Doenças Coronarianas e AVC: quando coração e cérebro pedem socorro

As doenças coronarianas e o acidente vascular cerebral (AVC) são, juntas, a maior ameaça à vida da população brasileira e mundial, e a categoria doenças cardiovasculares engloba as coronariopatias e o AVC. Apesar de acometer órgãos diferentes, as duas condições compartilham os mesmos fatores de risco, os mesmos mecanismos de dano vascular e, no geral, as mesmas estratégias de prevenção e tratamento.
As doenças coronarianas surgem quando as artérias que abastecem o coração de sangue se estreitam ou entopem (aterosclerose) comprometendo o fluxo sanguíneo e podendo culminar no infarto agudo do miocárdio.
O AVC, por sua vez, ocorre quando o fluxo de sangue para uma região do cérebro é interrompido, seja por um entupimento (AVC isquêmico, responsável por cerca de 85% dos casos) ou por um sangramento (AVC hemorrágico).
- Segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/DATASUS) do Ministério da Saúde, as doenças cardiovasculares são a principal causa de mortes no Brasil, representando cerca de 30% de todos os óbitos. Em 2024, o Brasil registrou mais de 106 mil mortes por AVC e quase 120 mil por doença coronariana.
- As doenças cardiovasculares matam cerca de 400 mil brasileiros por ano, sendo a principal causa de óbitos no país, uma morte a cada 90 segundos. Apenas em 2024, os dados do TABNET-SUS registraram mais de 106 mil mortes por AVC e quase 120 mil por doença coronariana no país.
- O AVC é evitável, mas segundo a Sociedade Brasileira de AVC (SBAvc) ainda assim o Brasil registra entre 232 mil e 344 mil novos casos de AVC por ano, aproximadamente um caso a cada 1,5 minuto. O dado mais impactante é que até 80% desses casos poderiam ser evitados com controle dos fatores de risco modificáveis, como hipertensão, sedentarismo e tabagismo.
O que são e qual a relação entre as doenças coronarianas e o AVC?
A relação entre doenças coronarianas e AVC é profunda e bidirecional. Ambas são, fundamentalmente, doenças dos vasos sanguíneos, seja no coração, seja no cérebro, impulsionadas pelos mesmos mecanismos: aterosclerose, hipertensão, inflamação crônica das paredes arteriais e formação de coágulos.
Quem já teve um infarto tem o risco aumentado de AVC, e vice-versa. Além disso, condições como a fibrilação atrial, que é uma arritmia cardíaca frequentemente associada à doença coronariana, é uma das principais causas de AVC embólico, responsável por cerca de 20% de todos os casos de AVC isquêmico.
As doenças coronarianas – também chamadas de doença arterial coronariana (DAC) ou coronariopatias – são condições que afetam as artérias coronárias, os vasos responsáveis por levar sangue, oxigênio e nutrientes ao músculo cardíaco. O principal mecanismo é a aterosclerose: depósitos de gordura, cálcio e outras substâncias (chamados placas) acumulam-se nas paredes das artérias ao longo dos anos, estreitando-as progressivamente. Quando uma placa se rompe e forma um coágulo que obstrui completamente a artéria, ocorre o infarto agudo do miocárdio, que significa a morte de uma parte do músculo do coração por falta de oxigênio. Outras manifestações incluem a angina (dor no peito por redução do fluxo) e a insuficiência cardíaca crônica.
O AVC (acidente vascular cerebral), conhecido popularmente como ‘derrame’, ocorre quando o fornecimento de sangue a uma região do cérebro é subitamente interrompido. No AVC isquêmico, que é o tipo mais frequente, correspondendo a cerca de 85% dos casos: uma artéria cerebral é bloqueada por um coágulo, seja formado localmente (trombose) ou trazido pela corrente sanguínea a partir de outra região do corpo (embolia). No AVC hemorrágico, uma artéria cerebral se rompe, causando sangramento dentro ou ao redor do cérebro. Em ambos os casos, as células cerebrais privadas de oxigênio começam a morrer em minutos, e cada segundo conta para limitar o dano neurológico.
Quais são os sintomas de doenças coronarianas e do AVC?
Os sintomas das doenças coronarianas variam conforme a gravidade do estreitamento arterial. Nos estágios iniciais, muitos pacientes não apresentam nenhum sinal. Com a progressão da doença, surge a angina: uma pressão, aperto ou queimação no peito, tipicamente desencadeada por esforço físico ou emoção intensa e aliviada com repouso.
No infarto agudo do miocárdio a dor no peito é intensa e persistente – geralmente com duração superior a 20 minutos, podendo irradiar para o braço esquerdo, mandíbula, costas ou abdômen. Acompanham o quadro suor frio, náuseas, falta de ar, palidez e sensação de morte iminente. Nas mulheres, os sintomas costumam ser mais atípicos: fadiga intensa, mal-estar, dor nas costas e náuseas. Mas diferente dos homens, nas mulheres não aparece o sintoma da dor no peito, o que frequentemente leva a uma demora no diagnóstico.
Os sintomas do AVC surgem de forma súbita e podem ser reconhecidos nos seguintes tipos: na caída de um lado da face ou sorriso assimétrico; fraqueza ou dormência repentina nos membros, um braço ou perna, especialmente de um só lado do corpo; dificuldade repentina para falar, entender ou articular palavras. Diante de qualquer desses sinais, pedir uma ambulância e ir diretamente para um pronto-socorro. Outros sintomas incluem perda súbita da visão em um olho, visão dupla, tontura intensa com perda de equilíbrio, cefaleia súbita e de forte intensidade (especialmente no AVC hemorrágico) e confusão mental. O AVC é uma emergência médica absoluta: a janela de tratamento mais eficaz é de apenas 4,5 horas após o início dos sintomas.
Para investigação das doenças coronarianas, o especialista de referência é o cardiologista. Em caso de AVC, o neurologista e o neurologista vascular são os especialistas indicados, frequentemente atuando em equipe com neurorradiologistas e neurocirurgiões. O clínico geral ou médico de família pode iniciar a investigação e o rastreamento de fatores de risco para ambas as condições, sendo o ponto de entrada ideal para o cuidado preventivo. Em caso de emergência, como dor no peito intensa ou qualquer sinal de AVC, o paciente deve ser levado imediatamente ao pronto-socorro, sem aguardar consulta agendada.
Como é feito o diagnóstico e quais exames detectam as duas condições?
O diagnóstico das doenças coronarianas começa pela avaliação clínica: histórico de sintomas, fatores de risco, exame físico e medição da pressão arterial.
Os principais exames complementares incluem o eletrocardiograma (ECG), que registra a atividade elétrica do coração em repouso e pode evidenciar arritmias, sinais de infarto prévio ou isquemia em curso; o ecocardiograma, que avalia a estrutura e função do coração por ultrassom; e os exames de sangue com dosagem de marcadores de necrose miocárdica, essenciais no contexto de infarto agudo. O teste ergométrico (teste de esforço) avalia como o coração responde ao exercício físico, identificando isquemia ao esforço. A cintilografia miocárdica complementa esse rastreamento funcional.
Quando é necessária uma avaliação anatômica direta das artérias coronárias, os principais exames são a angiotomografia coronariana – método não invasivo, realizado com contraste, que fornece imagens detalhadas das artérias – e o cateterismo cardíaco (cineangiocoronariografia), considerado o padrão-ouro para o diagnóstico da doença arterial coronariana. O cateterismo é um procedimento minimamente invasivo, em que um cateter é guiado até as coronárias e um contraste é injetado para visualizar o fluxo sanguíneo. Além de diagnóstico, o cateterismo permite a realização de intervenções terapêuticas no mesmo momento, como a angioplastia.
O diagnóstico do AVC envolve avaliação neurológica e realização de tomografia computadorizada de crânio sem contraste, que permite distinguir o AVC isquêmico do hemorrágico em minutos, uma diferenciação fundamental, pois os tratamentos são opostos.
Outro exame que pode ser usado é a ressonância magnética, mais sensível para infartos cerebrais precoces. O médico também pode utilizar a angiotomografia e a arteriografia cerebral para mapear vasos e identificar oclusões tratáveis. Além disso, exames cardíacos, como o ECG, o ecocardiograma e o monitoramento prolongado do ritmo, podem ser solicitados para identificar, por exemplo, a fibrilação atrial. Como o diagnóstico é feito de forma individualizada para cada paciente, quais exames e quando serão feitos é uma decisão do médico responsável pelo tratamento.
Quais os fatores de risco das doenças coronarianas e do AVC, e como fazer a prevenção?
Doenças coronarianas e AVC compartilham um conjunto de fatores de risco amplamente sobrepostos. Entre os não modificáveis estão a idade avançada (o risco aumenta significativamente após os 45 anos nos homens e 55 anos nas mulheres), o sexo masculino (homens têm risco maior em idades mais jovens, embora as mulheres se equiparem após a menopausa), a história familiar de doença cardiovascular precoce e a presença de condições genéticas como dislipidemias hereditárias.
Já entre os fatores modificáveis – sobre os quais é possível e fundamental agir – estão a hipertensão arterial, o tabagismo, o diabetes mellitus, o colesterol elevado (especialmente o LDL), a obesidade, o sedentarismo, a dieta inadequada (rica em gorduras saturadas, sódio e açúcares) e o consumo excessivo de álcool. A hipertensão arterial merece destaque especial: é o principal fator de risco isolado tanto para doenças coronarianas quanto para AVC.
A pressão arterial elevada é responsável por milhões de mortes por doenças cardiovasculares em todo o mundo. O tabagismo vem logo após: a nicotina e os compostos da fumaça danificam o endotélio vascular, aceleram a aterosclerose e favorecem a formação de coágulos. O diabetes, por sua vez, lesiona os vasos sanguíneos de forma sistêmica, aumentando em duas a quatro vezes o risco de infarto e AVC. A fibrilação atrial , frequentemente ignorada por ser assintomática, é fator de risco independente para AVC, aumentando o risco em cinco vezes.
As estratégias de prevenção são, no geral, as mesmas para as duas condições. Controlar a pressão arterial com medicação e mudanças de estilo de vida é a medida com maior impacto comprovado. Parar de fumar reduz o risco cardiovascular de forma rápida e mensurável. A prática regular de atividade física aeróbica – pelo menos 150 minutos por semana de intensidade moderada – melhora o perfil lipídico, reduz a pressão arterial, controla o peso e o diabetes. Uma alimentação baseada em vegetais, frutas, grãos integrais, proteínas magras e gorduras saudáveis (como as gorduras do azeite e peixes), com restrição de sódio e açúcares, é amplamente recomendada. O controle regular do colesterol, da glicemia e da pressão arterial com exames periódicos é fundamental para quem tem fatores de risco, e deve começar antes dos 40 anos.
Como é o tratamento das doenças Coronarianas e do AVC?
O tratamento das doenças coronarianas é dividido em três grandes abordagens, que podem ser combinadas. O tratamento clínico e farmacológico é a base do cuidado crônico. A partir da orientação médica, podem ser usados medicamentos vasodilatadores, anti-hipertensivos, antiplaquetários, betabloqueadores e anticoagulantes, que atuam para reduzir o colesterol, estabilizar as placas, prevenir a formação de coágulos, controlar a pressão arterial e proteger o coração.
No contexto do infarto agudo, o objetivo prioritário é restaurar o fluxo sanguíneo o mais rápido possível, conhecido pelo termo ‘tempo é músculo’: cada minuto de demora significa mais células cardíacas perdidas.
A angioplastia coronariana com implante de stent é o principal procedimento para tratar o infarto e a angina instável. Realizada por cateterismo, técnica infla um balão dentro da artéria para abrir a obstrução e posiciona o stent para mantê-la aberta. Em casos de doença coronariana múltipla ou grave, é indicada a cirurgia de revascularização miocárdica (ponte de safena ou mamária). O acompanhamento com reabilitação cardíaca após os procedimentos é parte fundamental da recuperação e da prevenção de novos eventos.
No AVC isquêmico, o tratamento de emergência visa reconstruir o fluxo cerebral. Envolve, logo nas primeiras horas do início dos sintomas, o uso de medicamentos que ajudam a afinar o sangue, com o objetivo de diluir o coágulo que está causando o AVCI (AVC isquêmico). Em casos de oclusão de grandes vasos, é realizado um procedimento endovascular em que o coágulo é removido com um cateter (conhecido como trombectomia mecânica), em até 24 horas, em pacientes selecionados, o que aumenta muito as taxas de recuperação neurológica. No AVC hemorrágico, o tratamento envolve controle intensivo da pressão arterial, entre outros procedimentos e, em casos selecionados, pode ser realizada uma cirurgia para remoção do hematoma.
Em ambos os tipos de AVC, a reabilitação multidisciplinar precoce – com fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional – é decisiva para recuperar a função neurológica e a qualidade de vida. O uso de cada um desses procedimentos é analisado de forma individual, de acordo com o paciente, pelo médico responsável pelo tratamento.