O café faz parte da rotina de milhões de brasileiros. Mas, para quem recebeu o diagnóstico de arritmia, é comum surgir a dúvida: a cafeína pode acelerar os batimentos cardíacos ou piorar a arritmia? Afinal, é seguro continuar tomando café?
Dados da Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (Sobrac) apontam que, no Brasil, cerca de 20 milhões de pessoas possuem algum tipo de arritmia cardíaca.
Durante muito tempo, acreditou-se que a cafeína poderia desencadear ou piorar alterações do ritmo cardíaco. Hoje, porém, as evidências mostram que essa relação é mais complexa. Para a maioria das pessoas, o consumo habitual e moderado de café não parece aumentar o risco de arritmias, incluindo a fibrilação atrial.
Isso não significa, entretanto, que todas as pessoas respondam da mesma maneira à cafeína. Quem percebe que o café desencadeia palpitações ou piora sintomas pode precisar reduzir o consumo e conversar com o cardiologista. Continue lendo e entenda mais.
O café pode causar arritmia?
A médica cardiologista Dra. Thais Aguiar do Nascimento explica que a cafeína tem efeito estimulante e pode aumentar a atividade do sistema nervoso simpático, a liberação de catecolaminas e a mobilização de cálcio dentro das células cardíacas.
Em outras palavras, a cafeína pode deixar o organismo mais “acelerado”. Ela pode aumentar temporariamente a atividade do sistema nervoso que prepara o corpo para situações de alerta, além de estimular o coração a trabalhar com mais intensidade. Por isso, algumas pessoas podem perceber o coração mais rápido ou sentir palpitações após consumir café.
“Esses mecanismos explicam por que algumas pessoas percebem aceleração dos batimentos, palpitações ou maior número de extrassístoles após seu consumo. No entanto, em doses habituais, as evidências não mostram aumento consistente das arritmias atriais”, destaca Dra. Thais, especialista em eletrofisiologia e estimulação cardíaca artificial.
A médica, que atua na Rede D’Or desde o diagnóstico até o tratamento de arritmias, aponta o estudo randomizado CRAVE. A pesquisa avaliou, em adultos saudáveis, os efeitos do consumo de café cafeinado sobre o ritmo cardíaco, comparando os participantes que consumiram café com aqueles que evitaram a bebida.
“O café cafeinado não aumentou significativamente as extrassístoles atriais nem as taquicardias supraventriculares, mas houve aumento de extrassístoles ventriculares – 154 versus 102 por dia. Esse achado deve ser interpretado com cautela, pois foi um desfecho secundário e o estudo avaliou principalmente adultos jovens e saudáveis”, ressalta.
Embora o estudo não permita concluir que o café cause ou agrave arritmias em todas as pessoas, o achado reforça a importância de observar a resposta individual à cafeína. O consumo merece atenção especial em pacientes com extrassístoles ventriculares muito frequentes ou sintomáticas e naqueles que identificam claramente a cafeína como gatilho.
A cafeína não está apenas no café. Ela também pode estar presente em:
- chá preto,
- chá verde,
- mate,
- refrigerantes tipo cola,
- chocolate,
- energéticos,
- pré-treinos,
- suplementos,
- alguns medicamentos.
“Os energéticos merecem atenção especial porque podem reunir doses elevadas de cafeína com guaraná e outros estimulantes. A literatura descreve eventos cardiovasculares, inclusive fibrilação atrial, prolongamento do QT e arritmias ventriculares, sobretudo após consumo elevado”, enfatiza a especialista.
A cardiologista destaca ainda que boa parte dessas evidências vem de relatos de casos, portanto não permite afirmar que todo energético provocará uma arritmia; ainda assim, justifica maior cautela, principalmente em quem já apresenta predisposição.
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Quem tem arritmia pode beber café?
Na maioria dos casos não é necessário proibir o café. “Ter uma arritmia não significa, por si só, que a pessoa precise retirar completamente a cafeína da rotina”, afirma a especialista.
Na fibrilação atrial, por exemplo, Dra. Thais destaca que as diretrizes atuais não recomendam abstinência rotineira de cafeína como estratégia para prevenir episódios.
Por outro lado, se o café desencadeia ou piora palpitações, vale reduzir o consumo e buscar orientação médica. E é importante não confundir o café consumido em quantidades habituais com produtos que concentram grandes doses de cafeína, como alguns energéticos.
“A exceção é o paciente que percebe, de forma consistente, que o café desencadeia ou piora suas palpitações. Portanto, mais do que uma proibição geral, a recomendação deve ser individualizada”, recomenda.
Mais importante do que simplesmente cortar o café é entender qual é a arritmia, quais são os fatores que podem desencadeá-la e qual é o tratamento adequado para cada paciente.
Quantas xícaras de café por dia são seguras para pessoas com arritmia?
Não existe uma quantidade universalmente segura para todos os pacientes com arritmia. A resposta à cafeína é bastante individual. Há diferenças genéticas no metabolismo da cafeína e também interferência de fatores como:
“Como referência para a população adulta saudável, até cerca de 400 mg de cafeína ao dia é geralmente considerado um consumo que não costuma estar associado a efeitos adversos; mas esse número não deve ser entendido como uma meta ou como um limite automaticamente seguro para quem tem arritmia”, alerta a cardiologista.
Além disso, a quantidade de cafeína de uma xícara varia muito conforme o tipo de café, o preparo e o tamanho da porção. “Na prática, o mais adequado é manter consumo moderado e ajustar a quantidade de acordo com a tolerância individual”, complementa Dra. Thais Aguiar do Nascimento.
Nem toda palpitação percebida após o café corresponde necessariamente a uma arritmia sustentada. Por isso, é importante observar a relação temporal entre o consumo e os sintomas, levando em conta também outros possíveis gatilhos, como:
“O descafeinado pode ser uma excelente alternativa para quem gosta do hábito e do sabor do café, mas percebe palpitações relacionadas à cafeína. É importante lembrar que ele não é necessariamente totalmente isento de cafeína, porém contém quantidades muito menores. Para muitos pacientes sensíveis, essa redução já é suficiente para melhorar os sintomas”, recomenda a cardiologista.
Quais sintomas após o café sugerem reduzir ou suspender o consumo?
Nem toda palpitação significa uma arritmia. Porém, vale reduzir a quantidade de café ou fazer um período sem cafeína para avaliar se há melhora quando a pessoa percebe:
- repetidamente palpitações intensas,
- aceleração persistente do coração,
- sensação de ritmo irregular,
- aumento evidente de extrassístoles logo após consumir café,
Podem indicar sensibilidade ou consumo excessivo de café sintomas como:
- tremores,
- ansiedade importante,
- insônia.
Exigem avaliação médica e não devem ser simplesmente atribuídos ao café sintomas como:
- desmaio ou quase desmaio,
- dor no peito,
- falta de ar importante,
- mal-estar intenso.
Perguntas frequentes sobre café e arritmia
Não necessariamente. A abstinência de cafeína não é recomendação de rotina para prevenir episódios de fibrilação atrial, mas pode ser útil para quem percebe piora dos sintomas após consumir cafeína.
A cafeína pode produzir efeitos estimulantes e algumas pessoas podem perceber o coração mais acelerado. Isso não significa, porém, que o café necessariamente provoque uma arritmia.
Em geral, o descafeinado contém muito menos cafeína e pode ser uma alternativa para quem percebe sensibilidade à substância. A escolha, entretanto, depende do diagnóstico e da resposta individual.
Doses elevadas de cafeína, como as presentes em alguns energéticos e shots, podem aumentar o risco de alterações cardiovasculares, incluindo alterações do ritmo cardíaco.
Não necessariamente. O ideal é conversar com um profissional de saúde para avaliar o sintoma, identificar possíveis gatilhos e verificar se realmente existe uma arritmia.
Quem tem arritmia deve evitar café antes do exercício?
Não necessariamente. Em um paciente com arritmia controlada, que já está habituado ao café e não apresenta sintomas relacionados ao seu consumo, uma pequena quantidade antes do exercício não é automaticamente contraindicada.
“O cuidado deve ser maior com altas doses de cafeína, energéticos e pré-treinos, porque o próprio exercício já aumenta a ativação adrenérgica. Pacientes que apresentam palpitações importantes, tontura, dor torácica ou desmaio durante o esforço precisam de avaliação médica antes de associar exercício e estimulantes”, alerta a médica.
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O diagnóstico de uma arritmia não deve transformar automaticamente o café em um alimento proibido. Para a maioria dos pacientes, especialmente na fibrilação atrial, as evidências atuais não justificam retirar rotineiramente a cafeína apenas para prevenir crises.
“A orientação mais equilibrada é consumir com moderação, evitar doses muito elevadas e energéticos, cuidar do sono e observar a própria resposta. Se existe uma relação clara e repetitiva entre café e palpitações, vale reduzir a quantidade, experimentar o descafeinado ou suspender por um período”, destaca Dra. Thais.
Em resumo, a pergunta mais útil não é simplesmente “quem tem arritmia pode tomar café?”, mas sim “qual quantidade essa pessoa tolera e a cafeína realmente funciona como gatilho para a sua arritmia?”.
Pessoas que apresentam sintomas após o consumo de café, possuem outras doenças cardiovasculares ou fazem uso de determinados medicamentos podem precisar de uma orientação individualizada.
Se você tem palpitações frequentes ou recebeu o diagnóstico de uma arritmia, converse com um cardiologista antes de fazer mudanças importantes na alimentação ou no tratamento. Agende sua consulta com um cardiologista D’Or.
