Notícias

Transplante de coração: quem pode doar, quem pode receber e como funciona a fila

Entenda quem pode receber ou doar um coração, como funciona a fila de transplante e quando o procedimento é indicado
Gabriela Campos Cardoso De Lima
Publicado em

O transplante de coração é uma cirurgia de alta complexidade indicada principalmente para pessoas com insuficiência cardíaca avançada ou outras doenças cardíacas graves que não respondem adequadamente aos tratamentos disponíveis. Também chamado de transplante cardíaco, o procedimento substitui o coração doente por um coração de um doador falecido que atende aos critérios para doação.

Dados da Análise do Registro Brasileiro de Transplantes 2024 publicados no Brazilian Journal of Transplantation apontam que, só em 2024, o Brasil realizou 26.509 transplantes de órgãos sólidos e tecidos, sendo 440 transplantes de coração. Ainda de acordo com o documento, houve um aumento no número total de todos os tipos de transplantes em relação ao ano de 2023.

Apesar de ser um procedimento consolidado e capaz de proporcionar mais anos de vida e melhor qualidade de vida aos pacientes, ainda existem muitas dúvidas sobre quem pode doar um coração, quem pode receber esse órgão e como funciona a fila de transplantes no Brasil.

Neste artigo, você entenderá o que é o transplante cardíaco, quando ele é indicado, quais são os critérios para doação e recebimento do coração, como funciona a lista de espera no Sistema Nacional de Transplantes e como é a vida após o procedimento. Continue lendo e saiba mais.

O que é o transplante de coração?

O transplante cardíaco é uma cirurgia de alta complexidade em que um coração doente é substituído por um coração saudável proveniente de um doador falecido que atende aos critérios para doação, após o diagnóstico de morte encefálica e a autorização familiar.

Médica cardiologista e especialista em insuficiência cardíaca e transplante cardíaco, Dra. Gabriela Campos C de Lima explica que o transplante cardíaco é um procedimento cirúrgico no qual um paciente (receptor) recebe o coração de outra pessoa (doador).

Quando o transplante de coração é indicado?

O transplante de coração é indicado principalmente quando todos os demais tratamentos disponíveis já foram utilizados e não conseguem mais controlar adequadamente a doença cardíaca.

“Ele está indicado toda vez que o paciente possui uma insuficiência cardíaca avançada, ou seja, o coração não consegue trabalhar adequadamente em bombear o sangue, causando cansaço persistente com restrição das atividades diárias apesar de tratamento médico otimizado”, descreve a especialista.

Entre outras situações que podem levar à avaliação para transplante cardíaco estão:

  • Arritmias refratárias;
  • Angina refratária;
  • Necessidade de medicações endovenosas que ajudam o coração a trabalhar.

“Mas nem todos os pacientes com doença cardíaca grave e avançada podem ser submetidos ao transplante. A principal contraindicação é a presença de hipertensão pulmonar (quando a pressão do sistema pulmonar é alta e pode prejudicar o novo coração)”, atesta a cardiologista, que também atua na Unidade Coronariana Hospital São Luiz Anália Franco e faz parte da equipe de Transplante Cardíaco da Rede D’Or São Paulo.

Outras condições avançadas e não compensadas também podem contraindicar ou exigir avaliação individualizada para o transplante, como:

  • Neoplasias em atividade (câncer em tratamento);
  • Doença psiquiátrica grave com risco de suicídio;
  • AVE (acidente vascular encefálico) com muitas sequelas;
  • Idade avançada;
  • Diabetes sem controle adequado;
  • Doença pulmonar grave, entre outras.

“Uma vez que o paciente tem a indicação do transplante e não há contraindicações, este é incluído na fila do transplante”, complementa a Dra. Gabriela Campos C de Lima.

Quem pode receber um transplante de coração?

Nem todo paciente com insuficiência cardíaca é automaticamente candidato ao transplante. Antes da inclusão na lista de espera, é realizada uma avaliação detalhada por uma equipe multidisciplinar especializada.

Em geral, podem ser considerados candidatos pacientes que apresentam:

  • Insuficiência cardíaca avançada sem resposta adequada aos tratamentos disponíveis;
  • Limitação importante para realizar atividades do dia a dia;
  • Internações frequentes por descompensação cardíaca;
  • Alto risco de morte relacionado à doença cardíaca.

Além disso, a equipe avalia as condições clínicas do paciente e sua capacidade de aderir ao tratamento após o transplante, incluindo o uso contínuo de medicamentos imunossupressores e o acompanhamento médico regular.

Como funciona a fila de transplante de coração?

Uma das maiores dúvidas da população é sobre a chamada “fila do transplante”. Embora seja conhecida como fila, o sistema brasileiro funciona muito mais como uma lista técnica de priorização, e o órgão não é destinado simplesmente a quem está esperando há mais tempo.

Quando um coração se torna disponível, o Sistema Nacional de Transplantes aplica os critérios técnicos de alocação para identificar os candidatos compatíveis e definir a prioridade, considerando características do doador, compatibilidade sanguínea, peso, situação clínica e tempo de espera.

“A fila de transplante é única e estadual. É separada por tipos sanguíneos (A, B, AB e O). E a oferta de órgão obedece ao tempo de fila. Mas, durante o tempo de espera, os pacientes vão piorando dos sintomas e necessitando frequentemente de internação”, detalha Dra. Gabriela.

A cardiologista ressalta que com a piora clínica pode haver a necessidade de suporte avançado, como inotrópicos, dispositivos de assistência e diuréticos endovenosos, levando a uma situação de prioridade.

“A prioridade em fila indica que o paciente está mais grave e com maior chance de morrer, portanto, precisa receber o coração mais rápido. A maior prioridade é quando o paciente se encontra dependente de ECMO (membrana de circulação extracorpórea)”, destaca.

Portanto, estar há mais tempo na lista não significa necessariamente receber o próximo coração disponível. A prioridade pode mudar conforme a condição clínica e os critérios técnicos estabelecidos para a alocação do órgão.

Quem pode doar um coração?

O coração destinado ao transplante é proveniente de um doador falecido que atende aos critérios médicos para doação. O doador é um paciente em morte encefálica, situação que precisa ser diagnosticada conforme os protocolos estabelecidos.

“A morte encefálica é caracterizada pela ausência de consciência, mesmo sem sedativo, e ausência dos reflexos autônomos do cérebro. Resumindo, é quando o cérebro morre antes dos outros órgãos”, detalha Dra. Gabriela.

A morte encefálica é causada por certas condições neurológicas, como:

“Ela é determinada por exames clínicos (que testam a consciência e os reflexos) e pelo menos um exame de imagem. Assim que ela é confirmada, a Organização de Procura de Órgãos (OPO) é acionada para avaliar o paciente, falar com a família (pedir autorização para a doação), separar os exames realizados que precisam ser utilizados na hora da oferta e organizar a logística de captação dos órgãos pelas diversas equipes transplantadoras”, descreve.

No Brasil, a autorização familiar é necessária para a doação de órgãos após a morte.

O coração pode ser doado em vida?

Não. Diferentemente de alguns órgãos e tecidos que podem ser doados em determinadas situações por pessoas vivas, o coração destinado ao transplante é obtido de um doador falecido.

Quando surge um doador e uma oferta é concretizada, duas equipes cirúrgicas se preparam. Uma será enviada ao hospital do doador para a realização da captação do órgão. Lá, o cirurgião observa o aspecto do coração e seu funcionamento, decidindo continuar ou não com o procedimento. Enquanto isso, a outra equipe permanece no hospital onde está o receptor, preparando-o para a cirurgia e aguardando a chegada do órgão.

Como o coração do doador é avaliado?

Nem todo coração de um potencial doador pode ser utilizado. Antes da captação, a equipe médica realiza uma avaliação criteriosa para verificar se o órgão apresenta condições adequadas para o transplante.

Entre os fatores analisados para doar um coração estão:

Essa avaliação busca garantir que o coração apresente condições adequadas de funcionamento para o receptor.

Como é feito o transplante de coração?

O transplante cardíaco é realizado em centro cirúrgico por uma equipe especializada. Durante o procedimento, o coração doente é retirado e substituído pelo coração doado, previamente avaliado e considerado adequado para o receptor.

A cirurgia exige planejamento e logística coordenados entre as equipes responsáveis pela captação e pelo transplante. Após o procedimento, o paciente permanece sob acompanhamento hospitalar para monitoramento da recuperação e identificação de possíveis complicações.

Depois da alta, o acompanhamento médico continua de forma regular. O uso correto dos medicamentos imunossupressores é fundamental para reduzir o risco de rejeição do órgão transplantado.

Como é a recuperação após o transplante de coração?

O objetivo do transplante cardíaco não é apenas aumentar a sobrevida, mas também melhorar a qualidade de vida e a capacidade funcional do paciente.

“O objetivo do transplante cardíaco é proporcionar mais do que tempo de vida, é fornecer qualidade de vida, permitindo que o receptor volte a uma vida normal, como trabalhar, viajar e praticar atividade física. Alguns transplantados se tornam até atletas”, frisa a especialista.

Após a recuperação, muitos pacientes conseguem retomar atividades cotidianas. A cardiologista afirma que o principal cuidado é o uso correto das medicações imunossupressoras para evitar a rejeição ao órgão doado. A aderência ao tratamento é fundamental.

A especialista orienta:

Dra. Gabriela acrescenta que, após o transplante, vacinas com vírus vivos atenuados, como a de febre amarela e a de sarampo, não são recomendadas.

Quanto tempo vive uma pessoa após um transplante de coração?

A sobrevida após o transplante cardíaco varia de acordo com fatores como idade, condições clínicas, características do doador e do receptor e ocorrência de complicações.

“A sobrevida imediata pós-transplante cardíaco é muito boa, em torno de 80% e a sobrevida média de um transplantado vai de 11 a 15 anos”, destaca Dra. Gabriela Campos C de Lima.

Os dados de sobrevida são estimativas populacionais e não permitem prever individualmente quanto tempo uma pessoa viverá após o transplante. O acompanhamento médico contínuo é fundamental para identificar e tratar possíveis complicações.

Da mesma forma que a população geral, os transplantados cardíacos devem seguir medidas de prevenção cardiovascular, como:

Esses cuidados também são fundamentais e impactam na qualidade e no tempo de vida.

Perguntas frequentes sobre transplante de coração

Não existe um prazo único para conseguir um transplante de coração. O tempo de espera depende da disponibilidade de doadores, da compatibilidade entre doador e receptor, da situação clínica e dos critérios de prioridade estabelecidos pelo Sistema Nacional de Transplantes.

Não necessariamente. A lista de transplantes não funciona como uma fila convencional em que o primeiro inscrito obrigatoriamente recebe o próximo órgão disponível. A seleção considera critérios técnicos e clínicos relacionados ao doador e ao receptor.

Sim. A rejeição é uma das complicações possíveis após o transplante. Por isso, o paciente precisa utilizar medicamentos imunossupressores e manter acompanhamento médico regular.

O tratamento imunossupressor é necessário para prevenir a rejeição e, em geral, faz parte do acompanhamento de longo prazo do paciente transplantado. A medicação e as doses devem sempre ser determinadas pela equipe responsável.

Muitos pacientes conseguem recuperar atividades cotidianas e melhorar significativamente sua capacidade funcional após o transplante. Entretanto, é necessário manter acompanhamento médico contínuo e seguir rigorosamente o tratamento.

Sim. No Brasil, a autorização familiar é necessária para a doação de órgãos após a morte.

O transplante de coração é realizado pelo SUS?

Sim. O Brasil possui um sistema público de transplantes coordenado pelo Sistema Nacional de Transplantes. A indicação, a avaliação e a inclusão na lista de espera seguem critérios técnicos e clínicos estabelecidos pelo sistema.

Para quem aguarda um transplante, compreender como funciona a lista, manter o acompanhamento com a equipe transplantadora e seguir corretamente as orientações médicas são medidas essenciais.

Se você ou alguém da sua família apresenta insuficiência cardíaca avançada, a avaliação por uma equipe especializada é fundamental para determinar quais opções de tratamento são mais adequadas para cada caso. Agende uma consulta com um dos especialistas da Rede D’Or.