Análise do risco cardiovascular global: o que é, por que fazer e como avaliar?
A análise do risco cardiovascular global integra múltiplos fatores para estimar o risco real de infarto e AVC, orientando a prevenção adequada e decisões clínicas mais seguras.
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As doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte no Brasil e no mundo. Infarto, AVC e insuficiência cardíaca muitas vezes não surgem de forma repentina, mas são o resultado de vários fatores de risco que se acumulam ao longo do tempo. É nesse contexto que entra a análise do risco cardiovascular global, uma abordagem que avalia de forma integrada os principais fatores de risco cardiovascular para estimar a probabilidade de eventos como infarto e AVC.
Um estudo internacional com mais de 2 milhões de participantes, publicado no New England Journal of Medicine em 2025, mostrou que a ausência de cinco fatores de risco cardiovasculares clássicos, incluindo hipertensão, colesterol elevado, baixo peso ou obesidade, diabetes e tabagismo, aos 50 anos está associada a mais de 10 anos adicionais de vida e de vida livre de doença cardiovascular, tanto em homens quanto em mulheres.
Outra pesquisa de base populacional no Brasil, com dados laboratoriais da Pesquisa Nacional de Saúde, estimou o risco cardiovascular em 10 anos na população adulta brasileira usando o Escore de Framingham e mostrou que 8,7% das mulheres e 21,6% dos homens apresentam alto risco cardiovascular. Entre as mulheres, 58,4% tinham baixo risco, enquanto entre os homens apenas 36,5% estavam nessa faixa.
A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) disponibiliza uma calculadora para estratificação do risco cardiovascular, que permite estimar a probabilidade de eventos cardiovasculares em um determinado período a partir da análise conjunta de fatores. Essa ferramenta auxilia profissionais de saúde na avaliação global do risco e na definição de estratégias personalizadas de prevenção e tratamento. Continue lendo e entenda mais o que é análise do risco cardiovascular global e por que fazer.
O que é a análise do risco cardiovascular global?
A análise do risco cardiovascular global é uma forma estruturada de estimar a probabilidade de uma pessoa ter um evento como infarto ou AVC em um determinado período, geralmente 10 anos.
Coordenador de cardiologia da Rede D’Or São Luiz, nas unidades São Luiz São Caetano e Villa-Lobos, Dr. Arthur Felipe Giambona Rente explica que a análise do risco cardiovascular global vai além da avaliação de um exame isolado ou de um único número, pois considera a integração de múltiplos fatores clínicos por meio de escores e calculadoras validadas cientificamente.
Principais fatores considerados na estratificação do risco cardiovascular
- Idade;
- Sexo;
- Pressão arterial;
- Colesterol;
- Tabagismo;
- Diabetes;
- Histórico familiar.
Em alguns modelos mais modernos, também podem ser incluídos marcadores como proteína C reativa, presença de doença renal crônica e achados de exames de imagem, como o escore de cálcio coronário.
“A partir desses dados, o médico consegue classificar o risco como baixo, intermediário ou alto e, assim, definir o melhor plano de prevenção para aquele paciente”, destaca Dr. Arthur Felipe Giambona Rente, que atua em cardiologia clínica, cardiologia oncológica e cardiointensivismo.
Como funciona a análise do risco cardiovascular global?
A análise de risco cardíaco global não substitui exames cardíacos, ela orienta quais exames são necessários e com qual urgência. A análise do risco cardiovascular global funciona como um mapa de risco, guiando a investigação e a prevenção.
A avaliação do risco cardiovascular global começa com uma boa consulta, incluindo história clínica detalhada, medida correta da pressão arterial e exame físico. Em seguida, costumam ser solicitados exames laboratoriais como perfil lipídico (colesterol total, HDL, LDL, triglicérides), glicemia, hemoglobina glicada, função renal e, em alguns casos, marcadores inflamatórios.
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“Dependendo do perfil do paciente, podem ser indicados exames complementares, como eletrocardiograma, ecocardiograma, teste ergométrico, monitorização ambulatorial da pressão (MAPA), Holter e, em situações selecionadas, exames de imagem das artérias coronárias ou escore de cálcio”, explica.
Complementando, Dr. Rente detalha como interpreta um risco baixo, intermediário ou alto. “De forma simplificada, quando falamos em escores de 10 anos, risco baixo costuma significar uma chance menor que 5% de ter um evento cardiovascular nesse período; risco intermediário, algo em torno de 5% a 20%; e risco alto, acima disso (os valores exatos variam entre as diferentes calculadoras e diretrizes).”
Em pacientes de risco baixo, o cardiologista afirma que o foco principal é orientar e reforçar hábitos saudáveis como alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, controle do peso, não fumar e sono adequado. Em muitos casos, não há necessidade de medicamentos, apenas acompanhamento periódico. Na prática, risco baixo indica que as medidas de estilo de vida são o pilar fundamental e, em geral, não há necessidade de medicamentos mais agressivos.
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“Risco intermediário é a ‘zona cinzenta’, em que avaliamos com mais cuidado outros fatores e, muitas vezes, utilizamos exames adicionais para refinar a estimativa. Já o risco alto significa que a pessoa tem uma probabilidade considerável de infarto ou AVC em um período relativamente curto, o que justifica uma abordagem mais intensa, com combinação de mudanças de estilo de vida e tratamento medicamentoso mais rigoroso”, esclarece.
Nesses pacientes de risco intermediário, além de mudanças de estilo de vida, frequentemente é indicado tratamento medicamentoso para pressão ou colesterol, dependendo dos valores e de outros fatores associados.
“Nos pacientes de alto risco, a abordagem é mais intensiva: quase sempre há necessidade de medicamentos para controle rigoroso de pressão, colesterol e glicemia, além de um acompanhamento mais próximo. Em algumas situações, podem ser necessários exames de imagem para avaliar a presença de doença coronária silenciosa. O objetivo é reduzir o risco de forma rápida e sustentada”, complementa Dr. Arthur Felipe Giambona Rente.
Por que fazer a análise do risco cardiovascular global é importante?
“Olhar apenas um exame isolado é como analisar uma cena com uma lanterna: você vê um pedaço, mas perde o contexto. Uma pessoa pode ter um colesterol apenas discretamente elevado, mas somar idade avançada, pressão alta, diabetes e tabagismo — isso faz o risco real ser muito maior do que o exame sugere sozinho”, exemplifica.
A avaliação global considera o conjunto de fatores e mostra o risco “real” do paciente. Isso evita tanto tratamentos desnecessários em quem tem baixo risco quanto a subvalorização do risco em pessoas que, mesmo com exames aparentemente “normais”, têm um perfil que exige prevenção mais intensa.
Quando o risco global é avaliado de forma precoce, é possível reduzir a chance de eventos como:
- Infarto do miocárdio;
- Acidente vascular cerebral (derrame);
- Morte súbita;
- Insuficiência cardíaca;
- Complicações vasculares em outros órgãos, como rins e circulação das pernas.
“Muitas dessas condições se desenvolvem silenciosamente ao longo de anos, e a análise do risco permite intervir antes que o problema apareça em forma de emergência”, aponta o especialista.
A análise do risco global é uma ferramenta central para a medicina personalizada em cardiologia. Em vez de aplicar a mesma receita para todos, o médico consegue quantificar o risco de cada pessoa e ajustar o plano de prevenção de acordo com o grau de ameaça que ela enfrenta.
“Isso vale tanto para a intensidade das mudanças de estilo de vida quanto para a indicação e a ‘força’ dos medicamentos. Assim, o paciente entende por que está recebendo determinada prescrição, o que melhora a adesão, e o sistema de saúde usa os recursos de forma mais inteligente, concentrando esforços em quem mais se beneficia”, diz.
Em alguns casos, é possível reduzir o risco cardiovascular global de forma significativa com intervenções precoces. “Conseguimos tirar o paciente de uma categoria de alto risco e levá-lo para intermediário ou até para baixo, o que significa menos chance de internações, cirurgias e eventos graves ao longo da vida”, atesta o especialista.
Quem deve fazer a análise do risco cardiovascular?
Em geral, a análise do risco cardiovascular global deve ser feita em adultos a partir dos 40 anos de idade, mesmo que não tenham sintomas. Porém, em pessoas com múltiplos fatores de risco — como forte histórico familiar de doença precoce, colesterol muito alto, diabetes ou doenças inflamatórias crônicas — essa avaliação pode ser antecipada.
“O mais importante é que a análise seja feita por um médico, de preferência com experiência em cardiologia ou clínica médica, para interpretar corretamente os escores e integrá-los ao contexto do paciente”, ressalta Dr. Rente.
Mesmo pessoas jovens e sem sintomas podem passar por essa avaliação. Embora a maioria dos eventos cardiovasculares aconteça em idades mais avançadas, existem jovens com risco elevado, especialmente aqueles com histórico familiar de infarto precoce, colesterol muito alto desde cedo (como nas hipercolesterolemias familiares), tabagismo intenso, uso de drogas, doenças autoimunes ou condições específicas como algumas cardiomiopatias.
“Em muitos casos, esses pacientes não têm qualquer sintoma até que o primeiro evento aconteça. Por isso, conhecer a história familiar e avaliar o perfil global de risco, mesmo em pessoas jovens, pode ser decisivo”, destaca Dr. Rente, que também trabalha diretamente na linha de cuidado cardiovascular, coordenando equipe médica, fluxos, protocolos e estratégias de prevenção e tratamento das doenças do coração, sempre com foco na segurança e na experiência do paciente.
O risco cardiovascular deve ser reavaliado ao longo da vida, pois não é estático e muda com o tempo. “Em geral, para pessoas sem grande risco, a reavaliação pode ser feita a cada 1 a 3 anos. Já em pacientes com fatores de risco importantes (como hipertensão, diabetes ou dislipidemia), a revisão costuma ser mais frequente”, aconselha.
De acordo com o cardiologista, é importante reavaliar o risco cardiovascular sempre que houver mudança relevante na saúde ou no estilo de vida como:
- Ganho de peso importante;
- Abandono ou início do tabagismo;
- Diagnóstico de uma doença crônica;
- Início de um novo tratamento;
- Menopausa, entre outros.
“Além disso, após intervenções, como mudança de dieta, prática de atividade física e uso de medicamentos, reavaliar o risco ajuda a mostrar, na prática, o quanto o paciente conseguiu reduzir a probabilidade de eventos”, afirma.
Dr. Arthur Felipe Giambona Rente destaca que as principais diretrizes internacionais e brasileiras de prevenção cardiovascular são unânimes em recomendar a avaliação global do risco como ponto de partida para o cuidado.
“Elas orientam que adultos, especialmente a partir da meia-idade, sejam submetidos periodicamente a escores validados, sempre aliados a uma boa avaliação clínica. Também reforçam que, em pacientes com doença cardiovascular estabelecida, diabetes com lesão de órgão-alvo, doença renal crônica ou hipercolesterolemia familiar, o risco é considerado alto ou muito alto, e a prevenção deve ser intensa desde o início”, esclarece.
Em resumo, as diretrizes colocam o risco global como uma “bússola” para a tomada de decisões, ajudando médico e paciente a escolher o melhor caminho para proteger o coração em longo prazo. Essa avaliação é uma ferramenta central da medicina preventiva, pois vai além de números isolados, considera o indivíduo de forma integral e permite agir antes que a doença se manifeste.
Ter um risco cardiovascular elevado não significa, necessariamente, que a pessoa já tenha uma doença, mas indica uma maior probabilidade de desenvolvê-la no futuro e, ao mesmo tempo, uma importante oportunidade de prevenção, desde que medidas sejam adotadas precocemente. Converse com um profissional de saúde e avalie seu risco cardiovascular de forma personalizada. Agende sua consulta com um cardiologista D’Or.