais complexas da doença, a avaliação em um centro especializado como o Núcleo de Endometriose da Rede D’Or pode garantir diagnóstico mais preciso e acesso a todas as opções terapêuticas disponíveis, incluindo cirurgia ginecológica convencional e robótica.
Falar abertamente sobre a endometriose é também uma forma de cuidado. A doença ainda carrega muito estigma e invisibilidade, e o acesso à informação confiável é essencial para que cada pessoa possa reconhecer seus próprios sintomas, buscar ajuda no momento certo e tomar decisões sobre a própria saúde com autonomia.