Consumo excessivo de álcool aumenta o risco cardíaco?
O consumo excessivo de bebidas alcoólicas pode afetar diretamente o sistema cardiovascular. Conheça alguns sinais que merecem atenção especial.
Publicado em:
O consumo de bebidas alcoólicas faz parte da rotina social de muitas pessoas, no entanto, ao contrário do que pensa a maioria das pessoas, não existem níveis considerados 100% seguros para o consumo de álcool. O seu consumo de forma excessiva ou frequente, pode trazer impactos importantes também para a saúde do coração.
Um artigo de revisão da Associação Americana do Coração (AHA) mostrou que o consumo excessivo de álcool em jovens está associado a sinais precoces de doenças cardiovasculares, como disfunção endotelial, calcificação coronária e aumento da rigidez das artérias.
Ainda de acordo com a publicação científica da AHA, estudos também relacionam esse hábito a elevação da pressão arterial desde a adolescência até a vida adulta jovem. Além disso, há evidências consistentes de maior risco de acidente vascular cerebral em adultos jovens, com dados internacionais indicando aumento significativo da chance de AVC isquêmico em pessoas com até 45 anos que fazem uso excessivo de álcool.
Embora ainda exista a percepção de que pequenas quantidades de álcool poderiam oferecer algum benefício cardiovascular, as evidências científicas mais recentes reforçam que o consumo elevado está claramente associado ao aumento do risco cardíaco, e mesmo o consumo em quantidades pequenas ou moderadas aumento o risco de câncer, especialmente em mulheres. Continue lendo e entenda se o consumo excessivo de álcool aumenta o risco cardíaco.
Como o álcool afeta o coração?
O álcool age diretamente no sistema cardiovascular e pode provocar alterações estruturais, elétricas e metabólicas no coração. Quando ingerido em excesso, ele sobrecarrega o músculo cardíaco, interfere no controle da pressão arterial e favorece inflamações sistêmicas.
Dr. Dirceu Melo, doutor em Cardiologia pela Universidade de São Paulo, explica que o álcool tem efeitos diretos nas células cardíacas, no sistema elétrico do coração e no sistema nervoso autônomo. Ele altera a contratilidade, favorece inflamação, aumenta estresse oxidativo e pode interferir na pressão arterial e nos lipídios. “A toxicidade é dose-dependente, quanto maior a dose, maiores os danos”, complementa o cardiologista.
Entre os principais efeitos do consumo excessivo de álcool estão:
- Elevação da pressão arterial, podendo desencadear hipertensão;
- Aumento do risco de arritmias cardíacas como fibrilação atrial;
- Comprometimento da função do músculo cardíaco (cardiomiopatia alcóolica), podendo levar à insuficiência cardíaca;
- Maior chance de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e até morte súbita.
“Há também maior predisposição ao aumento de triglicerídeos, inflamação sistêmica e toxicidade direta no músculo cardíaco. Quanto maior a dose e a frequência, maior o risco”, acrescenta o especialista, que atua como coordenador da cardiologia do Hospital Atlântica D’Or Campinas.
Fatores como genética, idade mais avançada, ser mulher (elas metabolizam o álcool de forma diferente), hipertenso, diabético e ter histórico familiar de arritmia ou insuficiência cardíaca aumentam o risco para os efeitos nocivos do álcool no coração. Além disso, pessoas que já possuem alguma doença cardiovascular são mais vulneráveis aos efeitos tóxicos do álcool.
Álcool e pressão arterial
A relação entre o consumo regular e elevado de álcool e hipertensão arterial existe, e é bem estabelecida. Isso acontece porque o álcool estimula o sistema nervoso simpático, aumenta a liberação de hormônios que contraem os vasos sanguíneos e favorece a retenção de sódio, fatores que elevam a pressão.
“Consumir álcool regularmente, mesmo em quantidades moderadas, pode elevar a pressão arterial por aumento de tônus simpático, retenção de sódio e alterações vasculares. As diretrizes da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) e brasileiras são claras: reduzir ou interromper o álcool ajuda a controlar a pressão”, aponta Dr. Dirceu Melo.
Pessoas hipertensas que consomem álcool em excesso tendem a ter maior dificuldade no controle da pressão, mesmo fazendo uso de medicação.
Álcool e arritmias cardíacas
Um dos efeitos mais conhecidos do álcool sobre o coração é o aumento do risco de arritmias, especialmente a fibrilação atrial. “O álcool pode alterar a condução elétrica cardíaca, aumentar a atividade do sistema simpático e provocar inflamação no átrio. Isso cria um terreno propício para o surgimento de fibrilação atrial”, destaca o cardiologista.
Existe, inclusive, o termo “holiday heart syndrome”, ou “síndrome do coração de fim de semana”, usado para descrever episódios de arritmia após feriados em que o indivíduo ingeriu grandes quantidades de álcool, mesmo em pessoas sem doença cardíaca prévia.
O álcool altera a condução elétrica do coração, favorecendo batimentos irregulares, palpitações, tontura e, em casos mais graves, desmaios.
LEIA TAMBÉM: Energético e álcool podem causar fibrilação atrial, coma alcoólico e outras consequências graves
Álcool, inflamação e aterosclerose
De acordo com o Dr. Dirceu Melo, o consumo de álcool influencia principalmente os triglicerídeos, que podem subir bastante com o consumo regular. “O impacto no colesterol é menor, mas no conjunto ele aumenta inflamação sistêmica e estresse oxidativo — fatores que favorecem o acúmulo de placas de gordura nas artérias”, ressalta.
O excesso de álcool contribui para processos inflamatórios no organismo, aumento do estresse oxidativo e alterações no perfil lipídico, favorecendo a formação de placas de gordura nas artérias. Esse processo, chamado de aterosclerose, está diretamente ligado ao infarto e ao AVC.
Cardiomiopatia alcoólica
O consumo crônico e elevado de álcool pode levar à cardiomiopatia alcoólica, uma condição em que o músculo cardíaco se torna dilatado e enfraquecido. Com isso, o coração perde a capacidade de bombear o sangue de forma eficiente, levando à insuficiência cardíaca.
“A cardiomiopatia alcoólica surge após anos de exposição, quando o álcool causa toxicidade direta nas células do coração, levando à dilatação do coração e à queda da função de bombeamento. É um processo progressivo, envolvendo inflamação, estresse oxidativo e morte celular”, descreve Dr. Melo.
VEJA MAIS: Efeitos das drogas e do álcool no coração
Existe uma quantidade segura de álcool?
As recomendações atuais apontam que, quanto menor o consumo de álcool, menor o risco cardiovascular. “As diretrizes são cautelosas: não existe uma dose completamente segura para o coração. Algumas pessoas toleram pequenas quantidades melhor do que outras, mas no geral vale a regra de reduzir ao mínimo possível. Quanto menos, melhor para prevenção cardiovascular”, reforça o cardiologista.
No entanto, para algumas pessoas, como aquelas com histórico de doenças cardíacas, a recomendação pode ser evitar completamente o álcool. “Depende do caso, mas a tendência é recomendar redução importante ou abstinência, especialmente em quem tem arritmias, insuficiência cardíaca, hipertensão ou doença coronária avançada. O álcool pode desestabilizar quadros que já são delicados”, atesta.
Quanto à questão se o vinho realmente faz bem ao coração ou se isso é um mito, Dr. Melo descreve: “Hoje sabemos que o suposto benefício vem muito mais do estilo de vida de quem consome vinho (dieta mediterrânea, exercícios, cessar o tabagismo) do que do vinho em si. Os polifenóis têm algum efeito antioxidante, mas muito abaixo do impacto negativo do álcool. Portanto, é um exagero dizer que vinho ‘faz bem ao coração’, e não se deve recomendar consumo de vinho com esse objetivo”, recomenda Dr. Dirceu Melo.
Sinais que podem indicar problemas cardíacos relacionados ao álcool
O consumo excessivo de bebidas alcoólicas pode afetar diretamente o sistema cardiovascular. Alguns sinais merecem atenção especial:
- Cansaço desproporcional;
- Palpitações;
- Falta de ar;
- Inchaço nas pernas;
- Redução da tolerância ao exercício;
- Episódios de arritmia.
“Em casos mais avançados, podem surgir desmaios ou sintomas de insuficiência cardíaca. Qualquer alteração após períodos de maior consumo merece avaliação”, alerta Dr. Dirceu Melo.
Para avaliar danos cardíacos em pessoas que consomem álcool frequentemente, Dr. Dirceu Melo aponta os exames que podem ser necessários. “Geralmente avaliamos com ecocardiograma, eletrocardiograma, Holter, exames de sangue (função hepática, triglicerídeos, marcadores inflamatórios) e, em alguns casos, ressonância cardíaca, que detecta inflamação e fibrose. A escolha depende dos sintomas e do padrão de consumo”, relata.
Estilo de vida e saúde do coração
A saúde cardiovascular não depende de um único fator, mas do conjunto de hábitos ao longo do tempo. Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, controle do estresse, sono adequado e consumo consciente, ou ausência, de álcool fazem parte de uma estratégia eficaz de prevenção.
VEJA MAIS: Alimentação, sono e exercícios também protegem o seu coração
Pequenas mudanças, quando mantidas com constância, podem reduzir significativamente o risco de doenças do coração. Dr. Melo elencou algumas orientações práticas para reduzir o consumo de álcool e proteger o seu coração:
- Definir metas realistas;
- Evitar beber diariamente;
- Alternar com bebidas não alcoólicas;
- Evitar o “beber muito de uma vez”.
Estratégias comportamentais também contam. “Evitar gatilhos sociais e comunicar amigos e família ajudam muito. Se necessário, trabalhamos junto com psicologia e psiquiatria”, aconselha.
Após reduzir ou interromper o álcool, o coração pode se recuperar na maioria dos casos. “A pressão melhora, arritmias reduzem e até a função cardíaca pode recuperar parcialmente — especialmente em fases iniciais da cardiomiopatia alcoólica”, destaca Dr. Dirceu Melo.
Quanto mais cedo a intervenção, maior a chance de reversão. O coração tem uma capacidade de recuperação surpreendente quando removemos a agressão crônica.
Se você consome álcool com frequência, apresenta pressão alta, palpitações, histórico familiar de doença cardíaca ou qualquer sintoma cardiovascular, é importante buscar avaliação médica. O acompanhamento com um cardiologista ajuda a identificar riscos precocemente e a definir a melhor estratégia de cuidado. Agende sua consulta com um cardiologista D’Or.
VEJA TAMBÉM: Carnaval: os efeitos do álcool no coração