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Células NK: as “defensoras naturais” que estão abrindo novos caminhos na imunoterapia

Entenda o que são as células NK, como funciona a terapia com essas células e o que dizem as pesquisas, incluindo o CAR-NK, no tratamento do câncer.

O sistema imunológico conta com um grupo de células chamadas natural killer (NK), ou células NK, que atuam como uma linha de defesa rápida contra vírus e células tumorais. Diferentemente de outras células de defesa, as células NK não precisam reconhecer um alvo específico previamente para agir: elas identificam sinais de que uma célula está alterada e podem iniciar rapidamente o ataque.

Por isso, é possível dizer que as células NK funcionam como sentinelas do organismo, capazes de reconhecer células anormais e destruí-las de forma rápida, muitas vezes antes mesmo que o sistema imunológico adaptativo desenvolva uma resposta específica contra elas.

Essa característica vem despertando crescente interesse científico e hoje serve de base para terapias que utilizam células NK cultivadas ou modificadas em laboratório para o tratamento do câncer.

Este artigo explica o que são as células NK, como essa terapia funciona e o que já se sabe sobre seu uso no Brasil.

O que são células de defesa natural killer (NK) e qual é a sua função no corpo?

As células natural killer, ou NK, fazem parte da imunidade inata, um dos braços da resposta inicial do organismo contra infecções e células anormais. Esse sistema atua de maneira rápida e menos específica do que a imunidade adaptativa, responsável por desenvolver respostas direcionadas contra determinados invasores.

Além de circularem pelo sangue, as células NK também estão presentes em diferentes tecidos, onde participam da vigilância imunológica do organismo. Elas conseguem reconhecer células infectadas por vírus ou células tumorais por meio de alterações em sua superfície, como a diminuição da expressão de moléculas do complexo principal de histocompatibilidade (MHC classe I), comum em muitas células tumorais, além da presença de moléculas associadas ao estresse celular.

Ao identificar esses sinais, as células NK podem destruir diretamente a célula alterada, sem necessidade de uma sensibilização prévia contra aquele alvo específico.

Na prática, isso funciona como uma patrulha de segurança que já está autorizada a agir diante de um comportamento suspeito. Essa rapidez torna as células NK especialmente importantes na vigilância contra o câncer, já que muitas células tumorais conseguem escapar do reconhecimento dos linfócitos T reduzindo a expressão de moléculas de MHC.

Em exames laboratoriais, as células NK costumam ser identificadas por características específicas em sua superfície, principalmente pela expressão de CD56 e ausência de CD3 (CD56⁺/CD3⁻), combinação utilizada para sua identificação e quantificação por citometria de fluxo.

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Qual a diferença entre as células NK e os linfócitos T?

Utilizados em tratamentos como a terapia CAR-T, os linfócitos T fazem parte da imunidade adaptativa. Para atacar uma célula tumoral, eles geralmente precisam reconhecer um alvo específico apresentado por moléculas do MHC, processo que depende de ativação prévia e leva mais tempo para ser estabelecido. As células NK, por outro lado, não dependem desse reconhecimento específico e conseguem agir de forma mais imediata quando detectam sinais de anormalidade.

Essa diferença também tem implicações práticas no tratamento. Terapias com linfócitos T, especialmente as CAR-T, podem provocar a síndrome de liberação de citocinas, uma resposta inflamatória intensa que pode exigir cuidados médicos especializados. De modo geral, as terapias baseadas em células NK têm apresentado menor frequência e menor gravidade dessa complicação nos estudos realizados até o momento, embora esse risco não seja completamente inexistente.

Como a terapia com células NK atua no tratamento do câncer?

Na terapia com células NK, essas células podem ser obtidas de diferentes fontes, como sangue periférico de doadores saudáveis, sangue de cordão umbilical, células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs) ou até mesmo do próprio paciente, dependendo da estratégia utilizada. Quando provenientes de outra pessoa, esse tipo de tratamento é chamado de terapia alogênica.

Após a coleta, as células são expandidas em laboratório e, em alguns casos, modificadas geneticamente para aumentar sua atividade antitumoral. Em seguida, são infundidas no paciente, de forma semelhante a uma transfusão, para reforçar a capacidade do organismo de reconhecer e destruir as células tumorais.

Esse tipo de terapia vem sendo estudado principalmente em cânceres hematológicos, como leucemias agudas, linfomas e mieloma múltiplo, sobretudo em pacientes cuja doença não respondeu adequadamente aos tratamentos convencionais ou recidivou após terapias anteriores, incluindo, em alguns casos, o transplante de medula óssea. Também existem pesquisas em fase inicial avaliando o uso de células NK em tumores sólidos, como os cânceres de pulmão e colorretal, embora os resultados ainda sejam mais modestos do que nos tumores hematológicos.

As células NK também são utilizadas em tratamentos já disponíveis para pacientes?

Diversos anticorpos monoclonais já utilizados na prática clínica, como rituximabe, trastuzumabe e cetuximabe, não atuam sozinhos: eles dependem do sistema imunológico do próprio paciente para exercer parte de seu efeito antitumoral.

Esses medicamentos se ligam à superfície das células tumorais e funcionam como uma espécie de “marcação”. Uma vez marcadas, essas células passam a ser reconhecidas pelas células NK do próprio organismo, por meio de um receptor chamado CD16.

Ao identificar essa marcação, as células NK são ativadas e desencadeiam um mecanismo chamado citotoxicidade celular dependente de anticorpos (ADCC), no qual liberam substâncias capazes de destruir a célula tumoral.

Esse processo não envolve células NK modificadas ou infundidas em laboratório, mas sim a atuação natural das células NK já presentes no organismo.

Esse mecanismo é conhecido há décadas e contribui de forma importante para a eficácia de diversos anticorpos monoclonais utilizados na oncologia moderna.

O que é a tecnologia CAR-NK e quando ela estará disponível?

CAR-NK é o nome dado às células NK modificadas geneticamente para expressar um receptor artificial, chamado receptor quimérico de antígeno (CAR, do inglês chimeric antigen receptor), capaz de reconhecer de forma mais direcionada proteínas presentes na superfície das células tumorais. O conceito é semelhante ao da terapia CAR-T, mas utilizando células NK como plataforma terapêutica.

Uma das principais vantagens potenciais das células CAR-NK é a possibilidade de serem produzidas a partir de doadores saudáveis, incluindo sangue de cordão umbilical ou células derivadas de iPSCs. Isso permite, em teoria, fabricar produtos em larga escala, armazená-los e disponibilizá-los quando necessário, reduzindo o tempo de espera e, potencialmente, os custos em comparação com terapias produzidas individualmente para cada paciente.

Além disso, estudos iniciais sugerem que as terapias CAR-NK podem apresentar menor risco de síndrome de liberação de citocinas, neurotoxicidade e doença do enxerto contra o hospedeiro quando comparadas às terapias CAR-T. No entanto, esses possíveis benefícios ainda precisam ser confirmados em estudos clínicos maiores.

Apesar dos resultados promissores observados até o momento, ainda não é possível estabelecer um prazo para a incorporação da tecnologia CAR-NK à prática clínica de rotina. Atualmente, ela permanece em fase de pesquisa clínica e precisa demonstrar segurança, eficácia e benefício clínico em estudos mais amplos antes de receber aprovação dos órgãos regulatórios e ser incorporada como tratamento padrão.

Quais são as novas frentes de pesquisa com células NK?

Além da tecnologia CAR-NK, pesquisadores vêm estudando diversas estratégias para tornar as células NK ainda mais eficazes no combate ao câncer. O objetivo é aumentar sua capacidade de reconhecer as células tumorais, permanecer ativas por mais tempo no organismo e superar os mecanismos que os tumores utilizam para escapar da resposta imunológica.

Entre as principais linhas de investigação estão:

Células NK com características de memória: durante muitos anos, acreditava-se que apenas a imunidade adaptativa era capaz de desenvolver memória imunológica. No entanto, estudos mais recentes mostraram que, após serem expostas por curto período a determinadas citocinas em laboratório, as células NK podem adquirir um estado funcional chamado memory-like. Nessa condição, elas respondem de forma mais intensa quando entram novamente em contato com células tumorais. Essa estratégia vem sendo estudada principalmente em pacientes com leucemia mieloide aguda e mieloma múltiplo.

Moléculas que aproximam a célula NK do tumor: outra abordagem em investigação utiliza anticorpos biespecíficos e triespecíficos, capazes de se ligar simultaneamente às células NK e às células tumorais. Ao aproximar essas duas células, esses medicamentos facilitam o reconhecimento do tumor e aumentam a eficiência da resposta imunológica, sem necessidade de modificar geneticamente as células NK.

Combinação com outras imunoterapias: pesquisadores também investigam a associação das células NK com inibidores de checkpoint imunológico, anticorpos monoclonais, citocinas e outras terapias celulares. A ideia é potencializar a resposta antitumoral por meio da ação complementar de diferentes mecanismos do sistema imunológico.

Engenharia genética das células NK: além da tecnologia CAR-NK, estudos buscam modificar geneticamente essas células para aumentar sua persistência no organismo, melhorar sua capacidade de migrar até o tumor e torná-las mais resistentes ao ambiente imunossupressor criado pelas células cancerígenas.

Embora os resultados iniciais sejam animadores, é importante destacar que essas estratégias ainda estão sendo avaliadas principalmente em estudos clínicos de fases 1 e 2. Portanto, elas ainda não fazem parte do tratamento padrão para a maioria dos pacientes.

A terapia com células NK já existe no Brasil?

No Brasil, já existem grupos de pesquisa e centros especializados desenvolvendo estudos com terapias baseadas em células NK. Atualmente, porém, o acesso a esse tipo de tratamento ocorre principalmente por meio da participação em ensaios clínicos, e não como uma terapia disponível na rotina dos hospitais.

Assim como acontece com qualquer terapia celular, essas estratégias precisam passar por várias etapas de avaliação para demonstrar sua segurança, eficácia e benefício clínico antes de receberem aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e serem incorporadas à prática médica.

Por esse motivo, pacientes interessados em saber se existe algum estudo clínico envolvendo células NK para o seu tipo de câncer devem conversar com seu oncologista ou hematologista, que poderá avaliar se há pesquisas em andamento para o seu caso e se o paciente preenche os critérios de inclusão.

Quais são os riscos e efeitos colaterais da terapia com células NK?

Como qualquer terapia celular, a infusão de células NK pode provocar efeitos adversos relacionados tanto ao procedimento quanto ao próprio tratamento. Entre os eventos mais frequentemente observados nos estudos clínicos estão febre, calafrios, fadiga e reações infusionais, que geralmente são leves ou moderadas e costumam ser controladas pela equipe médica.

Dependendo do protocolo utilizado, alguns pacientes também podem apresentar redução temporária das células do sangue, principalmente quando a terapia é precedida por quimioterapia para preparar o organismo antes da infusão das células NK.

Um dos aspectos que mais chama atenção nas pesquisas realizadas até o momento é o perfil de segurança dessas terapias. Em comparação com as terapias CAR-T, as terapias baseadas em células NK têm apresentado menor frequência e menor gravidade de complicações como a síndrome de liberação de citocinas e a neurotoxicidade associada às células efetoras imunológicas (ICANS). Ainda assim, esses eventos podem ocorrer e exigem monitoramento adequado.

Outro ponto favorável é que, por suas características biológicas, as células NK apresentam baixo risco de desencadear doença do enxerto contra o hospedeiro (GVHD), complicação que pode ocorrer em outras modalidades de terapia celular utilizando células de doadores.

Mesmo assim, trata-se de uma terapia complexa, que deve ser realizada exclusivamente em centros especializados, seguindo protocolos rigorosos de segurança e com acompanhamento médico antes, durante e após a infusão das células.

É possível estimular naturalmente a atividade das células natural killer (NK)?

Até o momento, não existe alimento, suplemento, vitamina, chá ou qualquer outro produto capaz de ativar as células NK de maneira controlada e com eficácia comprovada no tratamento do câncer. A atividade dessas células é regulada por uma interação complexa entre diferentes componentes do sistema imunológico e pelo próprio microambiente tumoral, que pode favorecer ou dificultar sua ação.

Diversos estudos mostram que hábitos saudáveis podem influenciar positivamente o funcionamento do sistema imunológico como um todo. A prática regular de atividade física, por exemplo, pode aumentar temporariamente a quantidade de células NK circulando no sangue e modular algumas respostas imunológicas. No entanto, esse efeito é transitório e não significa que o exercício seja capaz de ativar essas células a ponto de eliminar tumores ou substituir qualquer tratamento oncológico.

Da mesma forma, uma alimentação equilibrada, sono adequado, controle do estresse e abandono do tabagismo contribuem para a manutenção da saúde e do bom funcionamento do sistema imunológico, mas não existem evidências científicas de que aumentem especificamente a atividade antitumoral das células NK de forma clinicamente relevante.

Também é importante ter cautela com informações divulgadas na internet sobre suplementos, vitaminas, cogumelos, chás ou produtos naturais supostamente capazes de “estimular as células NK”. Até o momento, nenhuma dessas estratégias demonstrou benefício clínico consistente no tratamento do câncer em estudos científicos de boa qualidade.

Por isso, durante o tratamento oncológico, qualquer mudança na alimentação, na prática de exercícios ou o uso de suplementos deve ser discutido com a equipe de saúde. Essa orientação ajuda a evitar interações com os tratamentos em andamento e garante que todas as medidas adotadas sejam seguras e baseadas em evidências científicas.

As células NK representam o futuro da imunoterapia?

As células NK estão entre as áreas mais promissoras da imunoterapia contra o câncer. Sua capacidade natural de reconhecer e destruir células anormais, aliada ao potencial de serem produzidas em larga escala a partir de doadores saudáveis, faz com que despertem grande interesse de pesquisadores em todo o mundo.

Nos últimos anos, os avanços no cultivo, na expansão e na modificação genética dessas células permitiram o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas, como as células CAR-NK, as células NK memory-like e os anticorpos que potencializam sua atividade. Embora muitos desses tratamentos ainda estejam em fase de pesquisa, os resultados iniciais são animadores, especialmente em alguns cânceres hematológicos.

Ao mesmo tempo, ainda existem desafios importantes. A eficácia em tumores sólidos, por exemplo, precisa ser aprimorada, e estudos maiores são necessários para confirmar os benefícios observados até agora e definir quais pacientes poderão se beneficiar mais dessas terapias.

Assim, embora as terapias com células NK ainda não façam parte da rotina para a maioria dos pacientes, elas representam uma das frentes mais promissoras da imunoterapia moderna e podem ampliar significativamente as opções de tratamento nos próximos anos, à medida que novos estudos forem concluídos e essas estratégias demonstrarem segurança e eficácia.

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Revisão médica:

Dra. Fernanda Frozoni Antonacio

Oncologista Clínica

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