Após o tratamento do câncer de mama, quais são os cuidados necessários com o coração

O fim do tratamento do câncer de mama representa uma importante conquista, mas os cuidados com a saúde não terminam quando a quimioterapia, a radioterapia ou outras terapias chegam ao fim. Entre os pontos que merecem atenção está a saúde cardiovascular.
Alguns tratamentos utilizados contra o câncer de mama podem aumentar o risco de alterações no coração e nos vasos sanguíneos, especialmente em determinadas pacientes. Por isso, o acompanhamento após o câncer também deve considerar a prevenção e o monitoramento cardiovascular.
O câncer de mama é o tipo de câncer mais frequente entre as brasileiras, depois do câncer de pele não melanoma, e representa a principal causa de morte por câncer entre as mulheres, de acordo com informações do Ministério da Saúde.
No mês do Outubro Rosa, período dedicado à conscientização sobre o câncer de mama, falar sobre o coração é uma forma de ampliar o olhar para a saúde da mulher e para os cuidados que continuam depois do tratamento.
Continue lendo e entenda quais são os cuidados necessários com o coração após o tratamento do câncer de mama.
Por que o tratamento do câncer de mama pode afetar o coração?
Alguns medicamentos utilizados no tratamento do câncer de mama podem provocar efeitos cardiovasculares. Esses tratamentos podem em algumas pacientes:
- reduzir a capacidade de bombeamento do coração;
- contribuir para o desenvolvimento de disfunção ventricular ou insuficiência cardíaca.
A radioterapia na região do tórax também pode estar relacionada, dependendo da área irradiada e das doses utilizadas, a complicações cardiovasculares que podem aparecer posteriormente, incluindo doença arterial coronariana e outras alterações cardíacas.
Dra. Rachel Matos, cardio-oncologista e coordenadora da Cardiologia do Hospital Niterói D’Or, explica que os avanços no diagnóstico e no tratamento do câncer de mama permitiram que cada vez mais mulheres vivam muitos anos após a cura ou o controle da doença. “Por isso, hoje nosso cuidado vai além do tratamento oncológico: precisamos também preservar a saúde cardiovascular e a qualidade de vida dessa mulher no longo prazo”, destaca.
Alguns tratamentos contra o câncer de mama podem aumentar o risco de alterações no coração e nos vasos sanguíneos durante a terapia ou até anos depois. Além disso, câncer e doenças cardiovasculares compartilham fatores de risco, como:
“Isso não significa que toda mulher que tratou um câncer de mama desenvolverá um problema cardíaco. Pelo contrário: quando conhecemos o risco individual, podemos atuar na prevenção, acompanhar de forma adequada e tratar precocemente eventuais alterações. À medida que a sobrevida aumenta, cuidar do coração se torna uma parte fundamental do cuidado”, ressalta Dra. Rachel.
A especialista ainda aponta estudos recentes que reforçam a relevância crescente da prevenção e do tratamento das doenças cardiovasculares para sobreviventes de longo prazo. Em algumas mulheres, as comorbidades cardiovasculares podem representar uma ameaça importante à saúde ao longo dos anos.
A probabilidade de uma mulher apresentar complicações cardiovasculares após o tratamento do câncer de mama resulta da combinação entre seu histórico de saúde e os tratamentos oncológicos utilizados.
Do ponto de vista da paciente:
- o alerta é maior para mulheres com mais de 60-65 anos, que já possuem doenças cardíacas prévias — como insuficiência cardíaca ou infarto prévio;
- que apresentam fatores de risco metabólicos, como pressão alta, diabetes, colesterol elevado, obesidade, tabagismo ou sedentarismo.
Do ponto de vista do tratamento oncológico, o risco aumenta quando são utilizadas terapias com potencial de afetar o músculo cardíaco ou os vasos sanguíneos. Entre eles:
- Antraciclinas, conhecidas popularmente como ‘quimioterapia vermelha’;
- Terapias-alvo anti-HER2 (como trastuzumabe e pertuzumabe);
- Radioterapia com exposição cardíaca relevante;
- E a combinação dos tratamentos, nos quais a paciente recebe mais de uma dessas terapias de forma sequencial ou associada.
“Por isso, trabalhamos com a estratificação individual de risco — muitas vezes apoiada em ferramentas validadas, como o escore de risco da HFA-ICOS (da Sociedade Europeia de Cardiologia) —, já que duas mulheres com o mesmo diagnóstico podem precisar de planos de acompanhamento cardiológico completamente diferentes”, explica Dra. Rachel.
A radioterapia merece atenção particular no longo prazo porque a doença coronariana relacionada à radiação pode surgir anos depois. “Por isso, a região irradiada, a dose recebida pelo coração e os fatores de risco da paciente ajudam a definir quem necessita de vigilância mais próxima”, destaca.
Quais tratamentos do câncer de mama podem aumentar o risco de problemas cardiovasculares?
“Destaco o tratamento com antraciclinas (como a doxorrubicina), que pode afetar o músculo cardíaco e, em algumas pacientes, levar à disfunção cardíaca ou insuficiência cardíaca. Esse risco depende, entre outros fatores, da dose acumulada e da saúde cardiovascular prévia da paciente”, diz a especialista.
A cardio-oncologista cita também as terapias-alvo anti-HER2, como o trastuzumabe, que também podem provocar redução da função cardíaca. “Muitas vezes essa alteração é identificada nos exames de rotina antes de causar sintomas e, com o acompanhamento e tratamento adequados, costuma ser reversível.”
A radioterapia pode acelerar o processo de aterosclerose nas artérias coronárias, gerar problemas nas válvulas cardíacas e no pericárdio, com efeito que pode aparecer anos mais tarde. “Vale ressaltar que as técnicas modernas de radioterapia reduziram significativamente a quantidade de radiação que chega ao coração”, pontua.
A médica fala também sobre a hormonioterapia (ou bloqueio hormonal), que também pode influenciar o risco cardiovascular: medicamentos como o tamoxifeno exigem atenção ao risco de eventos trombóticos, enquanto os inibidores de aromatase demandam acompanhamento mais próximo do perfil lipídico (colesterol) e metabólico.
“Existem ainda tratamentos mais recentes que podem interferir no coração. O ribociclib, por exemplo, pode provocar prolongamento do intervalo QT, uma alteração identificada no eletrocardiograma. Já a imunoterapia pode provocar miocardite, uma inflamação do músculo cardíaco — complicação rara, mas que exige reconhecimento e tratamento rápidos”, descreve a cardio-oncologista.
É importante reforçar que esses medicamentos desempenham um papel essencial na cura e no controle do câncer. Conhecer seus potenciais efeitos no coração serve para tornar a terapia mais segura, e não para gerar medo ou interromper tratamentos necessários.
Quais cuidados com o coração são necessários durante o tratamento do câncer de mama?
O cuidado cardiovascular ideal começa antes mesmo do início da terapia oncológica. “Avaliamos se a paciente já apresenta pressão alta, diabetes, colesterol elevado, obesidade ou tabagismo e buscamos controlar esses fatores desde o primeiro momento”, explica a médica.
Dependendo do esquema de tratamento e do risco individual, indicamos exames como:
- eletrocardiograma,
- ecocardiograma,
- exames de sangue com marcadores específicos para monitorização.
Em pacientes selecionadas de alto risco, também pode ser indicado iniciar de forma preventiva medicamentos cardioprotetores.
“Durante o tratamento, o objetivo é identificar alterações precocemente, muitas vezes antes de surgirem sintomas. E o cuidado não termina com a última sessão de quimioterapia ou radioterapia”, afirma.
Perguntas frequentes sobre câncer de mama e coração
Sim. Alguns tratamentos podem aumentar o risco de alterações cardiovasculares, por isso o acompanhamento é importante.
Nem todas. A necessidade depende do tratamento realizado, dos fatores de risco e das condições de saúde de cada pessoa.
Alguns medicamentos podem afetar a função cardíaca, principalmente em determinados esquemas de tratamento.
Pode, principalmente quando a radioterapia é feita no lado esquerdo. As técnicas atuais são mais precisas e expõem menos o coração à radiação.
Falta de ar, dor no peito, palpitações, cansaço incomum e inchaço nas pernas devem ser avaliados por um profissional de saúde.
Sim. Controlar pressão, colesterol, diabetes e peso, não fumar, praticar atividade física e manter uma alimentação equilibrada ajudam na proteção cardiovascular.
O acompanhamento pode ser necessário por anos, conforme os tratamentos realizados e os fatores de risco cardiovasculares.
Quais cuidados devem ser mantidos com o coração depois do câncer de mama?
Todas as mulheres que trataram câncer de mama devem manter uma avaliação periódica dos seus fatores de risco cardiovascular, o que inclui:
- medir a pressão arterial,
- checar glicemia e colesterol,
- manter o peso adequado,
- praticar atividade física,
- não fumar.
“A regularidade do acompanhamento com cardiologista ou cardio-oncologista depende do risco individual. Mulheres que já têm doença cardiovascular, apresentaram alguma alteração cardíaca durante o tratamento, receberam terapias de maior risco ou desenvolveram novos sintomas devem ter acompanhamento especializado”, aconselha a médica.
Para as pacientes de alto risco ou que já apresentaram alguma alteração durante o tratamento, a consulta cardiológica deve acontecer antes, durante e logo após o término da terapia oncológica. Já para pacientes de baixo risco e sem sintomas, uma primeira avaliação cardiológica no período de três a seis meses após o término é o indicado.
“Em geral, ao longo do primeiro ano pós-tratamento, realizamos um monitoramento mais próximo, com consultas e exames. Se a paciente se mantiver estável, entre o segundo e o quinto ano esse acompanhamento pode ser espaçado conforme a orientação médica”, aponta a especialista.
A cardiologista ressalta que mesmo após cinco anos de alta do tratamento oncológico, o cuidado com o coração não termina. “Tratamentos como as antraciclinas e a radioterapia podem causar efeitos cardiológicos tardios, e assim recomendamos manter uma vigilância e acompanhamento preventivo regular”, detalha.
Pacientes de baixo risco, sem sintomas e sem alterações nos exames, podem ter seus fatores de risco acompanhados pela equipe habitual de saúde, conforme o plano individual.
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São sinais de alerta claros para procurar o cardiologista e a avaliação deve ser imediata caso surjam sintomas como:
- falta de ar nova ou em piora,
- cansaço fora do habitual,
- inchaço nas pernas,
- palpitações,
- tonturas,
- desmaios,
- qualquer dor ou pressão no peito.
“Esses sintomas não significam obrigatoriamente um dano cardíaco causado pelo tratamento do câncer, pois podem ter diversas outras causas. No entanto, em quem passou por terapias com potencial efeito cardiovascular, eles exigem investigação imediata”, diz.
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O cuidado com o coração não deve esperar o aparecimento de sinais e sintomas. Muitas alterações cardíacas começam de forma silenciosa, e é exatamente por essa razão que a consulta preventiva continua sendo a melhor ferramenta.
Para avaliar a saúde do coração após o tratamento, a escolha dos exames e sua regularidade depende do tratamento recebido, do risco cardiovascular, da presença de sintomas e dos resultados anteriores.
É utilizada uma combinação de exames de imagem, marcadores sanguíneos e testes funcionais.
O ecocardiograma:
É um dos principais exames para avaliar a estrutura e a função do coração. Quando disponível e indicado, a análise do strain, uma medida da deformação do músculo cardíaco, pode ajudar a identificar alterações precoces da função cardíaca.
O eletrocardiograma e exames laboratoriais de rotina:
Ajudam na avaliação geral. Exames laboratoriais podem incluir colesterol, glicemia e, em situações selecionadas, marcadores como troponina e peptídeos natriuréticos.
A ressonância magnética cardíaca:
A ressonância magnética cardíaca também pode ser utilizada quando é necessária uma avaliação de maior precisão para avaliar a estrutura e a presença de fibrose no coração.
“Nas mulheres que receberam radioterapia com exposição cardíaca significativa, também precisamos considerar o risco de doença das artérias coronárias no longo prazo. Em pacientes selecionadas, testes funcionais ou exames como a angiotomografia de coronárias e o escore de cálcio coronariano podem ser necessários. Eles não são, entretanto, exames obrigatórios para toda sobrevivente de câncer de mama”, frisa Dra. Rachel.
O que fazer para proteger o coração após o câncer de mama?
A prevenção cardiovascular não depende apenas de exames e consultas. Hábitos de vida e controle adequado de doenças preexistentes desempenham um papel fundamental.
A atividade física é uma das principais aliadas da recuperação funcional e da saúde cardiovascular.
Sempre que houver condições clínicas, a recomendação é retomar os exercícios progressivamente, buscando atingir entre 150 e 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, além de exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias por semana.
Além da atividade física, é importante:
- manter uma alimentação equilibrada;
- não fumar;
- controlar o peso e tratar adequadamente hipertensão;
- diabetes e colesterol elevado.
Os medicamentos cardiovasculares prescritos também não devem ser interrompidos sem orientação médica.
“Qualquer mudança sustentada no estilo de vida, por menor que pareça no início, já traz benefícios significativos para a proteção do coração”, salienta a cardio-oncologista.
Depois de vencer uma etapa tão importante como o tratamento do câncer de mama, cuidar do coração, manter hábitos saudáveis e acompanhar os fatores de risco cardiovascular também fazem parte desse novo capítulo.
A cardio-oncologia tem justamente o papel de integrar os cuidados cardiovasculares com o tratamento oncológico permitindo que o tratamento do câncer e a proteção do coração caminhem lado a lado com foco em identificar precocemente e tratar possíveis complicações cardíacas e preservar a saúde e a qualidade de vida durante e depois do tratamento. Conte com os especialistas D’Or.