A terapia com linfócitos infiltrantes de tumor, conhecida pela sigla TIL (do inglês tumor-infiltrating lymphocytes), é um tipo de imunoterapia que utiliza células de defesa retiradas do próprio tumor do paciente. Essas células são multiplicadas em laboratório e depois devolvidas ao organismo em grande quantidade, com o objetivo de reforçar a resposta do sistema imunológico contra o câncer. Trata-se de uma das abordagens mais inovadoras de terapia celular para tumores sólidos, especialmente o melanoma avançado.
O que é a terapia TIL e como ela combate os tumores sólidos?
Dentro de muitos tumores sólidos já existem linfócitos, um tipo de célula do sistema imunológico que consegue reconhecer células cancerígenas e tentar combatê-las. No entanto, na maioria das vezes, essas células estão presentes em quantidade insuficiente ou perdem sua capacidade de controlar o crescimento do tumor devido ao ambiente criado pelo próprio câncer.
A terapia TIL aproveita justamente essas células naturais de defesa. Em geral, o tratamento envolve as seguintes etapas:
- Um fragmento do tumor é retirado por cirurgia;
- Em laboratório, os linfócitos presentes nesse fragmento são isolados e multiplicados durante várias semanas, até atingirem bilhões de células;
- Antes da infusão, o paciente recebe uma quimioterapia de curta duração, chamada de linfodepleção, que reduz temporariamente parte das células de defesa do organismo e cria condições mais favoráveis para a expansão e a atuação das células TIL;
- Em seguida, os linfócitos multiplicados são reinfundidos no paciente. Na maioria dos protocolos, esse tratamento é acompanhado pela administração de interleucina-2 (IL-2) em altas doses, medicamento que estimula a sobrevivência e a atividade dessas células.
Como os linfócitos utilizados já haviam reconhecido aquele tumor antes de serem coletados, espera-se que, após sua multiplicação, sejam capazes de exercer uma resposta antitumoral mais intensa.
Qual a diferença entre células TIL e células CAR-T?
TIL e CAR-T são dois tipos de terapia celular, mas funcionam de maneiras diferentes e são indicadas para situações distintas.
As principais diferenças são:
- Origem das células: as células TIL são retiradas diretamente do tumor do paciente. Já as células CAR-T são obtidas a partir de linfócitos coletados do sangue.
- Modificação genética: as células TIL não passam por engenharia genética. Elas apenas são selecionadas, multiplicadas e ativadas em laboratório. As células CAR-T, por outro lado, são geneticamente modificadas para produzir um receptor artificial capaz de reconhecer um alvo específico presente nas células tumorais.
- Tipos de câncer: a terapia CAR-T já faz parte do tratamento de alguns cânceres hematológicos, como determinadas leucemias, linfomas e mieloma múltiplo. A terapia TIL foi desenvolvida principalmente para tumores sólidos, especialmente o melanoma, que apresentam desafios diferentes para a imunoterapia celular.
A aprovação da terapia TIL representa um marco importante, pois demonstra que a terapia celular também pode ser eficaz em alguns tumores sólidos, ampliando um campo que até recentemente era dominado pelas terapias para cânceres do sangue.
A terapia com células TIL já está aprovada no Brasil?
Em 2024, a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, aprovou o lifileucel (Amtagvi®) para o tratamento de adultos com melanoma irressecável ou metastático previamente tratados com imunoterapia anti-PD-1 e, quando indicado, terapia-alvo para tumores com mutação no gene BRAF.
Essa foi a primeira terapia baseada em linfócitos infiltrantes de tumor aprovada para uso comercial e também a primeira terapia celular aprovada especificamente para um tumor sólido.
Até o momento, o lifileucel ainda não possui aprovação regulatória nem está disponível comercialmente no Brasil.
Quais são os riscos e efeitos colaterais da terapia TIL?
Os efeitos adversos da terapia TIL estão relacionados principalmente à quimioterapia de linfodepleção realizada antes da infusão e ao uso de IL-2 em altas doses após o tratamento.
Os efeitos colaterais mais frequentes incluem:
- Febre e calafrios;
- Redução temporária das células do sangue, incluindo glóbulos brancos, glóbulos vermelhos e plaquetas;
- Fadiga intensa;
- Náuseas e diarreia;
- Queda de cabelo relacionada à quimioterapia;
- Pressão arterial baixa;
- Taquicardia;
- Erupções cutâneas.
Também podem ocorrer efeitos adversos mais graves, como infecções, sangramentos, alterações da função renal, dificuldade respiratória e complicações decorrentes da imunossupressão temporária causada pela linfodepleção. Por isso, esse tratamento é realizado em centros especializados, com internação hospitalar e monitorização intensiva durante e após a infusão das células.
A terapia TIL pode ser usada em outros tumores sólidos, além do melanoma?
Sim, mas ainda em caráter experimental.
Diversos estudos clínicos vêm avaliando a terapia TIL, isoladamente ou em combinação com imunoterapia, em tumores sólidos como câncer de pulmão de não pequenas células, câncer de cabeça e pescoço, câncer de ovário, câncer colorretal, câncer de colo do útero e outros tumores ginecológicos.
Os resultados variam conforme o tipo de tumor e a maioria dessas pesquisas ainda está em fases iniciais ou intermediárias de desenvolvimento.
Até o momento, a única indicação aprovada pelas agências regulatórias é para melanoma avançado. Para os demais tumores, a terapia continua disponível exclusivamente em protocolos de pesquisa clínica.
A terapia TIL também é estudada no câncer de colo do útero?
Sim. O câncer de colo do útero recorrente, persistente ou metastático é um dos tumores sólidos mais estudados com terapia TIL depois do melanoma. Alguns estudos demonstraram respostas prolongadas em uma parcela das pacientes, inclusive em casos resistentes aos tratamentos convencionais.
Apesar desses resultados promissores, a terapia ainda não foi aprovada para essa indicação e permanece restrita a estudos clínicos.
Confira também: Câncer de colo do útero: sintomas, HPV e tratamento
Existe algum exame que ajuda a prever quem responde melhor à terapia TIL?
Essa é uma das principais áreas de pesquisa atualmente.
Diversos estudos vêm investigando se características das próprias células T presentes no tumor — como seu grau de ativação, diversidade ou capacidade de reconhecer neoantígenos — podem ajudar a identificar os pacientes com maior probabilidade de responder ao tratamento.
Também estão sendo estudados biomarcadores relacionados ao próprio tumor e ao microambiente tumoral.
Entretanto, ainda não existe nenhum exame validado e incorporado à prática clínica capaz de prever, com segurança, quais pacientes terão melhor resposta à terapia TIL.
Por isso, atualmente a indicação desse tratamento continua sendo individualizada, levando em consideração o tipo de câncer, a extensão da doença, o estado geral do paciente, os tratamentos já realizados e a disponibilidade da terapia em centros especializados.
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