Lipoproteína(a): o que é, riscos cardiovasculares e quando investigar
Lipoproteína(a) é um fator de risco cardiovascular genético que pode aumentar o risco de infarto, AVC e estenose aórtica mesmo com colesterol controlado. Saiba quando investigar
Publicado em:
A lipoproteína(a), também chamada de Lp(a), é um tipo específico de lipoproteína presente no sangue e que vem ganhando cada vez mais atenção na cardiologia. Isso porque níveis elevados de Lp(a) estão associados a um maior risco de doenças cardiovasculares, independentemente de outros fatores clássicos, como colesterol LDL, pressão alta ou diabetes.
Um estudo divulgado pelo Colégio Americano de Cardiologia indica que cerca de 20% a 25% da população mundial apresenta níveis elevados da lipoproteína. Outro estudo, que avaliou o Perfil brasileiro da lipoproteína(a), mostrou que cerca de 18% da população apresentam níveis elevados, acima de 50 mg/dL, associados a maior risco cardiovascular.
As mulheres apresentaram valores mais altos do que os homens, enquanto aproximadamente 70% dos avaliados tiveram níveis considerados normais, abaixo de 30 mg/dL. Entender o que é esse marcador lipídico, como ela atua no organismo e quando deve ser investigada é fundamental para a prevenção de eventos cardiovasculares. Continue lendo e saiba o que é lipoproteína(a) e por que você deve ficar atento.
O que é a lipoproteína(a)?
A lipoproteína(a) é uma partícula lipídica presente no sangue. De acordo com a cardiologista de linha de cuidado do Hospital Santa Cruz – Rede D’Or – (PR) Dra. Julyana Egito, essencialmente a Lp(a) é uma partícula de LDL-colesterol (o chamado “colesterol ruim”) que tem acoplada a ela uma proteína adicional chamada apolipoproteína(a), ou apo(a).
“Imagine uma partícula de LDL comum, mas com uma ‘cauda’ proteica extra ligada a ela através de uma ponte dissulfídica. Essa estrutura única é o que diferencia a Lp(a) de outras lipoproteínas e confere a ela propriedades especiais – e problemáticas”, explica a especialista.
Em outras palavras, a lipoproteína(a) é muito parecida com o colesterol LDL, conhecido como “colesterol ruim”. A diferença é que ela carrega uma espécie de “acessório extra” grudado à sua estrutura. Esse componente adicional faz com que a Lp(a) se comporte de forma diferente no organismo, tornando-a mais agressiva para as artérias. Por isso, ela está associada a um risco maior de entupimento dos vasos e de doenças cardiovasculares, mesmo em pessoas que têm colesterol aparentemente controlado.
Por que a lipoproteína(a) é considerada um fator de risco?
“Ela é considerada um fator de risco independente para doenças cardiovasculares. A lp(a) é considerada um fator de risco pois sua estrutura pode promover a formação de placas ateroscleróticas, possui efeitos pró-aterogênicos, além de efeitos pró-inflamatórios que relacionam –se diretamente com aumento de risco cardiovasculares”, ressalta Dra. Julyana Egito.
Além dessas características a Lp(a) apresenta uma particularidade, diferentemente de outros tipos de colesterol, os níveis de Lp(a) são fortemente determinados pela genética, ou seja, são herdados e pouco influenciados por dieta, atividade física ou estilo de vida.
“A Lp(a) é considerada um marcador genético porque seus níveis no sangue são principalmente determinados por fatores hereditários, sendo amplamente (> 90%) determinadas geneticamente. Embora o estilo de vida possa influenciar outros lipídios, como LDL e HDL, a concentração de Lp(a) é relativamente estável ao longo da vida e não sofre variações significativas com mudanças na dieta ou atividade física. Portanto, medidas repetidas, geralmente, não são necessárias para avaliação de risco”, informa Dra. Julyana.
A lipoproteína(a) elevada aumenta o risco cardiovascular através de quatro mecanismos principais que atuam simultaneamente:
- Formação acelerada de placas nas artérias (aterogênese acelerada)
A lipoproteína(a) consegue entrar com mais facilidade na parede das artérias. Uma vez lá dentro, ela passa por um processo de oxidação, tornando-se ainda mais prejudicial. Nesse estado, é rapidamente “engolida” por células de defesa chamadas macrófagos, que acabam se transformando em células espumosas, um dos principais componentes das placas de gordura que se formam nas artérias.
Além disso, esse marcador lipídico tende a se acumular justamente nas regiões onde a parede do vaso já está machucada ou fragilizada, o que acelera a formação e o crescimento dessas placas, aumentando o risco de problemas cardiovasculares.
- Maior risco de formação de coágulos (efeito pró-trombótico)
A estrutura da lipoproteína(a) se parece com a de uma substância natural do corpo responsável por dissolver coágulos. O problema é que, ao ocupar esse espaço, a Lp(a) atrapalha esse mecanismo de proteção. Na prática, isso significa que, quando um coágulo se forma, por exemplo, após a ruptura de uma placa, o organismo tem mais dificuldade para dissolvê-lo, aumentando o risco de eventos cardiovasculares mais graves e extensos.
- Inflamação vascular crônica
Quando essa lipoproteína específica sofre oxidação, ela passa a irritar a parede das artérias. Isso ativa um processo inflamatório persistente, fazendo com que o organismo envie células de defesa para o local. “Essa inflamação crônica torna as placas mais instáveis, com cápsulas fibrosas mais finas e maior propensão à ruptura – aumentando o risco de infartos e AVCs”, alerta Dra. Julyana.
- Calcificação valvar
“Descoberta mais recente, a Lp(a) promove calcificação ativa da válvula aórtica, contribuindo para desenvolvimento de estenose aórtica em idades mais precoces e com progressão mais rápida”, aponta a cardiologista.
Pessoas com esse marcador lipídico elevado têm maior probabilidade de desenvolver doenças cardiovasculares, mesmo quando outros exames estão normais. “Importante destacar que o risco aumenta progressivamente com os níveis de Lp(a) – não há ponto de corte absoluto. Quanto maior a Lp(a), maior o risco. Além disso, ela age sinergicamente com outros fatores de risco: a combinação de Lp(a) elevada com LDL alto, hipertensão, diabetes ou tabagismo multiplica (não apenas soma) o risco cardiovascular”, alerta Dra. Julyana.
Qual a relação da lipoproteína (A) com as doenças cardiovasculares?
A lipoproteína(a) apresenta uma relação direta e bem estabelecida com diversas manifestações de doença cardiovascular aterosclerótica, atuando como um fator de risco independente e potente para eventos cardiovasculares.
Dra. Julyana explica que na doença arterial coronariana essa lipoproteína específica exerce um papel relevante, pois quanto mais elevados seus níveis no sangue, maior é o risco cardiovascular, de forma progressiva e proporcional.
“Estudos epidemiológicos mostram que indivíduos com níveis de Lp(a) superiores a 50 mg/dL apresentam um risco de 2 a 4 vezes maior de sofrer infarto agudo do miocárdio quando comparados àqueles com níveis mais baixos.”
Além disso, a especialista afirma que a Lp(a) elevada está fortemente associada ao desenvolvimento de doença arterial coronariana prematura e mais grave, manifestando-se em idades mais jovens e com maior extensão do acometimento coronário.
“Importante ressaltar que a Lp(a) atua como preditor independente de eventos coronários, ou seja, seu efeito deletério persiste mesmo após ajuste para outros fatores de risco cardiovascular tradicionais como LDL-colesterol, hipertensão e diabetes”, salienta.
No contexto do acidente vascular cerebral (AVC), Dra. Julyana Egito descreve que a Lp(a) elevada aumenta o risco de AVC isquêmico em aproximadamente 30 a 40%. “Essa associação é particularmente relevante nos casos de AVC criptogênico, aqueles em que não se identifica uma causa aparente após investigação completa, sugerindo que a Lp(a) pode ser o fator causal subjacente em muitos desses casos”, complementa.
A relação é ainda mais pronunciada em pacientes jovens que sofrem AVC, nos quais essa lipoproteína específica elevada frequentemente emerge como o principal fator de risco identificável.
“No processo aterosclerótico propriamente dito, a Lp(a) desempenha múltiplos papéis deletérios. Ela acelera tanto a formação quanto a progressão das placas ateroscleróticas, promovendo um acúmulo mais rápido de lipídios na parede arterial. As placas formadas na presença de Lp(a) elevada tendem a ser mais vulneráveis à ruptura, aumentando o risco de eventos agudos como infarto e AVC”, descreve.
Além disso, a aterosclerose associada à Lp(a) tende a ser mais difusa, acometendo múltiplos territórios vasculares, e mais precoce, manifestando-se em idades mais jovens do que seria esperado apenas pelos fatores de risco tradicionais.
“Outras associações cardiovasculares importantes incluem a estenose aórtica calcificada, condição na qual a Lp(a) parece desempenhar papel causal direto na calcificação valvar, a doença arterial periférica, que também apresenta maior prevalência e gravidade em indivíduos com Lp(a) elevada, e a reestenose após procedimentos de angioplastia, sendo a Lp(a) um preditor de reobstrução das artérias mesmo após intervenções coronarianas bem-sucedidas”.
A Lp(a) alta pode explicar casos de infarto ou entupimentos coronários em pessoas “aparentemente saudáveis”. “Este é, sem dúvida, um dos aspectos mais importantes e clinicamente relevantes da lipoproteína(a) elevada. A Lp(a) frequentemente emerge como a explicação para eventos cardiovasculares que ocorrem em circunstâncias aparentemente inexplicáveis, desafiando nossa compreensão tradicional dos fatores de risco cardiovascular”, enfatiza Dra. Julyana Egito.
De acordo com a cardiologista, os cenários típicos envolvem pessoas relativamente jovens que sofrem infarto agudo do miocárdio ou necessitam de procedimentos de revascularização coronária em idades consideradas precoces, ou seja, homens com menos de 55 anos ou mulheres com menos de 65 anos.
“O que torna esses casos particularmente intrigantes é a ausência dos fatores de risco cardiovascular tradicionais: são indivíduos com LDL-colesterol dentro da faixa considerada normal ou até mesmo bem controlado com medicação, não fumantes, sem diabetes, com pressão arterial normal e, muitas vezes, adeptos de uma alimentação saudável e praticantes regulares de exercícios físicos. Do ponto de vista da avaliação de risco convencional, essas pessoas seriam classificadas como de baixo risco, tornando o evento cardiovascular completamente inesperado tanto para o paciente quanto para seus médicos”, destaca.
A especialista explica que isso acontece porque a Lp(a) elevada age de forma silenciosa e progressiva ao longo dos anos, acumulando riscos mesmo sem causar sintomas imediatos.
“Diferentemente do colesterol LDL, que é rotineiramente dosado em exames de check-up, a Lp(a) não é detectada no perfil lipídico padrão, permanecendo oculta enquanto exerce seu efeito aterogênico. Em muitos desses casos, a Lp(a) elevada pode ser o único fator de risco cardiovascular verdadeiramente presente, atuando de forma independente e cumulativa ao longo dos anos”, diz.
“Mesmo níveis considerados ‘normais’ de LDL-colesterol não protegem contra o risco adicional imposto por uma Lp(a) muito elevada, que pode equivaler a ter 50 a 100 mg/dL a mais de LDL-colesterol em termos de risco cardiovascular”, complementa Dra. Julyana.
Quando há história familiar de doença arterial coronariana precoce, a dosagem de Lp(a) deve ser considerada prioritária, pois pode revelar o elo genético que explica o padrão familiar de eventos cardiovasculares prematuros.
Diante de um evento cardiovascular “inexplicável” em pessoa jovem ou sem fatores de risco óbvios, a dosagem de Lp(a) frequentemente fornece a resposta que faltava.
“Mais importante ainda, identificar a Lp(a) elevada pode mudar completamente a abordagem preventiva, justificando metas terapêuticas muito mais agressivas para os outros fatores de risco modificáveis, uso de medicações preventivas em situações que normalmente não seriam indicadas, e um acompanhamento médico muito mais próximo e rigoroso”, salienta.
Essa informação não apenas explica o passado, mas fundamentalmente altera a estratégia para prevenir eventos futuros, tanto no paciente quanto em seus familiares que podem compartilhar a mesma predisposição genética.
Quem deve medir a Lp(a)?
A medição da Lp(a) é recomendada para todos os indivíduos pelo menos uma vez na vida, conforme as diretrizes brasileiras de dislipidemia de 2025.
Além disso, a medição da Lp(a) é especialmente indicada para pessoas com:
- Histórico familiar de doenças cardiovasculares;
- Infartos precoces;
- Hipercolesterolemia que não respondem bem ao tratamento.
Grupos em maior risco incluem pessoas com doenças cardiovasculares inexplicáveis, como AVC criptogênico e histórico familiar de eventos cardiovasculares.
LEIA TAMBÉM: A influência genética no risco de doenças cardíacas
“A dosagem de lipoproteína(a) é, na grande maioria dos casos, um exame realizado apenas uma vez na vida. Essa recomendação se baseia em características biológicas fundamentais da Lp(a) que a diferenciam de outros marcadores cardiovasculares”, diz Dra. Julyana.
Os níveis de Lp(a) são geneticamente determinados, estabelecidos precocemente na vida e permanecem notavelmente estáveis ao longo de toda a vida adulta. “Estudos mostram que a variação intra-individual dos níveis de Lp(a) ao longo do tempo é muito baixa, geralmente inferior a 10%, o que significa que o valor obtido em uma única dosagem representa de forma confiável o nível crônico daquele indivíduo”, aponta.
Existem, no entanto, algumas exceções em que uma nova dosagem do exame pode ser justificada. “Certas condições clínicas podem alterar os níveis de Lp(a), sendo a menopausa uma das mais relevantes, podendo elevar os valores em 20 a 30%. Mulheres que iniciam reposição hormonal também podem experimentar mudanças nos níveis. O desenvolvimento de doença renal crônica e o hipotireoidismo não controlados são outras condições que podem modificar a Lp(a), justificando uma nova dosagem nessas situações”, descreve.
Em alguns casos, pode ser necessário repetir o exame, especialmente quando o resultado está próximo dos valores de referência ou quando há suspeita de interferências laboratoriais ou condições inadequadas na coleta.
“A recomendação prática, portanto, é realizar a dosagem uma vez, registrar o resultado no prontuário como um dado permanente do paciente, e utilizar essa informação para estratificação de risco cardiovascular ao longo de toda a vida, sem necessidade de repetições rotineiras, exceto nas situações específicas mencionadas”, afirma a médica.
É possível reduzir a lipoproteína(a)?
Atualmente, a Lp(a) é um dos fatores de risco mais desafiadores, pois mudanças no estilo de vida têm pouco impacto direto sobre seus níveis. Embora não seja possível reduzir diretamente os níveis de lipoproteína(a) com as terapias atualmente disponíveis, há uma estratégia bem estabelecida e altamente eficaz para minimizar o risco cardiovascular em pessoas com Lp(a) elevada:
- Controle rigoroso de outros fatores de risco modificáveis, como colesterol LDL, pressão arterial e glicemia.
“Esta abordagem compensatória tem demonstrado capacidade significativa de reduzir eventos cardiovasculares mesmo na presença de Lp(a) elevada.”
- Uso de medicamentos específicos, quando indicados, para reduzir o risco cardiovascular global;
- Acompanhamento médico regular, com avaliação individualizada.
- Cessação do tabagismo.
“A cessação do tabagismo é absolutamente essencial, pois o tabagismo potencializa dramaticamente o risco já elevado pela Lp(a)”, ressalta.
- Controle do peso corporal.
“Até o momento, não existem medicamentos especificamente aprovados para a redução da Lp(a). No entanto, pesquisas estão em andamento e algumas opções experimentais, como anticorpos monoclonais, estão mostrando resultados promissores. As expectativas são de que medicações específicas estarão disponíveis nos próximos 2-5 anos”, avalia a médica.
De acordo com a cardiologista, a descoberta de níveis elevados de lipoproteína(a) representa um desafio particular na prática clínica, pois estamos diante de um fator de risco cardiovascular geneticamente determinado e, até o momento, sem tratamento farmacológico específico aprovado. “No entanto, isso não significa que estamos de mãos atadas. Pelo contrário, essa informação deve servir como um poderoso motivador para uma abordagem ainda mais rigorosa e abrangente dos fatores de risco modificáveis”, pontua.
Identificar a Lp(a) elevada permite uma avaliação mais precisa do risco e a definição de estratégias individualizadas de prevenção. Para isso, contar com a orientação de um cardiologista é fundamental. Agende sua consulta com um especialista da Rede D’Or e cuide da saúde do seu coração com acompanhamento médico qualificado.