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Tireoide na prática clínica: o que todo médico precisa saber

Por: Rede D'Or
Publicado em • Atualizado em

A tireoide é uma glândula endócrina situada na região cervical anterior, responsável pela produção dos hormônios triiodotironina (T3) e tiroxina (T4), essenciais para o metabolismo energético, regulação térmica, função cardiovascular, desenvolvimento neurológico e saúde reprodutiva.

Disfunções tireoidianas, sobretudo o hipotireoidismo e o hipertireoidismo, são comuns na prática clínica, afetando até 10% da população mundial. Reconhecer manifestações sistêmicas e atípicas é fundamental. A identificação precoce de sinais indiretos por médicos de todas as especialidades é crucial para o manejo adequado dessas condições.

Principais disfunções tireoidianas e manifestações clínicas relevantes

Hipotireoidismo

O hipotireoidismo é caracterizado pela deficiência de produção de hormônios tireoidianos. As causas mais frequentes de hipotireoidismo variam conforme a disponibilidade de iodo na dieta da população. Em áreas suficientes em iodo, a causa mais comum é a tireoidite autoimune crônica, conhecida como tireoidite de Hashimoto. Em regiões com deficiência de iodo, a falta deste elemento é a principal causa de hipotireoidismo. Além disso, outras causas incluem o uso de certos medicamentos (como amiodarona e lítio), tratamento com iodo radioativo, cirurgia da tireoide e, menos frequentemente, hipotireoidismo central, que é devido a disfunções no hipotálamo ou na hipófise.

Hipertireoidismo

O hipertireoidismo decorre da produção excessiva de T3 e T4, sendo causas principais a Doença de Graves e o bócio multinodular tóxico.

Diagnóstico: Quando suspeitar e como investigar

A triagem laboratorial de disfunções tireoidianas é direta e inclui:

  • TSH: principal marcador de função tireoidiana.
  • T4 livre: para avaliação adicional em casos de TSH alterado.
  • Anticorpos anti-TPO e TRAb: para investigação etiológica de hipotireoidismo autoimune ou Doença de Graves.

Dada a vasta gama de sintomas que podem surgir — desde alterações cardiovasculares, neuropsiquiátricas, metabólicas até alterações dermatológicas — é comum que o paciente procure inicialmente um médico não endocrinologista. Por isso, é fundamental que o médico de qualquer especialidade saiba reconhecer sinais de alerta e conduzir a investigação laboratorial inicial.

Em situações críticas, como internação em unidades de terapia intensiva, é possível ocorrer a Síndrome do Doente Eutireoideo, caracterizada por alterações hormonais sem disfunção tireoidiana primária.

Encaminhamento ao endocrinologista

O encaminhamento é recomendado nos seguintes casos:

  • Após diagnóstico inicial de hipotireoidismo ou hipertireoidismo.
  • Disfunções tireoidianas diagnosticadas na gestação.
  • Presença de nódulos tireoidianos com características suspeitas ou crescimento.
  • Tireoidites agudas ou subagudas com dor cervical importante e sinais sistêmicos.
  • Dúvidas quanto ao manejo de disfunções subclínicas.

O médico não especialista desempenha um papel crucial no rastreamento, diagnóstico inicial e monitoramento da adesão terapêutica.

O diagnóstico precoce e o tratamento adequado de alterações tireoidianas impactam positivamente a qualidade de vida e reduzem morbimortalidade. Manter a vigilância clínica sobre manifestações discretas pode ser determinante para o prognóstico.

Autora:
Drª. Paula Bruna Araujo
Endocrinologista, Serviço de Assessoria ao Médico do Richet, Mestre pela UFRJ, Clinical Fellowship pela University of Toronto
CRM 52.82150-0