Isquemia silenciosa: o que é, riscos e como identificar?
A isquemia silenciosa pode evoluir sem sintomas e causar infarto ou insuficiência cardíaca. Saiba quais são os riscos e como identificar precocemente
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A isquemia silenciosa é uma condição cardiovascular que evolui de forma discreta, sem causar dor no peito ou outros sintomas clássicos das doenças cardíacas. Apesar disso, representa um risco real à saúde, podendo levar a complicações graves como infarto e insuficiência cardíaca.
A isquemia silenciosa pode ser totalmente assintomática, sem dor torácica, sem falta de ar e sem qualquer incômodo que o paciente reconheça como dor ou desconforto no peito. Isso ocorre porque mecanismos de percepção da dor podem estar alterados, especialmente em diabéticos, idosos, hipertensos e pessoas com neuropatia autonômica.
Por ser uma condição muitas vezes assintomática, a isquemia silenciosa costuma ser diagnosticada apenas em exames de rotina ou após eventos mais graves. Por isso, compreender o que é essa condição, quem está mais exposto e quais exames ajudam na detecção precoce é essencial para reduzir o risco de complicações cardiovasculares. Continue a leitura e saiba como proteger a saúde do seu coração.
Isquemia silenciosa: o que é e quais os riscos para o coração?
Isquemia silenciosa é uma condição na qual ocorre redução do fluxo sanguíneo ao miocárdio sem que o paciente sinta dor ou sintomas típicos, como angina, que é uma dor ou desconforto no peito.
Coordenador do Serviço de Cardiologia do Hospital São Lucas de Aracaju (SE)/ Rede D’Or, Dr. Antônio Carlos Sobral Sousa explica que a isquemia silenciosa recebe esse nome justamente porque “passa em silêncio”, permanecendo clinicamente imperceptível.
“Acontece devido a alterações na sensibilidade neural, limiar de dor elevado ou neuropatia (como em diabéticos), além de episódios transitórios e autolimitados. Mesmo sem sintomas, a isquemia silenciosa indica presença de doença arterial coronariana e está associada a maior risco de arritmias, infarto e morte súbita. Por isso, sua detecção — por teste ergométrico, Holter, cintilografia ou ecocardiografia de estresse — tem grande importância na estratificação de risco cardiovascular”, destaca.
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Principais causas da isquemia silenciosa
A ausência de sintomas não significa ausência de perigo. Pelo contrário, a isquemia silenciosa costuma ser diagnosticada tardiamente, o que aumenta o risco de complicações. De acordo com o Dr. Antônio Carlos Sobral Sousa, as principais causas de isquemia silenciosa incluem:
- Doença arterial coronariana (DAC) com obstruções fixas ou placas instáveis que reduzem o fluxo sanguíneo ao miocárdio.
- Disfunção microvascular, comum em diabéticos, hipertensos e idosos, levando à má perfusão mesmo sem estenoses significativas.
- Neuropatia autonômica, especialmente no diabetes, que reduz a percepção da dor.
- Alteração do limiar de dor, presente em idosos, mulheres e pacientes com insuficiência renal.
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- Episódios transitórios de vasoconstrição ou vasoespasmo coronariano (Prinzmetal, situação conhecida por acarretar uma diminuição no fluxo de sangue que nutre o músculo do coração).
- Aumento da demanda miocárdica (taquiarritmias, hipertensão, anemia, tireotoxicose).
- Disfunção endotelial, que prejudica a vasodilatação adequada durante o esforço.
Quem tem maior risco de desenvolver isquemia silenciosa?
Os principais fatores de risco associados à maior probabilidade de desenvolver isquemia silenciosa são:
- Diabetes mellitus, sobretudo pela neuropatia autonômica.
- Hipertensão arterial e disfunção endotelial.
- Dislipidemia, especialmente LDL elevado.
- Tabagismo, que acelera a aterosclerose e provoca vasoconstrição.
- Idade avançada, com limiar de dor mais alto e maior carga aterosclerótica.
- História prévia de DAC, angioplastia, infarto ou doença multivascular.
- Obesidade, síndrome metabólica e sedentarismo.
- Doença renal crônica.
- Histórico familiar de doença coronariana precoce.
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Quais os riscos da isquemia silenciosa?
Estudos mostram que pessoas com isquemia silenciosa têm risco cardiovascular semelhante, ou até maior, do que aquelas que apresentam dor no peito.
“Se não diagnosticada, a isquemia silenciosa pode evoluir de forma insidiosa, levando à progressão da doença arterial coronariana, com aumento do grau de obstrução das artérias. Episódios repetidos de hipoperfusão podem causar disfunção ventricular, fibrose miocárdica e maior susceptibilidade a arritmias malignas”, ressalta Dr. Sousa.
O risco de infarto agudo do miocárdio, muitas vezes sem sinais ou sintomas, torna-se significativamente maior. Em casos mais avançados, pode evoluir para insuficiência cardíaca ou até morte súbita. “Por não gerar dor, o diagnóstico tende a ser tardio, o que reforça a importância de vigilância em pacientes de alto risco”, alerta.
As complicações em longo prazo da isquemia silenciosa incluem:
- Infarto do miocárdio;
- Insuficiência cardíaca;
- Arritmias ventriculares;
- Disfunção ventricular;
- Aumento do risco de morte súbita.
Sinais indiretos que podem sugerir isquemia silenciosa
A isquemia silenciosa é uma condição considerada potencialmente perigosa, pois pode evoluir para complicações graves antes de ser identificada. Os principais sinais incluem:
- Alterações eletrocardiográficas ocasionais, como infradesnível do ST em repouso ou esforço.
- Episódios de taquicardia, palpitações ou arritmias, especialmente durante atividade física.
- Quedas transitórias da pressão arterial ao esforço.
- Cansaço desproporcional ou redução inexplicada da tolerância ao exercício.
- Dispneia de esforço sem causa pulmonar definida.
- Fadiga súbita ou mal-estar inespecífico.
- Déficits funcionais no ecocardiograma, como hipocinesias induzidas ao estresse.
- Alterações de perfusão em exames de imagem, mesmo na ausência de dor toráci
O cardiologista costuma investigar isquemia silenciosa mesmo sem sintomas quando o paciente apresenta alto risco cardiovascular ou sinais indiretos de possível isquemia. As principais situações incluem:
- Diabéticos, especialmente com longa duração da doença ou neuropatia.
- Pacientes com Doença Arterial Coronária conhecida (pós-infarto, pós-angioplastia ou com múltiplos fatores de risco).
- Idosos, sobretudo com limitação funcional recente ou queda da tolerância ao esforço.
- Alterações no ECG, mesmo ocasionais e assintomáticas.
- Arritmias, episódios de taquicardia ou quedas pressóricas ao esforço.
- Insuficiência cardíaca sem causa definida.
- Planejamento de cirurgias de grande porte, quando há risco aumentado.
Nesses cenários, a investigação precoce evita eventos graves.
Diagnóstico da isquemia silenciosa
O diagnóstico precoce da isquemia silenciosa é feito por meio de rastreamento em pacientes de risco, já que não há sintomas. De acordo com o Dr. Sousa, o processo inclui:
- Avaliação clínica detalhada dos fatores de risco (diabetes, hipertensão, dislipidemia, tabagismo, doença na artéria coronária prévia).
- Eletrocardiograma, que pode revelar alterações sugestivas.
- Testes de estresse (ergométrico, ecocardiograma de estresse ou cintilografia), que identificam isquemia provocada.
- Holter de 24–72h, para flagrar episódios isquêmicos transitórios.
- Ressonância cardíaca com estresse, com alta acurácia para perfusão.
- Angiotomografia coronariana, para avaliar a presença de placas e/ou de estreitamentos das coronárias.
“O diagnóstico depende da combinação entre achados clínicos, eletrocardiográficos e de imagem”, complementa o especialista.
Tratamento da isquemia silenciosa
“Os tratamentos indicados para isquemia silenciosa seguem os mesmos princípios da doença arterial coronariana: controle rigoroso dos fatores de risco, uso de medicamentos quando indicados e eventual revascularização (angioplastia ou cirurgia) quando há isquemia extensa ou lesões críticas”.
O cardiologista indica ainda mudanças no dia a dia que reduzem significativamente o risco causado pela isquemia silenciosa, como:
- Praticar exercício físico regular, orientado.
- Controlar diabetes, pressão e colesterol.
- Parar de fumar.
- Manter alimentação cardioprotetora (padrão mediterrâneo)
- Reduzir peso e combater o sedentarismo.
- Gerenciar estresse e melhorar o sono.
“Essas medidas diminuem episódios de isquemia e previnem complicações futuras”, destaca.
A prática de exercícios pode ser segura para quem tem isquemia silenciosa, desde que realizada com avaliação e orientação cardiológica prévia. Após a identificação da isquemia, o médico costuma solicitar teste ergométrico ou ecocardiograma de estresse para definir limites seguros de intensidade.
“Em muitos casos, o exercício melhora a perfusão coronariana, reduz a frequência de episódios isquêmicos e contribui para o controle de pressão, glicemia e colesterol. Entretanto, atividades vigorosas sem supervisão podem ser arriscadas”, alerta.
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De acordo com o cardiologista, o ideal é iniciar um programa de reabilitação cardiovascular, com progressão gradual, monitorização e foco em exercícios aeróbicos moderados. “A prática orientada é uma das estratégias mais eficazes para reduzir eventos cardiovasculares”, conclui.
Estar atento aos fatores de risco e manter o acompanhamento médico são atitudes essenciais para proteger a saúde cardiovascular e evitar complicações futuras. Consultas regulares permitem identificar alterações antes que elas se tornem emergências, mesmo quando o paciente se sente bem. Agende sua consulta com um cardiologista D’Or.