Meningite: conheça os diferentes tipos desta doença que atinge principalmente crianças e idosos

A meningite é uma inflamação das meninges, membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal, causada principalmente por vírus, bactérias, fungos ou parasitas. A forma bacteriana é a mais temida: evolui rapidamente e pode levar à morte em menos de 24 horas. As meningites bacterianas predominam no outono e no inverno; as virais, no verão e na primavera. Mas com as vacinas disponíveis no país, é possível evitar a maior parte das mortes e sequelas provocadas pela doença.
- Entre 2010 e 2024, o Brasil registrou mais de 240 mil casos de meningite e 23.170 óbitos confirmados, segundo o Ministério da Saúde. Nos primeiros quatro meses de 2025, foram notificados 1.980 casos e 168 mortes.
- Embora qualquer pessoa possa ser afetada, a doença incide com maior gravidade em crianças menores de cinco anos e em idosos acima de 60.
- Um em cada cinco sobreviventes enfrenta sequelas permanentes, como perda auditiva, dificuldades cognitivas, paralisia cerebral e outras, segundo a OMS, que lançou em 2021 o Roteiro Global para Derrotar a Meningite até 2030, com a meta de reduzir mortes em 70% e casos preveníveis por vacina em 50%.
- Em 2024, o Brasil se alinhou às metas da OMS e lançou seu Plano Nacional para Derrotar a Meningite até 2030, que prevê expansão da cobertura vacinal, melhoria do diagnóstico e do atendimento, e redução de sequelas.
O que é a meningite e quais microrganismos a causam?
A meningite é a inflamação das meninges, conjunto de três membranas protetoras que envolvem o cérebro e a medula espinhal. Quando algum agente infeccioso ou processo inflamatório atinge essas membranas, desencadeia uma reação imune intensa que, se não tratada a tempo, pode provocar danos neurológicos irreversíveis ou levar ao óbito. A doença pode ser causada por vírus, bactérias, fungos, parasitas ou mesmo por causas não infecciosas, como uso de medicamentos ou doenças autoimunes.
A meningite viral é a forma mais comum e geralmente a menos grave. Os principais agentes são os enterovírus, que circulam com maior frequência no verão e na primavera. A recuperação costuma ocorrer espontaneamente em uma a duas semanas, sem necessidade de medicamentos específicos.
Já a meningite bacteriana é a mais perigosa: causada principalmente pela bactéria Neisseria meningitidis (meningococo) ou pelo Streptococcus pneumoniae (pneumococo), pode matar em menos de 24 horas sem tratamento adequado. Outros agentes bacterianos relevantes incluem o Haemophilus influenzae e a Listeria monocytogenes, esta última mais comum em recém-nascidos, gestantes e idosos.
Existe ainda a meningite eosinofílica, causada pelo parasita Angiostrongylus cantonensis, transmitido pelo consumo de moluscos, caranguejos ou vegetais contaminados com larvas. Essa forma não se transmite de pessoa para pessoa e tem se tornado progressivamente mais comum no Brasil desde o primeiro diagnóstico registrado em 2006.
A encefalite é uma condição relacionada que envolve inflamação do próprio tecido cerebral e pode coexistir com a meningite, sendo chamada de meningoencefalite nos casos combinados.
Quais são os sintomas e quem tem maior risco de desenvolver meningite?
Os sintomas da meningite variam conforme o agente causador e a idade do paciente, mas os mais característicos incluem febre alta de início abrupto, dor de cabeça intensa e persistente, rigidez na nuca (com dificuldade de encostar o queixo no peito), vômitos, náuseas, sonolência, confusão mental e fotofobia (sensibilidade exagerada à luz).
Na meningite meningocócica, é comum o surgimento de manchas vermelhas ou arroxeadas na pele, conhecidas como petéquias ou púrpuras, que indicam comprometimento da circulação e exigem atendimento imediato.
Em bebês menores de um ano, os sinais podem ser diferentes dos observados em crianças maiores e adultos. Os sintomas característicos em bebês são o abaulamento ou tensão na moleira, choro persistente e diferente do habitual, irritabilidade extrema, recusa alimentar, palidez, rigidez corporal ou, ao contrário, flacidez acentuada. A ausência de rigidez na nuca não descarta a meningite nessa faixa etária. A convulsão febril e as convulsões em geral também podem ser manifestações da doença, especialmente nas formas bacterianas graves.
Além da idade abaixo de cinco anos ou acima de 60, os principais fatores de risco para a meningite incluem: ausência de esquema vacinal ou esquema incompleto; convivência em ambientes de aglomeração (creches, escolas, quartelões, dormitórios universitários); imunossupressão por doenças como HIV, uso de corticoides ou quimioterapia; asplenia funcional ou cirúrgica (ausência de baço); traumatismo cranioencefálico com fratura de base de crânio; e, por último, viagens para o Cinturão da Meningite, nome dado à região da faixa subsaariana na África, onde a doença é endêmica, ocorre regularmente e de forma constante na região. O contato direto com uma pessoa infectada também é um fator relevante, especialmente para a forma meningocócica.
Qual médico consultar em casos de Meningite, como é feito o diagnóstico e quais exames são necessários?
Diante de sintomas sugestivos de meningite, o paciente deve buscar atendimento de emergência imediatamente. O infectologista e o neurologista são os especialistas de referência para diagnóstico e tratamento. O clínico geral ou médico de emergência pode iniciar a investigação e o tratamento enquanto o encaminhamento ao especialista é providenciado.
Em crianças, o pediatra integra a equipe de atendimento. A agilidade no diagnóstico é determinante: a cada hora sem tratamento na meningite bacteriana, aumenta o risco de morte e de sequelas permanentes.
O diagnóstico da meningite é feito com base na avaliação clínica (histórico, sintomas e exame neurológico) e na realização de exames complementares. O principal exame confirmatório é a punção lombar (também chamada de coleta do líquor ou líquido cefalorraquidiano), procedimento no qual uma agulha é inserida entre as vértebras lombares para coletar o líquido que envolve o cérebro e a medula espinhal. A análise desse líquido permite identificar o agente causador, a celularidade e as proteínas presentes, diferenciando a meningite viral da bacteriana e de outras formas.
Outros exames importantes incluem o hemograma completo, hemocultura (para identificar bactérias na corrente sanguínea), proteína C-reativa, velocidade de hemossedimentação (VHS), glicemia e, em casos selecionados, tomografia computadorizada do crânio antes da punção lombar para descartar hipertensão intracraniana grave. Testes de PCR (reação em cadeia da polimerase) do líquor permitem identificar o agente com alta sensibilidade e especificidade em poucas horas. A sepse, complicação sistêmica grave que pode acompanhar a meningite bacteriana, também deve ser investigada e tratada simultaneamente.
Como prevenir a meningite e qual é o tratamento disponível?
A principal estratégia de prevenção da meningite bacteriana é a vacinação. As principais vacinas são a vacina Meningocócica C para crianças aos 3 e 5 meses, com reforço aos 12 meses. A vacina Meningocócica ACWY (quadrivalente) é indicada para adolescentes e grupos de risco, e a vacina contra o Meningococo B, geralmente conjugada ACWY, com doses aos 3 e 5 meses e reforço entre 12 e 15 meses, podendo ser aplicadas simultaneamente. Além das vacinas meningocócicas, as vacinas pneumocócicas (contra o Streptococcus pneumoniae) e contra o Haemophilus influenzae tipo b também protegem contra formas bacterianas relevantes de meningite.
Além da vacinação, as medidas preventivas incluem: higiene frequente das mãos; não compartilhar utensílios pessoais como copos, talheres e batons; evitar ambientes muito fechados e com aglomeração, especialmente em períodos de surto; e manter ambientes bem ventilados. Em casos de contato próximo com pessoa diagnosticada com meningite meningocócica, o médico pode indicar quimioprofilaxia com antibióticos (geralmente rifampicina ou ciprofloxacino) para os contactantes domiciliares e próximos, com o objetivo de eliminar a bactéria da nasofaringe e interromper a cadeia de transmissão.
O tratamento da meningite bacteriana exige internação hospitalar imediata e início precoce de antibioticoterapia endovenosa, geralmente com penicilina, ampicilina ou cefalosporinas de terceira geração, ajustados conforme o agente identificado. Corticoides, como a dexametasona, podem ser associados para reduzir a inflamação e diminuir o risco de sequelas auditivas. A meningite viral não tem tratamento antiviral específico na maioria dos casos e é manejada com suporte clínico (hidratação, analgésicos e antitérmicos). O choque séptico e outras complicações sistêmicas são tratados na UTI com suporte hemodinâmico intensivo.
Garanta a sua saúde e da sua família com a vacinação completa para a meningite nas idades adequadas.
Por que a meningite pode ser confundida com o ebola?
A meningite e o ebola compartilham sintomas iniciais semelhantes que podem gerar confusão diagnóstica, especialmente no início do quadro. Ambas as doenças começam com febre alta de início súbito, dor de cabeça intensa, vômitos, fraqueza extrema, dores musculares e confusão mental. Em estágios mais avançados, tanto a meningite meningocócica quanto o ebola podem apresentar manifestações hemorrágicas: na meningite, surgem petéquias e púrpuras na pele; no ebola, ocorrem sangramentos em mucosas e órgãos internos.
Apesar dessas semelhanças superficiais, as duas doenças têm origens, mecanismos e contextos epidemiológicos completamente distintos.
A meningite é endêmica no Brasil e em todo o mundo, com casos registrados ao longo de todo o ano. O ebola, por sua vez, é restrita a surtos em regiões da África Subsaariana, e nunca teve caso confirmado no território nacional. A diferenciação clínica e epidemiológica é feita pelo médico com base no histórico do paciente (viagem recente à área endêmica de ebola, contato com caso confirmado) e pela realização de exames específicos. Enquanto a meningite bacteriana pode ser confirmada pela punção lombar e hemocultura no hospital, o diagnóstico do ebola depende de testes moleculares de alta complexidade realizados em laboratórios de biossegurança nível 4, como a Fiocruz.
A meningite tem cura na maioria dos casos, a partir do diagnóstico precoce e tratamento iniciado sem demora. A forma viral costuma se resolver em até duas semanas, sem deixar sequelas. A forma bacteriana também tem alta taxa de recuperação com tratamento rápido. No entanto, diagnósticos tardios ou evolução grave podem resultar em sequelas permanentes, como déficits neurológicos, epilepsia, ou necessidade de amputação de membros em decorrência de lesões vasculares, entre outras.
Por isso, ao menor sinal de suspeita, é fundamental buscar atendimento médico imediatamente.